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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Feliz 2015!

"A felicidade é a soma das pequenas felicidades. Li esta frase em um outdoor em Paris e soube,  naquele momento, que meu conceito de felicidade tinha acabado de mudar. (...)ali, vendo aquele outdoor estrategicamente colocado no meio do meu caminho,(...)tive certeza que a felicidade, ao contrário do que nos ensinam em contos de fadas e os filmes de Hollywood, não é um estado mágico e duradouro. 
Na vida real, o que existe é uma felicidade homeopática, distribuída em um conta-gotas. (...)
[...]
Como tantos já disseram tantas vezes, aproveitemos o momento. E quem for ruim de contas recorra à calculadora para ir somando as pequenas felicidades. Podem até dizer que nos falta ambição, que essa soma de pequenas alegrias é uma operação matemática muito modesta para os nossos tempos. Que digam. Melhor ser minimamente feliz várias vezes por dia do que viver eternamente em compasso de espera."

Leila Ferreira, em Viver não dói

Feliz ano novo a todos! Um 2015 repleto de sucesso e alegria, pois a vida é muito curta para ser desperdiçada com tristezas e rancor. Que venha um ano novo de paz e repleto de pequenas felicidades!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Por Amor. - PARTE 2


-Alô?
 -Amanda?
 -Sim, quem é?
 -O Bruno - respirou fundo.
 -O que tem ele? - A voz do outro lado da linha parecia impaciente.
 -Ele está morto. - Houve um prolongado instante de silêncio de ambos lados da linha.
 -Isso é um trote, certo? - Vanessa não sabia o que responder, olhando fixamente com os olhos arregalados ao primo. Pietro esticou a mão revirando os olhos de raiva e pegou o telefone.
 -É o seguinte Amanda, o Bruno se suicidou.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Táxi

-Táxi? – Agitou as mãos.
Um veículo sedan branco parou a sua frente. O motorista espichou o corpo volumoso como se estivesse atado ao carro. Na verdade, ele e o veículo eram um só depois do tempo que haviam passado juntos. Parecia que as pregas dele eram as mesmas das do banco de couro rasgado.
O homem entrou e sentou-se no banco de trás. Retirou o chapéu negro, repousou as mãos sobre o colo; aspergiu no ar seu aroma de cigarro barato.
-Pra onde vai?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Escarlate

E lá foi ela. Um meio sorriso trêmulo armado na face pálida. Moldada em ossos. Mas o sorrir era metal e no olhar frio tinha cravado cristal. Na alma, doçura. Na carne, secura. Despida das vestes enegrecidas. Mortalhas sofridas. Trajada na lama da escória. Esboçada pela transgressão do apetite voraz social. Desnuda de moral, filosofia pagã, uma ex-moça sã. La foi ela, a rainha escarlate, a tal do embate. Mergulhar de cabeça no mar de sangue do desempate. Não tem mais amante, perdeu pro quebrante. Não quis diamante, se tornou a errante. E lá foi ela. Com expressão pálida. E uma desenvoltura inválida. Pra cadeira da morte, pra derrocada da sorte.
Tudo isso sofreu ela, por na mais tenra idade... Divergir da velha balela.

Por amor.

                                                                                                                "Há um buraco na minha alma. Eu posso sentir...Há um vazio no meu coraçãoVocê pode supri-lo?"






  Foi a última coisa que ele escreveu antes de se matar. Ninguém conseguia entender o porquê de um jovem de apenas 23 anos querer dar fim a própria vida. Os familiares choravam incontroláveis, principalmente seu irmão.


 -Temos que avisar a Amanda. Decerto esse texto era sobre ela.- Todos pararam por um segundo e o olharam.


 -Que Amanda?- Não reconheciam o nome, até mesmo porque não conheciam a moça.


 -Ela era namorada dele... pobrezinho - soluçou - meu querido irmão! - Uma das primas que ali estavam revirou os olhos e bufou.
 -Agora ele é querido...- Cochichou alto o suficiente para que ele pudesse ouvi-la. Agarrou-a pelo braço, tão forte que deixou as marcas de seus dedos na pele carmim.
 -Cala essa sua boca, vadia! - Soltou-a e retornou a chorar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Até onde você iria ''Por Amor''?

Esse novo conto de Brianna Morgan, cheio de mistérios e banhado a sangue, fará você questionar os limites de um amor doentio.

''-Eu preciso saber por que?
-Fiz por amor...''

domingo, 23 de novembro de 2014

Vozes perdidas na neve



Seus lábios secos, gelados de frio, racharam-se a pouco, deixando escorrer um sangue ralo por falta de sais minerais. 
A pele branca clamava por sol, mas as semanas escondido não lhe reservavam tempo para um passeio matinal ou para um piquenique ao ar livre. As lágrimas já cansadas de escorrer pelo rosto torturado escondiam-se no fundo de sua alma, com pavor do que poderia acontecer em seguida.

sábado, 1 de novembro de 2014

O assassino da catedral - Parte FINAL





Abraham Markus, o curioso frade franciscano e que entrara na paróquia a cerca de cinco anos, mantinha sempre uma expressão misteriosa no rosto. Era um paradoxo: Adorava despir-se das batinas e usar roupas comuns, principalmente seus alegres tênis de corrida com um shorts de caminhada à altura do joelho. Enquanto isso mantinha uma vida sombria e aparentemente em total imersão na religião. Sendo assim, fizera poucas amizades na cidade, e aproveitava seu passeio matinal para saudá-los e tomar o café com eles.
Ligou para Hanz, que provavelmente o aguardava ainda para o desjejum matinal, e desculpou-se pelo atraso que cometia naquele dia.
-Não, padre, não demorarei. – A impressão era de que todos da paróquia se autoproclamavam padres. Apesar de alguns deles serem superiores dos outros.
-Certifique-se de que estará aqui às onze da manhã para começarmos os preparativos para a missa dominical. – Cônego Blaun parecia conversar com alguém do outro lado da linha. Abraham aportou em frente a uma porta singela e velha, parou, e prestou atenção à conversa.
Apesar disso, não pode ouvir muito do que se dizia, apenas reconhecer uma segunda voz masculina. Seria mais um dos padres?

