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quinta-feira, 9 de junho de 2016

RESENHA - O clube dos anjos(Luis Fernando Veríssimo)

Um retrato do dia-a-dia de um grupo de cavalheiros viciados em comida. Entre eles, um assassino sem série: A Gula.


“Parecíamos um grupo de invasores de outra espécie que ainda não percebera que seu disfarce não funcionava, que o rabo ainda estava à mostra. Imagino que era isso que a mulher de André dizia, depois de descobrir que não éramos os sofisticados que ela pensava. Não é gente da nossa espécie, André. Deixa esse clube de malucos. Em vinte e um anos, tínhamos nos transformado em pessoas esquisitas.”


É o primeiro livro de Luis Fernando Veríssimo que leio, e confesso que já fiquei um pouco fã deste escritor tão icônico e irônico, de palavras simples e estrutura muito atraente ao leitor. “O clube dos anjos”, um livro que foi me cativando aos poucos, pedaço por pedaço, é daqueles que você acaba por pegar(emprestado na biblioteca, como foi o meu caso), esperando uma leitura casual e rápida, até porque na edição que eu encontrei o enredo se resume em 142 páginas.


Contudo, Veríssimo afunda o leitor na história de tal forma que, com certo sarcasmo, acabamos nos rendendo e lendo com mais voracidade ainda.



Já adianto: “O clube dos anjos” é quase uma ode ao pecado da gula. Somos apresentados ao Clube do Picadinho, antigo grupo de amigos do bar do Almeri, que costumavam se reunir, ainda na adolescência, para saborear do picadinho de carne com farofa de ovo e banana frita e que logo evoluíra a jantares requintados e elaborados, com o melhor da gastronomia mundial a seu alcance e deguste.


Daniel, nosso narrador, é um dos participantes deste novo grupo, e não nos esconde que algo de muito errado e macabro atingiu em cheio a corporação de aristocratas obesos ao qual tanto se falava em toda a cidade. O clube do picadinho foi feito em pedaços, literalmente, arrebatado membro a membro, durante o momento mais prazeroso, certamente, para todos eles: o deleite da gula.


Certo dia, Daniel conhece Lucídio, o príncipe algoz e exímio cozinheiro, vindo diretamente dos restaurantes franceses e o convida para integrar a comissão dos “anjinhos” depois da morte de um de seus mais honrados membros. Prestes a ver sua mais preciosa corporação culinária se desfazendo, Daniel não pôde prever o qual errada fora aquela escolha que havia feito, e por mais que os pratos de Lucídio eram divinos, havia um quê de perigoso que fazia com que os prazeres à la carte dos gulosos membros do Clube do Picadinho aflorassem por debaixo de todas aquelas camadas de gordura.


Se algumas pessoas sentem-se revigoradas, satisfeitas e sentem prazer no sexo, drogas, nas pequenas coisas da vida, ou em sentir dor, por exemplo, o vício da gula que açoitava os dez protagonistas do nosso livro transformou-se pela admiração da “morte esperada”, que os vinha visitar após cada jantar. Um por um, foram levados, bem após comer o prato que mais gostavam.


No entanto, por mais mórbido e irreal que possa parecer, “O clube dos anjos” não é um livro que fale de morte. Ela não é protagonista, apesar de ser mais uma que senta à mesa. Veríssimo traz uma grande reflexão sobre até que ponto podemos chegar para saciar nossos vícios, mesmo que saibamos que estes nos matam lentamente; e o quão profunda uma ideia pode entrar em nossas mentes sem que seus estragos sejam notados a tempo de fazer algo.


O livro como um todo é bastante convincente, e os personagens são deveras intrigantes, cativantes da forma como são. Daniel é um bom narrador, não brincando com as emoções do leitor e já revelando de cara o mote principal de toda a história. Contudo, nem todas as revelações do livro acontecem nas primeiras páginas. Veríssimo faz com que aprofundemos junto a Lucídio na vida de cada um dos sócios do Clube dos Anjos, e conheçamos mais de seus podres interiores. Com que soframos junto a eles, e por vezes até aguardemos a última refeição de suas vidas, somente para adivinhar quem será o próximo a virar notícia nas páginas policiais.


Aliás, com um final surpreendente destes, com a emoção que este livro me trouxe nos últimos capítulos, estou decidido a me aventurar mais nas palavras de Luis Fernando Veríssimo.


“Uma vez, Ramos dissera: ‘O homem é o único animal que sempre quer mais do que precisa. O homem é o homem porque quer mais.”



DADOS DA OBRA(SKOOB)

ISBN-13: 9788573022247
ISBN-10: 8573022248
Ano: 1998 / Páginas: 130
Idioma: português
Editora: Objetiva

Autor: Luis Fernando Veríssimo(Foto)