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domingo, 6 de outubro de 2013

Anjo



Mal o dia havia iniciado e Natália já estava acordada. Gostava de ver o nascer do sol, as nuvens alaranjadas e roxas e sentir a gélida brisa matinal. Já se tornara uma rotina.
Sua família não a entendia, e após inúmeras tentativas de se explicar, acabou decidindo deixar o significado desse gesto para si, tornando-o ainda mais especial. Com o passar dos anos, poderia até se dizer que era algo sagrado.
Fechou os olhos e sentiu uma rajada de vento passar por ela. Abriu um sorriso e se dispôs ao voltar ao passado, como sempre fazia.


***
Era sexta à noite. Ela e Fernanda haviam acabado de terminar os trabalhos escolares. Faltavam poucas semanas até a formatura do colegial. Tinham muitos planos para o futuro e todos esperavam algo maravilhoso na vida das amigas que eram conhecidas por suas mentes brilhantes.
Subiram até o terraço da casa de Natália com seus colchões e travesseiros. Costumavam a fazer isso sempre que Fernanda passava a noite por lá. Admiravam as estrelas, contavam histórias e sonhavam acordadas sobre seus futuros.
Começaram então a planejar a viajem para Princeton, as cartas de aceitação haviam chegado no dia anterior. Ambas estavam muito ansiosas, porém em maneiras diferentes: Natália ficava muda e incrédula, já Fernanda queria sair correndo pela rua e gritando para todos saberem da novidade.
Possuíam personalidades distintas, Fernanda dava ânimo à Natália, e esta acalmava a amiga em suas crises histéricas. Completavam-se.
O efeito de Natália sobre a amiga havia surtido efeito o dia inteiro, mas estava exausta. Fernanda queria fazer algo. Não estava preparada para dormir ainda. Decidiu então comprar uma pizza para ambas comemorarem a tão desejada conquista.
Saiu silenciosamente para não acordar os pais de Natália e disse a ela que voltaria logo. E a outra prometeu que ficaria acordada esperando, o que não era verdade, pois mal a amiga havia saído ela já estava dormindo.
A rua estava mal iluminada e vazia. Fernanda hesitou, mas resolver seguir em frente pela amiga.
Um sujeito desconhecido surgiu por detrás das árvores e começou a segui-la. Ela apertou os passos e continuou sua trajetória. O homem não se deu por vencido e caminhou mais rápido também. Percebendo que ele ainda a perseguia, começou a correr. Ouviu-se apenas um estouro na rua. Seu grito por socorro ficou sufocado em sua garganta. Não havia mais nada a fazer, o tiro havia sido fatal. Um último suspiro escapou de Fernanda, junto com uma lágrima que escorreu pela sua face.
O homem carregou o corpo desfalecido até um terreno baldio. Não achou nenhum pertence de valor, e praguejou pela bala desperdiçada. Largou o corpo por lá, sem se dar ao trabalho de escondê-lo devidamente.
Natália acordou pouco antes do por do sol, assustada. Sonhou com a amiga que dizia “Naty, não te abandonei. Infelizmente fui mais uma vítima da violência. Não poderemos mais nos ver. Quero apenas que saiba que onde quer que você esteja eu estarei sempre ao seu lado te protegendo. Siga nossos sonhos sem olhar para trás. Quando você ficar feliz também ficarei, e se um dia ficar triste, saiba que eu estarei ao seu lado. A polícia provavelmente não vai achar meu corpo fácil... está no terreno baldio a duas quadras daqui. E não se esqueça, eu não te abandonei.”
Natália sentiu falta da amiga e se perguntou sobre a veracidade do sonho. Estava realmente ficando louca.
Somente depois de achado o corpo da amiga que se deu conta do fato. Chorou muito. Sentiria uma falta enorme dela.
Desde então, Natália acordava todos os dias no mesmo horário. Era quando se sentia mais próxima de sua amiga, seu anjo da guarda. Sentia sua presença nas cores do alvorecer e nas brisas suaves.
Ela obedeceu ao pedido da amiga e seguiu sua vida a diante, pondo em prática todos os seus sonhos adolescentes. E ela sabia que onde quer que fosse a amiga estaria por perto, e um dia se encontrariam novamente.  

("Jéssica Stewart")