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domingo, 4 de janeiro de 2015

Dulce



A mulher aportou na sala secreta, escura e tenebrosa. Apenas uma lanterna de LED, disposta sobre uma mesa alta, emanando uma luz fria, composta de fachos descontínuos que obrigavam qualquer pupila a dilatar-se ao máximo. Pairava no ar um cheiro de tabaco, pungente e fustigante; alguém fumava no recinto. A fonte de luz, recostada em uma mesa e com o foco voltado para cima, lambia o forro amadeirado, revelando nada mais além de partículas de poeira e fumaça, dançando no ar uma atabalhoada tarantela.
Um rosto masculino emergiu da escuridão e fez saltar o coração da senhorita.

-Benedetta?
O fétido aroma de cigarros acompanhou as ondas da voz do homem, abafada e rouca, entupindo as vias aéreas da sedutora mulher. Fitou-a no fundo dos olhos verdes.
-Bueno, senhorita. Veio a mim assim que lhe ordenei, como uma novilha que retorna à mãe somente pelo mugido.
Viu o rosto da mulher enrubescer-se de raiva.
-Venha aqui, por favor. – Balançou as mãos indicando-a o caminho.
A mulher trajava um sobretudo negro e um chapéu bowler preto de veludo, ambos cortados de forma a valorizar as curvas de Benedetta. Um corpete também escuro ajudava a controlar os seios fartos, modelando ainda mais seu corpo. As pernas torneadas e hidratadas em óleo de amêndoas atiçavam a gula dos homens mais pecaminosos, fazendo-os delirar. Os braços delicados contrastavam com a abundância do resto do conjunto, porém eram um charme na composição; lançando os marmanjos a um abraço muitas vezes fatal, que já culminara em muito sangue no passado.
Os olhos do velho acompanharam a escuridão cor de ônix das íris de Benedetta. Estas evidenciavam mais do que sedução, escondiam mistérios indecifráveis e incorruptíveis, decerto inabaláveis; escondidos da alma da senhorita, que se aproximava, volúpia, do homem excitado.
Repousou as mãos nas grossas coxas dela, sentindo a maciez delirante da carne quente. Um aroma de amêndoas pairou no ar e contrastou com o tabaco a que estava acostumado. Seus dedos finos e longos sentiram o quase veludo da pele dela, fazendo escorrer desejo por entre as falanges carentes de cálcio. Apertou-a levemente e envolveu-a em um abraço patriarcal, evoluindo rapidamente para um solavanco e um puxão, aproximando-os ao ponto de quase tocarem-se nos lábios. Aproximou-se de Benedetta ainda mais, dirigindo-se ao ouvido. Ela pode sentir o bafo quente de vinho e nicotina rente à sua orelha esquerda.
-Pimpona, contratei-a para me satisfazer.
Ela riu maliciosamente.
-Não é isto que pensas, infelizmente. É algo mais difícil e perigoso. – Ajeitou a garota e fê-la passar uma das coxas por seu colo.
Agora estavam um de frente para o outro.
-Há uma pessoa que me deve um favor...
-E quer que eu te ajude a cobrá-lo. – Ajeitou uma mecha fina que caíra sobre o rosto. Fitou-o nos olhos, ambos verdes como esmeraldas, claros e límpidos.
-Esperta você, não? – Tragou o cigarro uma única vez, soltando uma baforada bem no rosto da mulher. – Vejo que te trouxeram a mim numa hora extremamente oportuna. É a pessoa ideal para este serviço.
-Diga-me o nome do sujeito.
-Enrico Capresi. – O sotaque do senhor puxava os erres e o fazia assobiar os is. – Em Florença, uma casa de número sessenta e seis. Visite-o e convença-o.
Benedetta levantou-se e afastou-se do homem.
-Convencê-lo de... – Hesitou.
-Convencê-lo à, minha querida. – Levantou-se com certa dificuldade. – Há coisas perdidas no tempo que vagam pela Terra atormentando meu sono e o de minha família. - Olhou-a com uma expressão dura cravada no rosto craquelados pela idade. - Irá até lá consumar o que começamos vinte e cinco anos atrás, quando ainda tínhamos forças para tal.
Aproximou-se novamente da garota, tão perto que pode segredar a tarefa somente a ela. Assustou-se ao saber da história do velho.
-Desenterrar o passado é afundar-se de vez no futuro, meu caro.
-Não interessa! – Exaltou-se. – Estamos todos atolados em sujeira até o pescoço, não é mesmo? – Gargalhou.
As luzes de acenderam subitamente, penalizando as pupilas dilatadíssimas da sedutora mulher. O susto foi imediato quando, em sua frente, apareceram cerca de vinte homens musculosos, trajados em preto, de trench coats cinza e chapéus do tipo cartola, identificados com uma pena vermelha na borda. Posicionados milimetricamente ao redor da sala, pareciam uma coleção de figuras de ação, saídas diretamente de um filme de Tarantino para a realidade. Desta forma, não se distinguia nada além da altura deles, e suas identidades permaneciam obscuras por detrás de grossas barbas, todas negras e aparadas com o mesmo corte. Indistinguíveis.
Benedetta ficou tensa e sentiu os músculos se retesarem na região lombar.
-Levem-na daqui agora. Ela tem trabalho a fazer.
-Espere! – Gritou. – Devo apenas questionar seu nome.
O senhor de terno riscado-de-giz, com um cigarro em uma mão e um sorriso amargo no rosto, pousou um fraco beijo na boca da mulher, o suficiente para fazê-la tremer nas bases.
-Ninguém sabe meu real nome. – Conteve-se. – Chamam-me Dulce. Prazer. – Estendeu a mão e tocou-a nos dedos macios.
Benedetta abandonou a sala minúscula carregada por dois dos capangas do velho. Levou consigo a incredulidade, estampada a ferro no rosto bonito.

