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domingo, 3 de agosto de 2014

Apoteose de Ícaro - Parte 2


Levantei-me com uma dor irrelevante nas juntas intercoxais e resfoleguei um líquido que poderia ser sangue, visto que não conseguia enxergar nada além do pretume do escuro à minha frente. Com a coluna ereta, segui por alguns metros sentindo a lama viscosa que abrogava minhas esperanças de um dia retornar à Esparta. O caminho curto que tinha para seguir repartira-se em dois, e eu já presumira a dificuldade que teria para sobreviver ali.
Sobre o labirinto, meu próprio pai, Dédalo, contou-me certa vez que este era amaldiçoado pelos deuses. Por conta disso, era tão instável que praticamente era único para cada pessoa, e que fora planejado para ser intransponível. Contudo, uma figura conhecida da família possuía a passagem para o fim do labirinto: Ariadne.

[Todavia, era fugira com o amante cerca de dois dias antes de me prenderem e, para meu desespero, largou o precioso fio condutor dentro do labirinto, ao relento.]

A parede sólida confundia meus sentidos, com um misto de pedras de séculos distintos; um lodo milenar e gosmento; um cheiro de mofo que me causava tonturas e uma sensação fria que enlouqueceriam qualquer um.
Pisei deliberadamente no chão, sem ao menos acanhar-me com o que poderia encontrar. Jurei por Ares que iria rever meu pai ao menos mais uma vez antes de dirigir-me aos campos elísios. Impulsionei os dedos no solo molhado e joguei o corpo pela frente. Eu estava acérrimo, firme em meu objetivo. Abjurei de meu treinamento metodicamente militar e usei dos instintos humanos de sobrevivência. Sabia que os túneis eram imensos, mas mutáveis de acordo com o êxtase demoníaco que cada um nutria. Por isso, eu já esperava surpresas inesperadas.
Pus o dedo na boca, deixando que a quente saliva se apoderar dele e em seguida coloquei-o no alto da cabeça, respirando pausadamente e mantendo o controle sobre minha mente. Esta técnica poderia ser eficaz naquele lugar assombroso. Senti uma tênue corrente de vento passar pela mistura na ponta do indicador, indicando-me o sentido que passeava o vento. Descoberto o caminho, já sabia o que fazer.
Corri o mais rápido que pude, sem pestanejar.

O treinamento militar espartano – O melhor de todos – concebeu-me tamanha destreza e domínio corporal que eu era suficientemente capaz de debandar em corridas épicas, por duas ou quatro horas incessantemente sem me esgotar, parando às vezes para curtir a paisagem, mesmo que no escuro. Após cerca de três horas e meias respirando lodo e praticamente engolindo a melancolia asquerosa da escuridão, pude enxergar uma luz no fim do túnel.

Finalmente pude ver o azul completo do céu sobre minha cabeça, restringindo-se a uma tela azulada com pingos brancos malfeitos, quase vazios; nada além de pássaros ao longe para compor a paisagem celestial, voando sem saber o que se passava por debaixo de seus corpos aerodinâmicos. Os vais e vens de aves brancas indicavam-me que a vida ainda me aguardava para uma morte cruel, sozinho e solto no meio de um labirinto.
Além da luminosidade revigorante, o cenário do lado de fora daquele antro negro era muito mais atrativo, sem deixar de ser misterioso: A lama cedia lugar à uma grama verde, fina como uma relva, de onde vinham não mais vermes e pragas, mas sim seres cilíndricos, marrons, e que deglutiam os grãos de terra com prazer; filhos de Gaia. Nas paredes - Que deixaram de ser pedras para se tornarem um emaranhado de trepadeiras – cresciam samambaias e outras plantas de caules aéreos, produzindo um ecossistema muito maior do que o encontrado no interior dos úmidos túneis pelos quais eu passara.
As folhas destas plantas eram um caso à parte, visto que estendiam-se rumo ao centro do caminho que se estendia e se alargava à minha frente, roçando em minhas vergonhas desnudas e no resto de meu corpo descoberto, gerando um êxtase curiosamente prazeroso, seduzindo-me a continuar na corrida.
Todavia, a sensação de liberdade era tão falsa quanto chuva no tártaro. Eu sentia que estava livre, mas não estava; ao menos não como desejaria estar.
Aos trancos e barrancos, alcancei uma pequena elevação, uma colina graciosa de onde pude ver as terras do labirinto se estendendo quase que infinitamente, até onde nem mesmo Zeus poderia ver, sabe-se lá para adiante dos estábulos de Apolo. Recostei-me em uma única árvore que brotara ali, já carregada de suculentas maçãs e radiante em sua coloração verde acobreada como efeito do sol que já se punha no horizonte. Deliciei-me com um banquete vegano monofrutífero, do qual pude saborear do único fruto daquela terra, até o crepúsculo magnífico dos deuses que encerrava o dia e iniciava a noite por toda a Grécia.
A grama fofa foi se aproximando cada vez mais de meus cabelos que tornavam a crescer, incentivados pelo ritmo anormal daquele lugar, e as finas folhas embalaram meus suspiros noturnos, derrubando em sonhos aquele brutamonte espartano que um dia eu fora.

