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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O assassino da catedral - Parte 2





Na mesma hora, em um hotel não muito longe da catedral e próximo ao centro da cidade de Łomża, acabara de acordar um homem novo, bonito e cativante. Lavou as mãos na pia das estalagens simples e passou a mão pelo sobretudo negro, que usava por cima das vestes também da mesma cor. Recebeu no quarto um singelo café da manhã, contemplando o sol que nascia tímido no horizonte.
-Obrigado, senhor, volte sempre. – O recepcionista pegou nas mãos que um dia estiveram sujas.
-Fique com Deus. – O homem de negro saiu, deixando um ar místico no lugar. Andava tranquilamente por entre as ruas de pedra do centro histórico da cidade.
Naquele dia, todavia, o jovem não entrou em lugar nenhum. Seguiu caminhando e rodeou a igreja, esquivando-se de alguns policiais que analisavam a catedral, indo diretamente à casa paroquial, decidido. Contornou o perímetro de um pátio sossegado atrás da construção, passando a mão nos bancos cobertos de neve, limpando a sujeira por entre os dedos ásperos.
Um daqueles policiais tocou-lhe no ombro com cordialidade.
-Padre! O senhor não pode prosseguir, infelizmente. – Seu coração pulou de susto.
-Céus, você realmente me assustou. – Riu, desconfiado. – O que aconteceu por aqui? – Olhou para o horizonte e para o resto das pessoas que estavam à frente da catedral.


-Bem... – O homem da lei buscava as palavras polidamente. – Houve uma morte no altar da igreja. – E viu a boca do pároco abrir-se em forma de “o”.
-Meu Deus! Blasfêmia! – Gritou, fingindo um atordoamento.
O policial riu disfarçadamente e segurou a pistola de forma instintiva, vendo que deixara o padre constrangido. Deu meia-volta e tentou sair de soslaio. Foi contido por ele.
-Deixe-me ao menos ver como está nossa igreja... – Sorriu com meia-boca.
O agente abriu as portas para o padre e ambos entraram na catedral pela porta da frente. Os outros religiosos foram logo em seu encontro, ainda enclausurados. Frei Emmanuel, um religioso atarracado e de cabeça pelada, passava de lá para cá, agitado com as mãos no ar, balançando como loucas. Cônego Hanz Blaun, um pouco mais controlado que os outros, cumprimentou o jovem padre e o policial; que logo se afastou entretido com um donut.
-A graça de Deus, padre... – Viu Hanz voltar-se aos outros após ter saudado o recém-chegado. Frade Abraham Markus, o frei Emmanuel Pigosy e os padres Mats e Aciel, ambos novos e muito parecidos, conversavam com fervor. – Cheguei a pouco e logo soube. – Prosseguiu com um rosto triste. – Quem foi padre... a vítima?
-Lembra-se de Eva Araz, padre? – Hanz não possuía hesitação na voz, ao contrário dos outros religiosos. Percebeu que o frei estava com os olhos vermelhos, e viu uma lágrima escorrer por suas bochechas gordas e oleosas.
-Eva!? Pobrezinha... Uma mulher tão correta e cordial, cristã fervorosa. – Fez uma pausa dramática. – Sempre a via no primeiro assento durante minhas pregações e de meu companheiro. – Se dirigiu para perto do outro pároco jovem. – Não merecia... – Passeou pelo piso de madeira e rodeou o frade, consolando-o.
-Realmente não merecia! – Concordaram em coro os outros.