***

A manhã viera para Benedetta vagarosamente. Amarrada e desovada em um caminhão escuro e discreto, foi vendada até pararem em uma cidade com aroma de vinho. Um capanga desamarrou-a e empurrou-a do caminhão assim que estacionaram, partindo em seguida e largando-a com o corpo na rua de pedras. Sentiu-se traída pelo Dulce. Aquele homem guardava mais mistérios para si do que podia imaginar; além do mais, a tarefa entregue era assustadoramente desumana. “Desenterrar o passado poderá afundar de vez o futuro, meu caro.”, lembrou. Todavia, era algo a se fazer, e sua personalidade forte a sugava para desafios como um vórtex, às vezes fazendo-a largar tudo para tal.
Tudo mesmo.

Segundo informações do velho, a casa de Enrico era simplória por fora, mesmo que ele fosse um dos maiores mafiosos de toda a Itália. Obscuridade era seu lema. Sempre sorrateiro, fez crescer em Florença uma rede clandestina de tráfico. Era tudo contrabandeado, desde cigarros, drogas, órgãos e pessoas para prostituição. 
Contudo, seu grande trunfo passava despercebido aos olhos de todos, até mesmo de seus próprios capangas. Isto ele partilhara com o Dulce quando mais jovens. Agora, ambos já de idade, estavam separados pela distância e pelo tempo. Era exatamente isto que o velho queria reatar.
Casa de número sessenta e seis, Viale della perdizione, bairro de Belladona. Florença. Apareceu-lhe um número apagado à frente, visivelmente desbotado, um dia fora pintado de preto. Não havia campainhas, tampouco janelas, apenas uma porta de madeira caindo aos pedaços. A fachada da casa refletia a decadência daquela região, e não fugia do padrão de construção da rua: Tijolos em pedaços esfarinhavam ao toque, amarelados pela poeira e comidos por insetos. Rachaduras minúsculas se espalhavam pela parede, quase um caminho de formigas que, por sinal, eram bastante presentes.
Benedetta bateu três vezes na portinhola carcomida. Nada aconteceu de imediato.
Subitamente, tudo veio abaixo. O portal cedeu junto à parede da frente. Cairia em cima da mulher se a própria porta não tivesse resistido à queda; algo que a estarreceu. Houve um estrondo abafado e subiu muita poeira do entulho que fora ao chão. Entretanto, momentos depois, tudo se acalmou e voltou ao normal. Aliás, aquela rua estava demasiadamente silenciosa para a cidade, que sempre é movimentadíssima.
Rodeou os escombros da parede frontal e colocou o stiletto de 10 cm no piso empoeirado e cheio de sujeira, perigando contaminar o precioso sapato de grife, negro como o resto de sua roupa. A esta altura, o coração de Benedetta poderia estar saltando do peito, contudo, ela já estava por demais acostumada à ação. Com cuidado avançou, o piso rangendo a cada passada.
Alcançou um corredor estreito e repleto de teias de aranha, percebendo restos do que um dia fora um forro magnífico, decorado com florais pintados à mão com tinta a óleo; tiras de tecido pendendo em direção ao chão, tenebrosas estalactites feitas de memórias e mortas pela ação do tempo. Tudo ficou quieto naquele momento. Não se ouvia nem mais os pássaros em revoada no céu, ou então a respiração de Benedetta, que se tornou silenciosa e sublime. Pausadamente, ela prosseguiu avançando, certa de que aquela deveria ser a casa certa. Número sessenta e seis ouvira bem o Dulce balbuciar, não havia se enganado.
Quando se deu por entendida, percebeu que dera apenas dois míseros e ínfimos passos, deixando marcas em meio à poeira densa e melada. Seria medo? Não era de se esperar. Apertou o sobretudo negro contra o corpo e sentiu o cano do revólver preso no corpete justo. Pode sentir o metal frio mesmo com um pano entre os dois, que eram como irmãos. Benedetta não vivia sem seu revólver, gostava de ter seus truques na manga.
            Dobrou o corredor alguns metros à frente. Deparou-se com um espelho e uma porta fechada. Apenas isso. O encontro com Enrico se aproximava. Não se conteve e fixou as atenções na aparência, dando às caras para o espelho longo e sujo. Os cabelos vermelhos cor de fogo apareceram no reflexo, envoltos em um estilo channel repicado à altura dos ombros. Era linda, e gostava de se arrumar para todas as ocasiões, sempre provocante e sedutora. Ajustou o chapéu bowler no contorno da cabeça, prendendo a franja apenas debaixo da costura do acessório.
Prosseguiu caminhando rumo ao desconhecido, com o olhar certeiro fixo na porta amadeirada no fim do corredor escuro. O piso velho rangia em tom mordaz sobre seus pés. A casa, aparentemente abandonada, era um breu naquele momento. Um abismo de incertezas habitava a boca escura que a engolia aos poucos. Era frio o corredor e uma aura tenebrosa se apoderava das paredes sujas e descascadas. O rangido, no entanto, parecia aumentar, em tom de ameaça.
Espantada, parou de repente, o coração aos pulos. Um bafo quente alisou seus pelos delicados da nuca, um som de respiração rompeu o silêncio que a pouco se fizera. O medo a dominou. Uma mão gelada e de veias saltadas lhe pousou no ombro... A morte viera buscá-la.