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O assassino da catedral - Parte 3









Abriu as portas de seu quarto, estupefato. “Onde raios estariam as roupas limpas? Será que as deixei na dispensa?” Arqueou rapidamente e, dando meia-volta, bateu de cara no rosto fechado do detetive Isaac.




-O que fazes aqui, padre? – Questionou o investigador, dobrando as mãos como uma mãe o faz com as suas quando seus filhos lhe aprontam travessuras.
-Isaac! – Exclamou aturdido, com o coração lhe saltando do peito. – Eu vim em busca de roupas limpas. – Teve de contar a verdade, visto que fora pego com as mãos em uma de suas cuecas boxer novinhas que o frei trouxera da cidade recentemente. – Estava me dirigindo ao banho.
-Então terá tempo de me contar algumas coisas enquanto se limpa com água quente. Dizem que o vapor é um ótimo condutor elétrico e melhora os impulsos cerebrais. – Viu que o religioso o observava com certo desdém, apesar de um sorriso malvado que parecia querer simular o contrário.
-Pois bem. Se quiser me acompanhar então... – E saiu dissimulado, apressado e atordoado, com a cueca balançando na mão e esperando que o detetive não notasse os respingos de sangue em sua batina negra, já coagulados e craquelados perante o frio que se encerrava lá fora.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O assassino da catedral - Parte 2





Na mesma hora, em um hotel não muito longe da catedral e próximo ao centro da cidade de Łomża, acabara de acordar um homem novo, bonito e cativante. Lavou as mãos na pia das estalagens simples e passou a mão pelo sobretudo negro, que usava por cima das vestes também da mesma cor. Recebeu no quarto um singelo café da manhã, contemplando o sol que nascia tímido no horizonte.
-Obrigado, senhor, volte sempre. – O recepcionista pegou nas mãos que um dia estiveram sujas.
-Fique com Deus. – O homem de negro saiu, deixando um ar místico no lugar. Andava tranquilamente por entre as ruas de pedra do centro histórico da cidade.
Naquele dia, todavia, o jovem não entrou em lugar nenhum. Seguiu caminhando e rodeou a igreja, esquivando-se de alguns policiais que analisavam a catedral, indo diretamente à casa paroquial, decidido. Contornou o perímetro de um pátio sossegado atrás da construção, passando a mão nos bancos cobertos de neve, limpando a sujeira por entre os dedos ásperos.
Um daqueles policiais tocou-lhe no ombro com cordialidade.
-Padre! O senhor não pode prosseguir, infelizmente. – Seu coração pulou de susto.
-Céus, você realmente me assustou. – Riu, desconfiado. – O que aconteceu por aqui? – Olhou para o horizonte e para o resto das pessoas que estavam à frente da catedral.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Tudo azul

Seus olhos me seduziam. Estava eu estático, ela também. Ambos nos fitando como rivais; bichos do jeito que éramos. Azuis como sempre foram estavam suas íris, na cor azul-piscina, radiantes e imersas em profundo mistério. A pupila sempre dilatadíssima antes me preocupara, mas agora, e somente agora, pude ver que elas eram assim mesmo. Metamorfose? O fato é que seus olhos me seduziam.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

E assim se faz fim

Colocou o casaco, marrom de botões pretos, uma gola levantada pra cima, as mangas sutilmente arrebitadas e os bolsos devidamente fechados a velcro. Logo em seguida vieram as calças, pretas e de corte singelo, um cinto branco a mantém longe de se deixar levar pela gravidade e rabiscar um enorme vexame na vida do moço. Os sapatos, marrons também, mas de couro e sola escura que estralam ao beijar o solo. Os cabelos negros são penteados para trás e o gel lhe dá uma aparência molhada e engravatada de sempre.

domingo, 28 de setembro de 2014

Devaneio


Vi-me correndo em uma campina graciosa, quiçá encantada. As flores, de várias espécies e cores diversificadas cobriam todo o chão, exalando um perfume doce. Borboletas cobriam o ar à medida que meus pés, descalços, tocavam o chão. Simpáticas, voavam ao meu redor, roçando em minha pele e provocando uma gostosa sensação. Abri meus braços e me virei para o céu, agradecendo a Deus pelo momento maravilhoso que estava me proporcionando. Os raios de sol tocaram meu rosto, irradiando seu calor e me enchendo de alegria.
Um belo beija-flor se aproximou, batendo suas asas rapidamente e se escondendo em meus cabelos, fazendo cócegas. Estendi a palma da mão para acariciá-lo e algo aconteceu.
O céu, antes limpo e azul, tornou-se escuro e com nuvens de um cinza muito macabro. As flores jaziam mortas no chão e em seus lugares surgiram outras, cadáveres, e plantas carnívoras. O perfume agridoce existia apenas na vaga lembrança, que se esvaía. As borboletas se transformaram em corvos, que esganiçavam estridentemente, perturbando a paz que outrora existira.
A escuridão me engoliu.
O pequeno pássaro que me trouxera tanta felicidade mergulhou rapidamente no ar e usou seu bico afiado para penetrar em meu pé, causando um machucado tenebroso. O sangue jorrou de forma inesperada. O pequeno buraco causado pelo pássaro começou a se expandir, deixar parte do meu esqueleto à mostra. Logo percebi que a ferida estava enfestada de minúsculas larvas que decompunham minha carne.
Caí no chão.
Tentei gritar por socorro, mas o ar estava rarefeito. Meus pulmões queimavam e minha garganta se fechava. Restava apenas esperar por meu final. Fui arrastada, subitamente para a realidade.
Acordei.
Estava em casa como de costume. Minha cabeça doía. Aparentemente estava tudo normal. Levantei-me.
Instantaneamente, avistei em meu pé algo horrendo, pior do que qualquer ferida purulenta em decomposição. Dessa vez, consegui soltar um grito de horror. Comecei a chorar desesperadamente e, à minha porta, surgiram inúmeras pessoas. Olhando com pavor, consegui enfim dizer:


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

O assassino da catedral - Parte 1



O homem experiente semicerrou os olhos e coçou o queixo, ordenando com certa rispidez à equipe pequena, com uma xícara gigante de café na mão. Subiu os cinco degraus e tocou na porta de madeira, cheia de fibras, lotada de histórias, e lembrou-se de um passado perdido que a igreja vivera durante o período da guerra, onde judeus se esconderam ali dos nazistas que invadiram a Polônia. Abriu com dificuldade as portas da catedral e contemplou a escuridão em seu interior. Também as janelas, deixando entrar ar e luz solar por entre os bancos, logo visualizando a cena do crime.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Vida e morte poética

Eu morri
para dar vida aos meus textos.
Não sinto.
Não escrevo.
Tão pouco sei o resultado final.
Quanto ao significado,
quem imprime é você.
Sou apenas um instrumento.
Usada pelos meus versos.
Que assim seja, afinal.
Enquanto houver palavras a serem ditas,
enquanto tiver algo a ser expressado,
estarei morta
para trazer vida
à cultura,
à arte,
às palavras que vivem em mim
("Jéssica Stewart")

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Penumbras e Sol

Dentre meus devaneios,
vi uma penumbra se aproximar.
Fria, escura.
Envolvia-me.
Sugava-me.
Transformava-me em um alguém diferente.
Quem eu era?
Quem havia me tornado?
Não sei, não sei...
pois eis que o Sol surgiu.
Minha vida se purificou.
Você juntou todos os meus cacos.
E minha vida viciou na sua luz.

("Jéssica Stewart")

Lembrete

Quando a tristeza lhe abater
e o cansaço te desanimar
não se entregue,
não se deixe levar.

Lembre-se de que ainda estou aqui:
Vivo,
Respiro,
Sonho.
Assim como você.

Faça-me de muletas se lhe apetecer.
Me ligue, 
precisando ou não...
eu sempre estive aqui.
Apenas, por favor, não se esqueça de nós.

("Jéssica Stewart")

Bucolismo

Vejo pássaros atravessando vales com seu voo gracioso.
Árvores dançam com o revitalizante sopro do ar.
Há uma energia que reverbere por todos os lados.
Rodeia-me.
Pede para entrar em minha vida.
Eu logo cedo.
Instantaneamente sinto, tudo.
Há um doce perfume sendo exalado pelas flores endêmicas.
Há vida por todos os lados.
Há amor.
Há felicidade.
Meu corpo sucumbiu,
minha mente enfim encontrou seu descanso.
Estou em paz.

("Jéssica Stewart")

Recordações

     Mal eram seis horas e seu despertador soava. Sonolenta, pegou o celular e colocou uma música aleatoriamente a fim de espantar o sono. Sorriu. Era a música que ele gostava de cantar.
     Uma gota salobra pulou de seus olhos enquanto admirava uma foto deles. Ela, sorridente - como sempre -, agarrava-se ao pescoço dele, que provavelmente emitia um grito no momento capturado.
     A saudade a dominava, dominava, dominava... queria sentir o perfume dele, queria abraçá-lo, queria ao menos ver o tom bronzeado de sua pele. Outra gotícula percorreu o trajeto. Veria-o logo, dizia a sim mesma com convicção, que logo se esvaía e se transformava em lamento. Queria o bem, tranquilo e sereno, como sempre fora.
     Admirava-o, amava-o, não como as pessoas comuns. Sentia uma intensa conexão por ele e isso tornava possível o florescimento de sentimentos puros. Era seu melhor amigo, de fato, mas via-o como seu anjo, mandado à Terra para tornar seus dias coloridos.
     Guardou a foto, relutante, e se dispôs a trocar de roupa. A vida seguiria em frente e ela teria de lutar para acompanhá-la, com ele ou sem, mas sempre por ele.

("Jéssica Stewart")

Desista

Abra teus olhos, querido
e veja que na vida há
muita coisa além para me preocupar.
Teu amor já não me encanta.
Teu sorriso não mais me apaixona.
Aprendi a viver sem ti
e nessa ausência, aprendi a ser eu.
Somente eu.
Nada mais.
Agora respiro!
Agora EU VIVO!
Não adianta colher um fruto já podre.
Ages tardiamente, meu caro.
O amor que antes existia, não habita mais
esse peito dilacerado e vazio que há em mim.
Desista.
("Jéssica Stewart")

Entre Contos - Concurso

O site Entre Contos desenvolve ocasionalmente concursos de escrita sobre diversos assuntos e, desta vez, o tema é "Conto baseado em uma música". Claro que Walter Crick e Douglas Moreira não ficariam de fora desta. Entre no site, veja o regulamento e vote em nossos autores. Boa sorte a todos eles!