Isaac não reconhecia mais a cena do crime, horas depois de sair dali. Parecia ter sido limpa. Na verdade, dois padres jovens estavam ocupados com a limpeza do lugar. Mats e Aciel seguravam, respectivamente, um esfregão e um rodo, deixando um balde e um pano de lado para quando precisassem. Mats arrastou um banco pesado de mogno da fileira da frente, enquanto Aciel derramava um pouco de água com sabão na tentativa de retirar o sangue coagulado que ficara encrustado no piso de madeira. Mats finalizou o processo e buscou uma flanela dentro do balde, passando-a na base do altar, onde antes haviam respingos de sangue, vendo o doce fluido escarlate desaparecer da pedra.
Isaac praticamente empurrou os religiosos em um instinto policial.
-Vocês estão alterando a cena do crime?! – Ele acabou derrubando Aciel, que escorregou no piso molhado e atravancou-se ao chão.
O policial logo percebeu a besteira que protagonizou e tratou de se redimir, estendendo a mão ao jovem no chão, perdido entre as vestes negras e longas. O pároco se recompôs e se limpou, assim como o fez com a batina e o cabelo.
-Desculpas, padre. – Olhou bem ao fundo dos olhos azuis de Aciel.
-Amanhã já é domingo. – Interveio Mats com o rosto rubro. – Dia de missa na catedral. – Foi de encontro ao outro. – Por isso estamos limpando-a.
-Somente se esqueceram de que um assassinato foi cometido aqui, senhores! – Bateu com truculência na tábua marmórea do altar.
Os dois padres se precipitaram para o detetive e deteram-no impulsivamente. Contiveram suas mãos e se estranharam com ele, contemplando seus olhos castanhos e bravos. Obra do destino ou não, Isaac pode perceber uma semelhança notável entre os dois.
-Espere um pouco. – Estendeu as mãos livres em sinal de estranhamento, movimentando o ar parado e denso que não circulava dentro da catedral. – Vocês são...
-Gêmeos. – Ambos responderam em vozes uníssonas.
Realmente, os dois irmãos compartilhavam de mais características em comum do que qualquer outros univitelinos do mundo.  Estampavam o mesmo riso sombrio na face, e usavam barbas ralas de desenhos semelhantes, além de olhos da cor do mar caribenho, oscilando entre um azul cristalino e um anil cor de gelo transparente.
Ficaram os três trocando ofensas silenciosas, enquanto Isaac ficava cada vez mais desconfiado por dentro. Os três rapazes pularam de susto quando o frei Emannuel desesperado bateu a porta pesada da igreja, escancarando-a e fazendo um barulho fenomenal.
-Heresia! Heresia! – Gritava o pároco assustado. – Roubaram minha Bíblia sagrada!
Os padres se assustaram ainda mais frente à cara enrugada do frei atarracado e calvo.
-Aquela que ganhou direto das mãos do papa? – Mats levou as mãos à cabeça em um gesto atônito, abaixando-se para dizer algo ao frade que Isaac não conseguiu ouvir.
-Venha comigo, detetive. – Emannuel segurou-o pelas mãos e puxou-o levemente aos fundos da catedral.
Os padres gêmeos largaram o que faziam e andaram logo atrás dos homens por um corredor pequeno e simples de chão de pedras e parede de tijolos que efervesciam de bucolismo. Um circuito de lâmpadas incandescentes iluminava a passagem ao passo que ajudavam a esquentar o ambiente. A luz forte e amarela invadia os olhos de Isaac e deixavam-nos cansados, ao ponto de as pupilas se principiarem a fechar em pleno meio-dia. Foi acordado pelo ronco de sua barriga, tão alto que o frei pulou e desatou a rir. Rir não, gargalhar.
-Está com fome?
Isaac riu e concordou. Todos viraram subitamente em direção a uma portinhola que tinha aroma de cravos e canela. O local em si era espaçoso e cheirava a frango ao molho de mel e lentilhas. Uma cesta de pães estava bem colocada em uma bancada de pedras rústicas, ao lado de outra recheada de maçãs vermelhas, assim como se encontravam as bochechas do detetive.
O frei assemelhava-se à rolha da garrafa de mel que despejava no molho que ele preparava: Compacto e careca. Despejou o líquido âmbar na mistura e mexeu o caldo borbulhante com uma colher de pau.
-Pronto! – O homem atarracado seguiu para uma prateleira que parecia alta demais para ele e apoiou-se na ponta dos pés para pegar uma dúzia de pratos de louça; colocando-os próximos ao fogão de lenha. – Servido? – Apontou ao caldeirão quente e à concha metálica, sorrindo um sorriso engraçado e quadrado.
