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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Valentine #2

- Santa Barbara, Califórnia, 2003. 

     Era dia de São Valentim. Fim do péssimo dia, para ser honesta. Por quê? Ora! Porque simplesmente ninguém havia lembrado de mim.
     Eu costumava a receber cartinhas anônimas de alguém especial todo ano. Mas esse ano, meu correspondente secreto não lembrou.
     “Boa tarde Aninha!” Dizia uma mensagem do Davi. Confesso que perdi o ar dos meus pulmões quando vi que havia uma mensagem não lida dele. Sim, achei que era algo a mais, que ele era meu anônimo... mas eram apenas falsas esperanças.
     “Boa tarde Dayves kkk” Respondi usando o apelido que ele menos gostava.
     “Dayves? Acabou com a minha alegria” Mandou imediatamente.
     “Alguma coisa esta acontecendo U.U”
     “Ó kkk acontecendo? Onde?”
     “Como você é bobo kk. Nunca me responde rápido :p”
     “Ah! Por isso? Tem sim U.U Algo chamado tédio”
     “Aff me ame menos flw? Kk”
     “Hm... não kk Partiu role?”
     Aquela chama de esperança surgiu de novo. Senti meu coração bater rápido.
     “Pra onde? To cansada demais hoje”
     “Por favor, Ana :( A comida é por minha conta :D”
     “Então tá kk, mas hoje eu realmente estou com muita fome kkk. Leve dinheiro. Tipo uns 50 kk”
     “Ok :) Passo ai daqui a 1 hora”
     Não sei o que aconteceu nesse tempo. Acho que estava tão chocada e feliz que apaguei, pois quando percebi, só faltavam 5 minutos até a chegada dele.
     Coloquei apenas um vestido florido e soltei meu cabelo. Não tive muito tempo para me arrumar.
     - Vai onde mocinha? – Indagou minha mãe enquanto descia a escada.
     - O Davi me chamou para passear mamis - dei-lhe um sorriso – com certeza vai me mostrar outra manobra de skate.
     - Hum... sei – me lançou um olhar desconfiado – Juízo hein?
     - Mãe é o Davi – Comecei a rir.
     - Justamente! Sei quem é ele. É melhor ir agora para poder voltar cedo.
     Nenhuma palavra foi dita. Apressei-me até a porta, e para minha surpresa lá estava ele.
     Cabelos grandes implorando para serem cortados, camisa mal passada, bermuda de lycra e dois skates; um no pé e o outro sendo oferecido a mim (mas devo admitir que era assim que gostava dele).
     Hesitei com a oferta do skate, e dei um passo para trás.
     - Ah! Para com isso Aninha! – Disse ele simpático – Sabemos que você anda melhor do que eu.
     - Querido, eu faço tudo melhor do que você – disse enquanto pegava o skate.
     - Ora! Que atrevida, hein Ana Clara? – e começou a rir. Confesso que meu mundo parou. Queria ficar ali a vida toda ouvindo o barulho da risada dele. – Mas – disse, com ênfase, como se percebesse que eu precisava ser acordada. – Como eu sei o caminho, você vai ter seguir a mim – completou triunfante.
     - Certo, certo. Vamos logo! Caramba, eu to com fome!
     Ele explodiu em uma gargalhada, e eu me derreti completamente.
     Andamos por cinco minutos até chegarmos a uma porta abandonada.
    - Ana – disse sério. – Eu preciso que você confie em mim.
    - Que isso menino?- dei um leve sorriso – Quer me assustar?
   - Não Ana... Só quero que você saiba que aqui é meu “lugar secreto” – disse ainda mortificado – Você é a primeira pessoa que vem aqui.
     - Ah... Obrigada, eu acho.
     Ele pegou em minha mão e apertou forte enquanto abria a porta.
     - Feche os olhos – pediu ele, gentilmente, em meus ouvidos.
     Ele me puxou um pouco para frente. Senti a porta se fechando atrás de mim.
     - Seja bem vinda Aninha. Pode abrir os olhos.
     E então eu vi um paraíso. Era um campo verde lívido, com a grama perfeitamente aparada e uma castanheira, enorme, no centro.
     - Vem! – Chamou ele.
     Corremos de mãos dadas, como no primeiro dia em que nos conhecemos.
     Embaixo da castanheira havia um lençol quadriculado estendido, com uma cesta de palha e um violão em cima.
     - O que é isso? – Perguntei incrédula. Obviamente era um encontro, mas era tudo tão maravilhoso que eu precisava escutar dele.
     - Um piquenique – deu-me um sorriso fraco
     Ainda estávamos de mãos dadas. Isso confirmava a minha hipótese.
     - Sente-se e vamos comer. Também estou com muita fome.
     E então, ambos começamos a rir histericamente enquanto comíamos. Fazíamos palhaçadas um para o outro. Era tudo tão mágico, tão encantador...
     Depois de comermos (muito), deitei-me em seu colo. Ficamos um bom tempo assim: eu deitada de olhos fechados, ele brincando com meus cachinhos, penteando com os dedos. Ele cantarolava a melodia de Save me dos Hansons enquanto eu, em silêncio, me deliciava com o som doce da voz dele.
     - Vamos, levanta. – Ele disse subitamente.
     Não sabia como responder àquela ação, então apenas o fitei perplexa.
     - Só se sente. - Deu um sorriso nervoso – tenho algo a mais para você.
     Sentei-me.
     Ele pegou o violão e se pôs a minha frente.
     - Por favor, não ria. – Disse ele com o mesmo tom ansioso
     “Não quero mais escrever em segredo
     Mesmo porque todos sabem o que eu desejo
     Sim, eu sou seu anônimo
     Desculpe-me por demorar tanto
     Mas eu não consigo ficar longe da pessoa que amo
     Sim, eu te amo
     Amo sue jeito de ser boba para me fazer rir
     O modo como não consegue mentir para mim
     Até a maneira como prende o cabelo quando fica nervosa
     Eu te amo com suas manias e defeitos
     Te amei por muito tempo em segredo
     Can you be my Valentine? (Você pode ser minha namorada?)”
     Não dissemos uma palavra sequer. Estava sem fala, sem ar e provavelmente teria um infarto. Ele esperava uma resposta, e eu estava muda.
     Uma lágrima apareceu no canto do seu olho. Virou abruptamente e começou a recolher tudo.
     Eu não conseguia me mover. Estava feliz, ansiosa, surpresa e apaixonada demais para isso.
     Ele terminou de arrumar tudo e começou a ir embora. Obriguei meu corpo a se mover e consegui alcançá-lo. Fiquei a sua frente impedindo sua passagem. Estava com a cabeça baixa e os olhos muito vermelhos.
     - Sim. – sussurrei, mas ele pareceu não entender. – Sim! Caramba! Por que acha que não aceitaria? – Gritei
     Ele me olhou surpreso. E quando viu minha expressão de ansiedade acreditou no que acabava de dizer.
     Deixou tudo cair no chão, espalhando uma diversidade de comida pelo chão. Cuidaríamos disso mais tarde.
     Colocou meu cabelo gentilmente atrás de minhas orelhas com um das mãos, enquanto a outra me puxava pela cintura para mais perto de si.
     Uma gota caiu sobre meus ombros. Não lhe demos muita atenção.
     E ali mesmo, na chuva, demos nosso primeiro beijo. O campo se tornou nosso paraíso secreto desde então.

("Jéssica Stewart")