Texto de Walter Crick - Faremos do mesmo jeito (Pois adoramos os problemas)
Música : Balaclava - Artic Monkeys





Texto de Douglas Moreira - E Eu Tentarei Consertá-la


Música: Fix You - Coldplay




sábado, 20 de setembro de 2014

Apoteose de Ícaro - Parte 4 (Final)

Olhei para a escuridão que se arrastava no vale tenebroso lá embaixo, com a luz do por do sol batendo nas plumas grudadas na armação e deixando-as douradas, balançando com o vento. Senti-me como um jovem pássaro prestes a voar pela primeira vez. Ouvi as brisas sussurrando em meu ouvido e provei o sabor da liberdade.
Sem perceber o que fazia, joguei-me do penhasco, lançando-me à morte ou à apoteose de minha vida.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O assassino da catedral - Prólogo

As velas bruxuleantes davam um tom mórbido ao local, com as chamas dançando na penumbra, hora azuis como o medo, hora laranjas como a coragem. O silêncio era ensurdecedor. Os longos cachos encaracolados pendiam molhados de suor, e os fios grossos ressaltavam ainda mais a sensualidade natural da mulher. O nervosismo tomava conta e não a deixava perceber o par de olhos que a observava por entre a escuridão latente, comendo-a com o olhar azul de um homem sedutor. Seu pálido rosto feminino escondia-se sobre um véu negro, rendado, e que fora colocado especialmente para deixa-la anônima; impedindo a visão de seus finos traços.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Arte de saber

Sabia-se que nem sempre é sabido
que o sábio não sabe o que deve ser.
Nem mesmo a sábia sabedoria
revelaria um dia
que fim teria de ter.
Só sei o que me foi falado,
por vezes revelado,
coisas que mal sei explicar.
Mas não é necessário ser um sábio
para saber o que eu sei.
Quer saber um segredo?
PSIU! Um dia te contarei.
("Jéssica Stewart")

Apenas um poema

Agora resolvi escrever
Coisas do coração
A alegria de poder viver
Detendo sempre a razão

Por que não desviar-me então
Daquela reles solidão
Sutil impedindo-me de crescer
Sutil, lembrando-me de v...

Walter Crick

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Oblivion

Andava por essas ruas vazias,
inóspitas, sem vida,
despindo de suas vergonhas,
cuspindo horror por suas entranhas.
O calor humano jazia
dentre as paredes, agora frias.
Pude sentir o esquecimento chegar.
Envolvia-me por completo, não podia suportar!
Não resisti.
Entreguei-me ao Oblivion.
Sim, eu fui mais longe do que você.
("Jéssica Stewart" e "André Luiz")

domingo, 31 de agosto de 2014

Apoteose de Ícaro - Parte 3

Pedras e tropeços depois, além de gotas de suor que lambiam meu rosto e insistiam em desmascarar meu corpo nu, e eu havia chegado ao cume do planalto rochoso.
-Ícaro! – A voz soava-me familiar. Pude, por conseguinte, enxergar seu dono ocupado com peles de carneiros para secar ao sol, um velho ranzinza apesar de suportar um ego extremamente engenhoso. Depois deste primeiro contato visual, tive a certeza de quem era o dono da voz rouca e cansada.
-Pai! – Abracei-o com garra. Pela segunda vez em suas eternas vidas, os deuses viram um espartano chorar, desta vez de alegria.
Um não, dois deles.
E nossa reunião tão aguardada passou-se lentamente, ambos despidos como viemos ao mundo e felizes por termos nos encontrado. Não mais importava-nos as vergonhas saltitantes; somente a felicidade do reencontro entre pais e filho.
Abraçamo-nos ternamente até que resolvemos compartilhar nossas aventuras durante o período em que estivemos separados. Contei sobre o julgamento, a parte que eu não sabia os motivos de minha condenação, os abusos dos atenienses pervertidos, as garotas da ágora que riam de meu corpo nu e todas as outras experiências que passei pelo labirinto que ele mesmo havia construído; cujo estávamos presos naquele momento.
Acabei omitindo para meu bem a parte da interação orgânica com a dríade da macieira, Demétria - apesar de lembrar-me com carinho dela – já que nas lendas antigas nos dizem que é um mau agouro relacionar-se tão intimamente com uma hadríade.
Contei somente sobre a maçã dourada que rolara incessantemente e guiara-me até aqui.
Dédalo, meu pai, ficou maravilhoso e logo depois de ouvir minha maluca e mirabolante história, tocou-me no ombro e disse suavemente em meu ouvido palavras que soaram como líras e cítaras afinadas no theatro graeco, que, todavia, fincaram como espadadas em meu peito.
-Eu construí esse labirinto. Eu sou seu pai. - Parou momentaneamente, e pude sentir seu braço se apertando sobre meu ombro, sua respiração sobre minha orelha e sua barba roçando nela. Deixou-me com o coração na boca e sufocou-me lentamente aquele silêncio mortal. – Sei sobre Demétria, não tente me esconder nada.
Fiquei em choque, mas ele me tranquilizou assim que percebeu meu estado emocional. Abraçou-me novamente em sinal de consolo, e pude sentir suas preocupações paternas se abaterem sobre mim.
-Não se preocupe meu garoto, a maçã é o fruto proibido e, de tão prazeroso e gostoso de provar, seduz aquele jovem que passar por lá. - Sorriu e mordeu os lábios. Olhou para mim e prosseguiu cautelosamente. Devo confessar que Demétria era muito bonita...
Deixando tudo ao relento, pude entender que Dédalo sugeria algo em suas palavras.
-Pai, você não...
-Sim, eu já. E não me leves a mal.
-Pai!
Ele riu.
-Mas, espera. Quantos anos tem Demétria?
-Ela já estava lá quando construí o labirinto, então estimo que tenha pelo menos quinhentos anos.
-Quinhentos anos?!
Ele riu novamente.
-Terei filhinhos com aquela mulher?
-Na verdade, as ninfas não podem engravidar-se de humanos. Maldição dos deuses.
-Mesmo assim. – Pensei nos momentos que compartilhei vida com ela. – Eu mordi o fruto!
Dédalo se abaixou ao chão e pegou as peles de cordeiro que havia deixado cair. Lembrei-me da perfeição de Demétria, do quão delicioso fora estar a seu lado, apesar dos pesares.
-É melhor esquecermo-nos disso e continuarmos nosso trabalho por aqui. – Ele virou-se e apontou para a casa que, pelo visto, ele próprio havia erguido sozinho. – Ou queres deixar seu velho pai bolar a nossa fuga a sós?
Não pude resistir ao convite, obviamente.