***
Acordou com o cheiro de tabaco retornando ao lugar. Mesclado a outros tantos aromas, talvez incenso, café, sangue... O fato é que sua consciência estava bem longe naquele momento, a milhas de distância. Os olhos cor de ônix, misteriosos como noite sem luar, buscavam alguma luz na escuridão. Ainda confusa, focou em um borrão manchado em sua retina, tentando desembaçar a visão. Fora atingida por alguma coisa... Sua cabeça doía.
Uma pequena vela se acendeu na escuridão, irradiando calor e luminosidade. Em seguida, diversas outras iluminaram o ambiente, gerando um ar tremendamente holístico. Contudo, Benedetta ainda não distinguia a forma do objeto à sua frente, variando entre a sanidade e a loucura. O borrão persistia em sua visão.
Algo passou na contraluz, gerando uma sombra momentânea no corpo da mulher. Foi aí que ela percebeu que estava presa, amarrada a uma parede. Nua.
Seu coração pulava e tentava sair do corpo, crente de que teria um fim não tão agradável. Os seios fartos estavam amarrados com cordas, praticamente separados um do outro, como irmãos órfãos e levados para orfanatos diferentes. O abdômen estava melado, ela achou que fosse óleo, mas não conseguia sentir cheiro algum oriundo dali. Sob as sombras tremulantes da vela, discerniu algumas fitas amarradas em suas pernas, que estavam fechadas, e em seus braços, abertos, fazendo o corpo formar um “Y”. Seu cabelo vermelho estava molhado de suor, tendo em vista o calor que fazia naquele ambiente.
As velas então se apagaram completamente, engolindo tudo na escuridão. Benedetta sentiu algo a apalpando por trás, apertando alguns músculos e fazendo-a gemer. Doía. O que quer que fosse possuía garras afiadas, que arrancavam filetes de sangue por onde passavam. Uma ardência subiu pela coluna vertebral da mulher, fazendo-a gritar de dor.
Uma faísca iluminou a sala por um minuto. Parecia que alguém acendia um caminho de pólvora no chão, bem fino e desenhando uma forma confusa. Benedetta ainda não distinguia a forma que sempre esteve à sua frente, mesmo que sua visão estivesse voltando ao normal. Este caminho ganhou uma luz vermelha e lentamente foi se aproximando dos pés dela. Formava uma estrela, circunscrita em uma esfera. A estrela de Davi.
As velas recobraram o brilho, apavorando a mulher, que já gritava e gemia de dor, agora de desespero. As garras chegaram a seus seios e rodearam os delicados bicos das mamas. Ambos ferviam com um calor desumano, e uma roda marcava a pele bem naquela região.
-Me solte! – Gritou. – Não mereço isso!
Nada adiantou.
E as garras continuavam a descer, fazendo descarregar adrenalina no sangue de Benedetta. O pobre coração pulsava mais do que tudo, à medida que os filetes de sangue somente aumentavam. A mulher sentia-se fraca, como se algo sugasse sua alma para fora do corpo.
As velas aumentaram em número, e as luzes bruxuleantes ficaram cada vez mais azuladas com o passar dos minutos. Um azul turquesa abraçou seu olhar e contrastou com o vermelho da estrela que se compunha no chão.
Ouviu-se uma batida no chão de madeira.
-Quem é? Responda! – Benedetta estava agoniada, desesperada para se soltar daquela posição incômoda.
Tentou se lembrar dos motivos que a levaram ali. Recordou-se aos poucos das palavras do Dulce.
Há coisas perdidas no tempo que vagam pela Terra atormentando meu sono e o de minha família.” Ele disse. Qual a conexão entre tudo isto? Onde estaria Enrico?
Algo se encostou a seu umbigo. Gelado e molhado, fazendo-a berrar.