-Realmente estou com fome. – Isaac viu o cônego Hanz cofiar as suíças em sinal de aprovação e seguiu junto a ele para o caldeirão, prestes a experimentar do melhor frango ao molho de mel de toda a Polônia.
Acabada a refeição, Isaac decidiu ficar para ajudar Emmanuel com as louças, que não eram muitas, mas suficientes para render trinta minutos de conversa com o homem espremido atrás da pia.
-Será suficiente se eu enxugar a louça? – O detetive perguntou.
-Claro! Já é de ótima ajuda você os enxugar. – O frei sorriu em resposta, mergulhando as mãos fofas na água morna. – Modernidades... – Ele gargalhou e engasgou com saliva.
-Ajuda, frei? – Isaac ficou preocupado, vendo que o homem ficara vermelho.
-Pode deixar. Volte aos pratos, por favor.
O homem não hesitou em continuar o serviço.
-Então... – Buscou as palavras. – Você a conhecia?
-Madre Carmina? – Virou-se subitamente.
-Não frei. A garota que acharam morta no altar.
O religioso parou o que estava fazendo e correu para enxugar as mãos sujas de sabão em uma toalha limpa. Apressou-se, curiosamente, e sentou-se perto de Isaac, que deixara o pano de cozinha de lado e postou-se do outro lado da mesa redonda.
-Sabe de uma coisa? – O homem chegou perto do ouvido de Isaac e sussurrou bem baixinho suas próximas palavras. – Eu sei de... – Pestanejou o homem, coçando a careca e arranhando a área com a ponta das unhas. Engoliu as palavras junto com saliva.
-Vamos, conte! – Isaac chegou mais perto dele, encostando os ombros nos ombros dele, e colocando os ouvidos o mais próximo possível de sua boca.
-Eu sei que aquela garota, Eva Blaun, era uma conhecida da noite. – Parecia envergonhado. – Uma dama tão agradável e que se vendia às vezes por nada de dinheiro.
Isaac empurrou a cadeira para longe demonstrando surpresa.
-Por Deus, frei! – O religioso pulou de susto. – Está querendo me dizer que Eva Blaun era prostituta?! – Rodopiou no ar, confuso. Emannuel precipitou-se para o corredor conferir se não havia curiosos. Voltou e fechou a porta atrás de si.
-Silêncio, meu senhor. – Pediu em tom de súplica.
-Desculpas, frei.
-Ela vinha se confessar aqui às vezes. Na verdade, de quinze em quinze dias. Um dia não pude deixar de reparar na expressão preocupada dela. Vou lhe contar com detalhes sobre a última vez que a vi.
-Claro! – Isaac pegou uma xícara de chá e sentou-se novamente ao lado de Emannuel. – Conte-me o que aconteceu.
-Ela havia batido a porta pesada da catedral para entrar, chamando-me a atenção, por isso fui conferir se tudo estava bem. Abri a porta da sacristia que eu estava limpando e fui vagarosamente me dirigindo para onde eu suspeitara ter ouvido o barulho.
Isaac ouvia-o, atento aos detalhes.
-Ao chegar bem próximo ao confessionário, vi que ela se confessava com algum dos padres da congregação. Devido às circunstâncias, não pude identificar qual deles era.
A posição de Isaac revelava o seu interesse na situação.
-A igreja estava escura, já se passavam das cinco da tarde. Ela desceu o véu negro e começou a falar: “Não, seu covarde, isso não pode! Não vais me deixar assim.” E ela bateu com força as mãos na parede do confessionário. O padre lá dentro parecia não se importar com a situação. Se eu pudesse ver seu rosto, diria que estava com um sorriso gravado nele. “Você há de me dar o que mereço legalmente!” – O frei parou o depoimento extraoficial. – Fiquei estarrecido, sem prestar atenção no que poderia vir depois.
-E ai? – Isaac estava boquiaberto com o relato que ouvia.
-Saí da sala.
-Como assim saiu?
-Saí. Dei meia-volta e fechei novamente a porta da sacristia. De lá não pude ouvir mais nada.
-Não acredito. Não acredito, frei Emannuel! Você simplesmente largou a conversa quando estava mais interessante!
O homem atarracado sorriu envergonhado.
-Tive de fazê-lo. Um religioso não pode ser tão curioso a ponto de tal ato. – O frei voltou a seus pratos.
-Entendo sua posição, contudo, não poderia tê-los deixado conversar sozinhos. Vê no que deu? Agora temos o resto da congregação como suspeita.
-O que não é muito, porém já é caso para se investigar. Mesmo assim, guardarei seu depoimento em segredo. – Isaac largou o frei sozinho na cozinha sem perceber.


-Mas... – O homem nem ao menos terminou o serviço.


***