Exímio caçador, meu pai, Dédalo, abatera dois carneiros selvagens que vagabundeavam pelos campos do planalto e curiosamente existiam por ali. Um bosque carregado de árvores frutíferas diversas e de vegetais incríveis se estendia por entre riachos e pequenos cursos de água, que proviam vida e diversidade biológica ao lugar, tornando-o certamente muito mágico a meu ver, com algumas ninfas pulando e brincando de esconde-esconde. Elas se escondiam atrás de pedras lisas e barrentas, ora rindo silenciosamente, ora não se aguentando e gargalhando alto; a expressão da felicidade.
Fui atrás de alimento exatamente por lá. Acabei encontrando tomates doces e grandes como um besouro Hércules, pepinos levemente macios, uma variedade exorbitante de oliveiras, videiras, aroeiras, amoreiras, alcaparras, berinjelas frescas, pequenas frutinhas que não soube o nome e outras tantas que, de tão coloridas, suspeitaram meus instintos. Contudo, nada de macieiras por ali.
Recolhi o que consegui coletar em um cesto e voltei à casa onde meu pai havia se instalado comigo. Encontrei-o mergulhado entre velhos papeis, com projetos de algo incompreensível para um leigo como eu. Tudo o que pude imaginar era que se tratava de uma aerodinâmica indescritível e, tendo em vista que era Dédalo quem o fazia, o projeto era indubitavelmente perfeito. A única coisa que pude perceber, logo, foi a inspiração natural dele nas formas curvas que se assemelhavam às aves canoras que habitavam a Grécia desde sempre.
Ele observou-me com graça e sorriu perante minha curiosidade superficial.
-Quer saber o que é isto? – Apontou o monte de projetos sobre a mesa, indicando a preciosidade da riqueza de detalhes que estavam escritos, rabiscados e apagados neles. – Já pensou em voar como um pássaro, meu filho?
Espantei-me com a pergunta.
-Para falar a verdade, já. – Ele riu com minha resposta. – Sonho constantemente em transfigurar-me como Apolo, alcançar os céus como um pássaro. Livre.
-Pois então terá uma surpresa especial. – Revirou os montes e guardou os papeis debaixo de uma pedra. Pegou meus braços e me guiou a outro cômodo, onde uma ceia mediterrânea ansiosamente nos aguardava.

Após nos deliciarmos com o banquete regado não sei como a vinho grego, decidi não perder o foco espartano que corria em minhas veias, e pus-me a exercitar meus músculos correndo por entre as campinas singulares que desabrochavam por ali.
Passei por entre árvores que abrigavam dríades campestres, saltitando e cantando a meu lado músicas de melodias singelas, dando-me fôlego para prosseguir correndo, ao passo que eu suspirava cada vez mais em virtude da perda de Demétria. Balancei a cabeça para afastar as lembranças que corroíam minha mente aos poucos e deixei-me levar pelas néfeles lindas que insistiam em tocar-me até mesmo em lugares inapropriados, arrepiando inclusive os cabelos aparados que recobraram o crescimento.
Afastando-me um pouco dos bosques, pude perceber a diversidade de vida que inundava o planalto e compartilhei o espaço que tinha desde com carneiros a frangos selvagens, espantosamente educados, e alcancei uma formação lacustre digna de crineias que vivem pelas fontes de toda a Grécia.
Bebi da fonte e afastei-me lentamente das moças nuas que me seduziam sob o arco-íris que se formava pela passagem da luz entre as gotas respingadas da cachoeira, uma linda e maravilhosa formação típica de Íris.
Retornando à casa, mais tarde, pude deparar-me com meu pai absorto em seus pensamentos, rente à uma armação estranha e nova, inédita para mim. Ele percebeu minha presença sem eu me aproximar o bastante para tal.
-Ícaro! Venha ver sua surpresa! – Abarcou uma veste armada bem feita, levantando-a contra o sol do fim de tarde, vermelho-alaranjado. – Ponha logo! – Dirigiu-se a mim, estendendo a veste alada às minhas costas, pondo-a sobre meus ombros.
Aparentemente frágil, ela revelou-se exímia e ágil em meu corpo, com amarras de couro bovino se adaptando facilmente às minhas curvas lombares.
-Enquanto você não estava aqui, planejava isto com afinco. – Apertou um pouco do lado direito, fazendo-me sentir cócegas.
-Penas? – Questionei, ainda sentindo o roçar de pequenas pontas fofas sobre minha pele.
-Certamente! – Ele levantou duas alças também encouraçadas e afivelou-a sobre meu abdômen. – Abati dois gansos silvestres em uma lagoa próxima daqui. Usei as penas junto à cera de abelhas para grudá-las na armação. – Estavam seguras as amarras abdominais. – Firmes? – Ele tocou na fivela que as segurava, olhando para todos os pontos do conjunto e procurando erros e vazios que poderiam prejudicar o voo.
-Sim, firme. – Respondi ainda inseguro sobre aquilo. – Achas mesmo que posso voar? – Não queria ficar desacreditado.
Meu pai se afastou um pouco, virou-se e encarou o infinito labirinto que se projetava à nossa frente.
-Eu sou Dédalo! – Abriu os braços e recebeu a luz amarela do sol. – Eu projetei tudo isto aqui e não posso projetar asas? – Gargalhou em seguida, provavelmente se sentindo um louco.
Dédalo sendo ele mesmo. Louco e seguro de si. Este é meu pai.
E eu confiava nele.