Acordei com um doce sopro aromático me persuadindo a despertar, junto a um calor acolhedor vindo do sol que me cumprimentava amigavelmente. Abri as pálpebras lentamente, ainda pendendo entre o que era sonho e realidade, e aos poucos foi se focalizando algo que marinava meu corpo estendido na relva; quando sob a sombra fresca da macieira as folhas verdes dançavam ao som do vento matinal, deixando-me estagnado observando-as.
-Já acordou? – Fui surpreendido por uma voz feminina que interveio em meus ouvidos, seguida por uma figura angelical de uma graciosa dama, que parecia tremular sobre os raios iluminados, e aparecia para mim como uma figura alva e fluida, quase um sopro primaveril trazendo-me cheiro de maçã.
Parecia-me familiar, mesmo que o aroma frutífero me entorpecesse de tal forma que me desviava inconscientemente do assunto. Concentrei-me no rosto linear e delicado da dama.
-Você. – Ressabiado, estendi as mãos para certificar-me de que era real. Encontrei uma carne macia e uma pele lisa como pêssego. – Você...
A moça riu, e respondeu-me com simplicidade.
-Demétria. – A garota sorriu novamente, pura e delicada.
-Deméter? – Pensei logo na deusa da agricultura, como se eu fosse honrado por essa visita; principalmente recordando-me das histórias sobre as aparições da olimpiana.
-Não. Demétria. – A garota me corrigiu, arquejando os braços fluidos como um vapor denso, saltitando alegremente a meu redor e voltando com uma bandeja deliciosa de maçãs vermelhas assim como seus lábios; além de um pouco de ambrosia, o néctar dos deuses. – Sou uma dríade das florestas. Ou melhor, a hamadríade da macieira do labirinto. Prazer em conhecê-lo. – Estendeu a mim a bandeja, e posteriormente as mãos singelas. – Você é...
Indubitavelmente, ela era uma figura viva e impressionante.
-Ícaro. – Respondi.
-Tenho uma coisa para lhe mostrar. – Conduziu-me novamente ao chão, porém de outro ângulo da colina pequenina que abrigava a macieira solitária. Tocou-me no rosto, com um calor aconchegante e sem segundas intenções. Virou-me cerca de quarenta graus ao leste e nos sentamos na grama verde, exatamente onde ela havia planejado. – Olhe ao horizonte. – Seu rosto estava colado ao meu, e pude sentir o maravilhoso hálito de maçã que saia de sua boca recessiva de dentes brancos como a neve. – Vês algo?
Realmente, ontem quando cheguei à colina, o labirinto parecia se estender até os limites da visão; contudo, guiado pela mitológica figura campestre, pude ver algo mais no horizonte. Algo tão óbvio que quase me flagelei internamente por não tê-lo visto antes.
Fechei as pálpebras quase completamente e focalizei uma construção imponente, no estilo gregoriano, com colunas rústicas se erguendo simetricamente sobre um planalto suntuoso. Demétria me mostrava a casa de meu pai que, segundo ela, fora construída há muito tempo, e desde então ficava vazia a maioria do tempo. O detalhe crucial é que ela era exatamente igual à que vivíamos, eu e meu pai, em Esparta.
Olhei para a dríade fixamente, que sorria e cantarolava uma música suave, tocando minha alma através de uma melodia romântica, exercendo leve pressão sobre meu coração; que ficou indeciso exatamente quando pude ver seu olho brilhante por detrás dos cabelos loiros. Ela retribuiu o olhar amavelmente e sorriu para mim um sorriso tão bonito quanto a luz do sol quando nasce no horizonte.
Meus pulsares ritmados dentro do peito aumentaram repentinamente, como se uma centelha se acendesse em meu cerne.