Irá até lá consumar o que começamos vinte e cinco anos atrás, quando ainda tínhamos forças para tal.” O que ele queria dizer com aquilo? Buscou na mente o que ele poderia ter dito em seguida. O que ele a segredara.
O objeto começou a ficar mais nítido, com contornos curvilíneos e delineados. Era brilhante e dourado, cor de ouro. Parecia-se com um copo, uma taça ou algo do gênero. As velas prosseguiam acesas, algumas balançando, como se algo passasse em sua frente e deslocasse ar. Uma sombra dançou na escuridão.
Benedetta gritou.
-Por favor! Por favor! – Lembrou-se das garras que alcançavam sua genitália. Olhou para o chão e viu o triângulo se consumando. – Pare! – Nada adiantava.
As garras alcançaram o meio das pernas. Benedetta berrou e, em seguida sentiu algo em seu interior, queimando-a por dentro. Isto subia por seu quadril e se alastrava pelo corpo, viajando na corrente sanguínea. Externamente, ela sangrava muito, o que a deixava fraca. Os sulcos produzidos pelas garras eram profundos.
Então, em um último arranque de forças, esganiçada e trêmula, nem um pouco sedutora ou sensual, esboçou uma única palavra.
-Dulce.
Todas as luzes se acenderam repentinamente e ela ficou embasbacada.
O cenário era satânico. Percebeu que seu sangue era coletado por uma valeta e caia direto em cima da estrela desenhada no chão. Os azulejos brancos da parede estavam manchados de respingos de sangue, bem como tudo o que estava ao seu redor. Não diria que aquela era uma casa normal.
As velas continuaram a queimar, e formavam um padrão estranho em uma mesa ao fundo. Era pequeno o ambiente, não mais do que 9 metros quadrados. Abafou-se tudo quando ela percebeu que queimava um incenso forte, deixando-a com dor de cabeça. A taça brilhante estava posicionada bem no meio de tudo.
-Dulce! – Berrou a plenos pulmões.
Uma sombra se moveu na parede e seu peito doeu, bem como a região por onde as garras entraram. Aliás, elas haviam desaparecido completamente, mas suas marcas estavam em sua pele.
-Dulce! Dulce! Dulce!
Nada acontecia.
Lembrou-se das palavras do homem. “Você terá de ser forte. O que está prestes a fazer é dificílimo.” Naquela hora não entendeu o que ele queria dizer. “Terá de dar seu sangue por isso.”
Agora entendia. Ele queria literalmente seu sangue.
-Dulce! – Demoradamente gritou.
O velho homem se materializou em sua frente.
-Chamas-me? – Sua voz teatral era intercalada, demoníaca e sórdida.
Benedetta gelou dos pés à cabeça.
-Gracinha você. Veio aqui a meu pedido, mesmo sem eu lhe dizer exatamente o que deveria fazer.
-Deveria cobrar uma dívida com Enrico Capresi.
-Não! Esta é a piada! – Ele estava gargalhando, louco. – Não existe Enrico. Apenas existe o Dulce.
-Me tira daqui! – Ela se contorcia.
-Calma, querida, você já é minha. – Pôs a mão entre suas pernas. – És minha. É pecadora. És voluptuosa.
Ela gemeu um misto de prazer e dor. Seu corpo queimava de dentro para fora. O sangue começava a cristalizar.
-Morrerá para que eu possa viver. – Debilmente riu em sua cara. –Não te disse que teria que dar seu sangue? Viu, agora que me deu, és minha.
Tudo começou a ficar preto, e o Dulce arreganhou uma bocarra na direção de Benedetta. A garota dentou gritar, mas o demônio a possuiu sem muita dificuldade. Afinal, ela havia se deixado possuir, aceitara a proposta. Agora não havia solução. Sempre foi deslumbrante, nunca pensou em morrer assim.
A visão turva, lamacenta, borrou-se no tempo.
Gravada em sua mente, a imagem do Dulce. Ele se deliciava com um líquido viscoso e vermelho, doce e pungente. Sangue. Virou-se para ela.
-Quer um gole?


A escuridão engoliu-a por completo.