-Vamos? – Pegou-me pelos braços e seguimos até um desfiladeiro íngreme, provavelmente onde eu fora levado pela maçã dourada. – É daqui que você deve pular.

André Luiz

domingo, 3 de agosto de 2014

Apoteose de Ícaro - Parte 2


Levantei-me com uma dor irrelevante nas juntas intercoxais e resfoleguei um líquido que poderia ser sangue, visto que não conseguia enxergar nada além do pretume do escuro à minha frente. Com a coluna ereta, segui por alguns metros sentindo a lama viscosa que abrogava minhas esperanças de um dia retornar à Esparta. O caminho curto que tinha para seguir repartira-se em dois, e eu já presumira a dificuldade que teria para sobreviver ali.
Sobre o labirinto, meu próprio pai, Dédalo, contou-me certa vez que este era amaldiçoado pelos deuses. Por conta disso, era tão instável que praticamente era único para cada pessoa, e que fora planejado para ser intransponível. Contudo, uma figura conhecida da família possuía a passagem para o fim do labirinto: Ariadne.

[Todavia, era fugira com o amante cerca de dois dias antes de me prenderem e, para meu desespero, largou o precioso fio condutor dentro do labirinto, ao relento.]

A parede sólida confundia meus sentidos, com um misto de pedras de séculos distintos; um lodo milenar e gosmento; um cheiro de mofo que me causava tonturas e uma sensação fria que enlouqueceriam qualquer um.
Pisei deliberadamente no chão, sem ao menos acanhar-me com o que poderia encontrar. Jurei por Ares que iria rever meu pai ao menos mais uma vez antes de dirigir-me aos campos elísios. Impulsionei os dedos no solo molhado e joguei o corpo pela frente. Eu estava acérrimo, firme em meu objetivo. Abjurei de meu treinamento metodicamente militar e usei dos instintos humanos de sobrevivência. Sabia que os túneis eram imensos, mas mutáveis de acordo com o êxtase demoníaco que cada um nutria. Por isso, eu já esperava surpresas inesperadas.
Pus o dedo na boca, deixando que a quente saliva se apoderar dele e em seguida coloquei-o no alto da cabeça, respirando pausadamente e mantendo o controle sobre minha mente. Esta técnica poderia ser eficaz naquele lugar assombroso. Senti uma tênue corrente de vento passar pela mistura na ponta do indicador, indicando-me o sentido que passeava o vento. Descoberto o caminho, já sabia o que fazer.
Corri o mais rápido que pude, sem pestanejar.

O treinamento militar espartano – O melhor de todos – concebeu-me tamanha destreza e domínio corporal que eu era suficientemente capaz de debandar em corridas épicas, por duas ou quatro horas incessantemente sem me esgotar, parando às vezes para curtir a paisagem, mesmo que no escuro. Após cerca de três horas e meias respirando lodo e praticamente engolindo a melancolia asquerosa da escuridão, pude enxergar uma luz no fim do túnel.

Finalmente pude ver o azul completo do céu sobre minha cabeça, restringindo-se a uma tela azulada com pingos brancos malfeitos, quase vazios; nada além de pássaros ao longe para compor a paisagem celestial, voando sem saber o que se passava por debaixo de seus corpos aerodinâmicos. Os vais e vens de aves brancas indicavam-me que a vida ainda me aguardava para uma morte cruel, sozinho e solto no meio de um labirinto.
Além da luminosidade revigorante, o cenário do lado de fora daquele antro negro era muito mais atrativo, sem deixar de ser misterioso: A lama cedia lugar à uma grama verde, fina como uma relva, de onde vinham não mais vermes e pragas, mas sim seres cilíndricos, marrons, e que deglutiam os grãos de terra com prazer; filhos de Gaia. Nas paredes - Que deixaram de ser pedras para se tornarem um emaranhado de trepadeiras – cresciam samambaias e outras plantas de caules aéreos, produzindo um ecossistema muito maior do que o encontrado no interior dos úmidos túneis pelos quais eu passara.
As folhas destas plantas eram um caso à parte, visto que estendiam-se rumo ao centro do caminho que se estendia e se alargava à minha frente, roçando em minhas vergonhas desnudas e no resto de meu corpo descoberto, gerando um êxtase curiosamente prazeroso, seduzindo-me a continuar na corrida.
Todavia, a sensação de liberdade era tão falsa quanto chuva no tártaro. Eu sentia que estava livre, mas não estava; ao menos não como desejaria estar.
Aos trancos e barrancos, alcancei uma pequena elevação, uma colina graciosa de onde pude ver as terras do labirinto se estendendo quase que infinitamente, até onde nem mesmo Zeus poderia ver, sabe-se lá para adiante dos estábulos de Apolo. Recostei-me em uma única árvore que brotara ali, já carregada de suculentas maçãs e radiante em sua coloração verde acobreada como efeito do sol que já se punha no horizonte. Deliciei-me com um banquete vegano monofrutífero, do qual pude saborear do único fruto daquela terra, até o crepúsculo magnífico dos deuses que encerrava o dia e iniciava a noite por toda a Grécia.
A grama fofa foi se aproximando cada vez mais de meus cabelos que tornavam a crescer, incentivados pelo ritmo anormal daquele lugar, e as finas folhas embalaram meus suspiros noturnos, derrubando em sonhos aquele brutamonte espartano que um dia eu fora.