Demétria continuava no lugar, desta vez olhando par ao infinito e pensando em sabe-se lá o quê, com uma expressão bucólica. Um aroma de chá correu o ambiente e entranhou-se pelo ar que eu respirava. Era chá de maçã.
Nunca fui de apegar-me ao coração e os sistemas espartanos não nos permitiam fazê-lo, mas uma flor parecia brotar nos confins de minha mente, linda e alva, delicada e forte ao mesmo tempo, com os brotos minúsculos e rosados trançando caminhos imaginários em meu peito, atraindo polinizadores vindos diretos do coração. Estes, zanzavam e visitavam uma por uma, fazendo a vida acontecer. Estes mesmos, passeando por ali, fizeram nascer em mim um desejo inclausurável.
Fui de encontro aos lábios rosados e beijei-a ternamente, assim como dois jovens que descobrem o amor, com meu coração derretendo-se e passando do ferro para algo muito mais humano. O beijo, além do sabor do amor, tinha um sabor de maçã: Delicioso.
Ambos coramos, ainda com os lábios grudados. Demétria respirava felicidade, em sintonia com meus sentimentos. Já diziam os sábios gregos: “A felicidade é a vocação do ser humano. Nascemos para sermos felizes, e a tristeza é somente um acidente de percurso, totalmente evitável.”.
Decidi deixar passar tudo aquilo que eu acreditava e joguei-me de cabeça no amor.
Acabei estatelando-me ao chão.

A linda jovem por quem eu me afeiçoara e que me trouxe lágrimas contidas de alegria começou a vaporizar-se no ar a meu redor, escapando-me às mãos quando tentei ater-me a seu corpo.
-Não! – Pus as mãos em um gás aromático, preso em um corpo amorfo; ansioso por tocá-lo mais uma vez que fosse. Para meu delírio geral, os olhos acastanhados foram se afastando mais e mais, sumindo ao som de uma música triste e melancólica vinda do fundo de nossas almas, à sombra de um amor impossível entre um humano e uma dríade.
Desapareceram-se as curvas, os olhos vivos e marcantes; a voz doce. Restou intacta apenas a macieira centenária.
Abracei-a como se adiantasse de algo.
Estava quente, mas não era suficiente para transmiti-me o fervor de Demétria. Pela primeira vez na vida, os deuses gregos viram um espartano chorar um choro tão puro, sincero e sofrido.

Após mais algumas horas de lamentações, encostado na árvore delicada, acariciando a casca forte - Porém fina -, a única coisa que consegui fazer foi virar-me em direção à casa visível no horizonte, vendo que nada mais podia fazer acerca daquele amor amaldiçoado pela vida. Iniciei uma descida sofrida pela colina.
Neste exato momento, eis que cai ao chão uma fruta dourada como os cabelos de Demétria, linda assim como ela; que rolou instantaneamente, descendo acelerada ladeira abaixo. Segui-a de perto. Dez minutos depois e entranhávamo-nos juntos novamente no labirinto, eu e a maçã animada, seguindo um caminho que somente ela conhecia.
O sol começara a sumir lentamente, tendo em vista que nos afundávamos no labirinto, por entre as folhas densas das verdadeiras árvores que cresciam nas paredes do labirinto, em um lugar onde as samambaias eram as deusas; o escuro sufocante um titã; e eu um mero espartano.
Suprimi um suspiro assim que a fruta estagnou-se à encosta de uma subida íngreme e sinuosa, afã das cabras montanhesas, que estava encoberta por uma espessa névoa, uma cerração que insistia em permanecer ali; razão essa pela qual eu não conseguia visualizar nada no topo.

A maçã dourada partiu-se sozinha ao meio, revelando-me que aquele era o local por onde eu deveria subir. Resolvi que o melhor a fazer era começar logo aquela escalada, que já começara de forma errada. Somente Zeus sabe o que pode nos acontecer.