Acordei com um doce sopro aromático me persuadindo a despertar, junto a um calor acolhedor vindo do sol que me cumprimentava amigavelmente. Abri as pálpebras lentamente, ainda pendendo entre o que era sonho e realidade, e aos poucos foi se focalizando algo que marinava meu corpo estendido na relva; quando sob a sombra fresca da macieira as folhas verdes dançavam ao som do vento matinal, deixando-me estagnado observando-as.
-Já acordou? – Fui surpreendido por uma voz feminina que interveio em meus ouvidos, seguida por uma figura angelical de uma graciosa dama, que parecia tremular sobre os raios iluminados, e aparecia para mim como uma figura alva e fluida, quase um sopro primaveril trazendo-me cheiro de maçã.
Parecia-me familiar, mesmo que o aroma frutífero me entorpecesse de tal forma que me desviava inconscientemente do assunto. Concentrei-me no rosto linear e delicado da dama.
-Você. – Ressabiado, estendi as mãos para certificar-me de que era real. Encontrei uma carne macia e uma pele lisa como pêssego. – Você...
A moça riu, e respondeu-me com simplicidade.
-Demétria. – A garota sorriu novamente, pura e delicada.
-Deméter? – Pensei logo na deusa da agricultura, como se eu fosse honrado por essa visita; principalmente recordando-me das histórias sobre as aparições da olimpiana.
-Não. Demétria. – A garota me corrigiu, arquejando os braços fluidos como um vapor denso, saltitando alegremente a meu redor e voltando com uma bandeja deliciosa de maçãs vermelhas assim como seus lábios; além de um pouco de ambrosia, o néctar dos deuses. – Sou uma dríade das florestas. Ou melhor, a hamadríade da macieira do labirinto. Prazer em conhecê-lo. – Estendeu a mim a bandeja, e posteriormente as mãos singelas. – Você é...
Indubitavelmente, ela era uma figura viva e impressionante.
-Ícaro. – Respondi.
-Tenho uma coisa para lhe mostrar. – Conduziu-me novamente ao chão, porém de outro ângulo da colina pequenina que abrigava a macieira solitária. Tocou-me no rosto, com um calor aconchegante e sem segundas intenções. Virou-me cerca de quarenta graus ao leste e nos sentamos na grama verde, exatamente onde ela havia planejado. – Olhe ao horizonte. – Seu rosto estava colado ao meu, e pude sentir o maravilhoso hálito de maçã que saia de sua boca recessiva de dentes brancos como a neve. – Vês algo?
Realmente, ontem quando cheguei à colina, o labirinto parecia se estender até os limites da visão; contudo, guiado pela mitológica figura campestre, pude ver algo mais no horizonte. Algo tão óbvio que quase me flagelei internamente por não tê-lo visto antes.
Fechei as pálpebras quase completamente e focalizei uma construção imponente, no estilo gregoriano, com colunas rústicas se erguendo simetricamente sobre um planalto suntuoso. Demétria me mostrava a casa de meu pai que, segundo ela, fora construída há muito tempo, e desde então ficava vazia a maioria do tempo. O detalhe crucial é que ela era exatamente igual à que vivíamos, eu e meu pai, em Esparta.
Olhei para a dríade fixamente, que sorria e cantarolava uma música suave, tocando minha alma através de uma melodia romântica, exercendo leve pressão sobre meu coração; que ficou indeciso exatamente quando pude ver seu olho brilhante por detrás dos cabelos loiros. Ela retribuiu o olhar amavelmente e sorriu para mim um sorriso tão bonito quanto a luz do sol quando nasce no horizonte.
Meus pulsares ritmados dentro do peito aumentaram repentinamente, como se uma centelha se acendesse em meu cerne.

Demétria continuava no lugar, desta vez olhando par ao infinito e pensando em sabe-se lá o quê, com uma expressão bucólica. Um aroma de chá correu o ambiente e entranhou-se pelo ar que eu respirava. Era chá de maçã.
Nunca fui de apegar-me ao coração e os sistemas espartanos não nos permitiam fazê-lo, mas uma flor parecia brotar nos confins de minha mente, linda e alva, delicada e forte ao mesmo tempo, com os brotos minúsculos e rosados trançando caminhos imaginários em meu peito, atraindo polinizadores vindos diretos do coração. Estes, zanzavam e visitavam uma por uma, fazendo a vida acontecer. Estes mesmos, passeando por ali, fizeram nascer em mim um desejo inclausurável.
Fui de encontro aos lábios rosados e beijei-a ternamente, assim como dois jovens que descobrem o amor, com meu coração derretendo-se e passando do ferro para algo muito mais humano. O beijo, além do sabor do amor, tinha um sabor de maçã: Delicioso.
Ambos coramos, ainda com os lábios grudados. Demétria respirava felicidade, em sintonia com meus sentimentos. Já diziam os sábios gregos: “A felicidade é a vocação do ser humano. Nascemos para sermos felizes, e a tristeza é somente um acidente de percurso, totalmente evitável.”.
Decidi deixar passar tudo aquilo que eu acreditava e joguei-me de cabeça no amor.
Acabei estatelando-me ao chão.

A linda jovem por quem eu me afeiçoara e que me trouxe lágrimas contidas de alegria começou a vaporizar-se no ar a meu redor, escapando-me às mãos quando tentei ater-me a seu corpo.
-Não! – Pus as mãos em um gás aromático, preso em um corpo amorfo; ansioso por tocá-lo mais uma vez que fosse. Para meu delírio geral, os olhos acastanhados foram se afastando mais e mais, sumindo ao som de uma música triste e melancólica vinda do fundo de nossas almas, à sombra de um amor impossível entre um humano e uma dríade.
Desapareceram-se as curvas, os olhos vivos e marcantes; a voz doce. Restou intacta apenas a macieira centenária.
Abracei-a como se adiantasse de algo.
Estava quente, mas não era suficiente para transmiti-me o fervor de Demétria. Pela primeira vez na vida, os deuses gregos viram um espartano chorar um choro tão puro, sincero e sofrido.

Após mais algumas horas de lamentações, encostado na árvore delicada, acariciando a casca forte - Porém fina -, a única coisa que consegui fazer foi virar-me em direção à casa visível no horizonte, vendo que nada mais podia fazer acerca daquele amor amaldiçoado pela vida. Iniciei uma descida sofrida pela colina.
Neste exato momento, eis que cai ao chão uma fruta dourada como os cabelos de Demétria, linda assim como ela; que rolou instantaneamente, descendo acelerada ladeira abaixo. Segui-a de perto. Dez minutos depois e entranhávamo-nos juntos novamente no labirinto, eu e a maçã animada, seguindo um caminho que somente ela conhecia.
O sol começara a sumir lentamente, tendo em vista que nos afundávamos no labirinto, por entre as folhas densas das verdadeiras árvores que cresciam nas paredes do labirinto, em um lugar onde as samambaias eram as deusas; o escuro sufocante um titã; e eu um mero espartano.
Suprimi um suspiro assim que a fruta estagnou-se à encosta de uma subida íngreme e sinuosa, afã das cabras montanhesas, que estava encoberta por uma espessa névoa, uma cerração que insistia em permanecer ali; razão essa pela qual eu não conseguia visualizar nada no topo.

A maçã dourada partiu-se sozinha ao meio, revelando-me que aquele era o local por onde eu deveria subir. Resolvi que o melhor a fazer era começar logo aquela escalada, que já começara de forma errada. Somente Zeus sabe o que pode nos acontecer.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Libertação





Isa era apenas mais uma pessoa. Era jovem, mas não se comportava como tal. Estava alheia a tudo que acontecia a seu redor, não por opção, mas por ser considerada um estorvo a todos. Queria ser aceita, importante, ao menos para alguém. Buscava ser sempre uma pessoa diferente para agradar quem estava ao seu redor. Seus esforços eram em vão.
Seu frágil coração já não aguentava tanta traição, egoísmo, falta de caráter; decidiu correr atrás das coisas boas da vida, já que acreditava com fervor que elas poderiam existir. Consideravam-na, por isso, como uma tola e aos poucos passou a se tornar invisível. Gradativamente, a menina antes feliz e radiante se viu afundando em uma tristeza densa, que a sugava sempre mais. Não havia como lutar contra aquele sentimento.
Assim foi levando sua vida, como se sua presença se tornasse um fardo cada vez maior às pessoas. Não a todos, vamos deixar isso bem claro, uma vez que possuía utilidade na vida de alguns que a usavam e deixavam quando não tinha mais serventia. Era mais um objeto, como um lápis, uma caneta ou até mesmo um travesseiro.
Não possuía ambições, queria viver um dia de cada vez. O amor não fazia parte de seu dicionário, não podia se dar ao luxo de tê-lo. Como disseram certa vez, o amor é uma fraqueza. Sabia também que se caso um dia isso fosse acontecer, não seria correspondida. Afinal, quem teria coragem de amá-la?
Aos poucos foi perdendo sua identidade. Suas músicas não a pertenciam, seu estilo não a agradava. Tornou-se agressiva, amarga. Sentia-se em um mundo diferente e às vezes confidenciava isso a algumas pessoas que logo se aproveitavam da situação.
Via em seus livros, o ápice da felicidade. Sentia falta da época em que não era rejeitada, nem marginalizada. Buscava se encontrar com o passado nas obras de diferentes escritores. Era nesses preciosos momentos que se sentia livre, próxima de seu verdadeiro eu.
Zombavam, caçoavam... e por diversas vezes, ficara sozinha chorando, refletindo o quão é horrível viver.
O espelho era seu único inimigo. Não conseguia encarar suas provocações por muito tempo. Gorda, feia, com muitas espinhas, muitas olheiras... poucos sorrisos. A falta de lábios a perturbava, assim também era com os dentes que achava grandes demais. O cabelo, sempre rebelde, era escondido por um coque rápido, apressado... deixando a mostra seus braços roliços.
Sentia-se inútil e odiava quando conseguia abrir os olhos pela manhã. Era mais um dia cruel que teria que enfrentar.
Em uma noite, cansada, deu boa noite a seus pais, colocou sua irmã com afeto na cama e fez questão de pronunciar um “eu te amo” a todos. Rezou uma prece, não por si, mas para a humanidade. Antes de se deitar, foi até a lavanderia e fez uma mistura com ervas, produtos de limpeza e formicida. Degustou a sua libertação, que desceu amargo como sua vida, e deitou-se em sua cama. Jamais acordou.
(“Jéssica Stewart”)