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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Tudo azul

Seus olhos me seduziam. Estava eu estático, ela também. Ambos nos fitando como rivais; bichos do jeito que éramos. Azuis como sempre foram estavam suas íris, na cor azul-piscina, radiantes e imersas em profundo mistério. A pupila sempre dilatadíssima antes me preocupara, mas agora, e somente agora, pude ver que elas eram assim mesmo. Metamorfose? O fato é que seus olhos me seduziam.



Ela se aproximou a passos curtos, os olhos presos nos meus e nossos olhares entrelaçados em uma contemplação mútua. Tocamo-nos alguns segundos depois, o desejo aflorando em minha pele, e ela se eriçando sobre seu toque. Ronronava baixinho em meu ouvido, uma frequência tão singular e suave que eu poderia ficar ali o dia inteiro com ela. Senti seu coração batendo, pulsando rapidamente e jorrando sangue para os órgãos perfeitinhos. Meiga do jeito que era, apenas me restava alisar seu calor dançante na escuridão, apaixonando-se por mim e me deixando extasiado.
Assim ficamos por um bom tempo até que, sob o bater ritmado de nossos corações e o toque aveludado de sua pele na minha, adormeci de súbito.

Acordei afobado, com palpitações no coração como se tivesse sonhado com algo ruim mas que se apagara em minha mente como a chama de uma vela a tremular. Ela não estava mais lá onde adormecemos, porém, já era de seu costume sair pelas manhãs bem cedo, algumas vezes uma ida ao gramado do parque ao lado de minha casa, outras à padaria da esquina comprar um pouco de pão da primeira fornada do dia. Sendo assim, permaneci em minha rotina perfeitamente, preparando-me para coar o café.
Eram oito e meia da manhã quando o despertador do celular tocou. Era sábado, um dia lindo e de céu azul, sem nenhuma nuvem para pincelar a paisagem de branco. A grama do parque estava mais verde do que nunca e as flores cresciam sob as brisas da primavera. Contudo, quando eu estava com ela, todas as outras cores existentes no mundo desapareciam e em minha mente, tudo azul ficava.
Meu café estava coando na cozinha quando tive de parar o que fazia para atender ao telefone que tocava aos berros na sala de estar. Corri para atender, visto que eu esperava desde cedo uma ligação do pessoal da minha faculdade, algo sobre uma aprovação de pesquisa, a defesa de minha tese de conclusão de curso e...
-Alô? – A voz rouca do outro lado do aparelho falou apressadamente.
-Bom dia.
-Desejo falar com Marcos Rodrigues Aroeira.
-Fala com ele.
-Telefonamos do setor de relações pessoais e fundo de pesquisa da Universidade Federal de Viçosa, para lhe informar que sua proposta de pesquisa foi aprovada pela comissão organizadora e você receberá o apoio que precisar por parte da faculdade para concluir seu trabalho. – Abri um sorriso ainda falando ao telefone. – Todavia, necessitamos de sua presença urgentemente.
-Claro! Estarei aí em alguns minutos.
-Obrigada e tenha um bom dia.
Enquanto a chamada se principiou a finalizar, eu já engolia o café quente, despindo-me prestes a tomar um rápido banho – que acabou saindo mais rápido do que o habitual. Em cerca de sete minutos eu já estava com as chaves da porta nas mãos para encaixá-las na maçaneta. Abri-a e fui de encontro à rua movimentada.
Em virtude de um sinal de trânsito, carros eram conduzidos pelo cruzamento a cerca de um quarteirão de onde eu morava. Estava parado em um semáforo para pedestres esperando minha vez de atravessar, quando a vi passar do outro lado da rua, distraída como sempre.
-Laura! – Esperei-a virar e novamente fixei o olhar em seus olhos azuis, sedutores e místicos demais para meu pobre coração. Instantaneamente, nossa empatia aflorou de tal forma que ela se sentiu atraída a mim.
Foi neste exato momento que ela pisou na avenida.

Fora tudo rápido demais, vermelho demais, triste demais. O utilitário enorme avançara o sinal a uma velocidade excedida, dirigido por um assassino anônimo e que me fez perder a visão. Somente sei que, quando me dei por consciente, estava já abraçado a seu corpo macio; à sua face marcante; a seu olhar penetrante e a seus olhos cor de piscina.
Olhos estes estirados ao chão, fixos no asfalto quente e negro, opacos e sem brilho, bem diferentes da sedução azulada que tanto me contagiava. Éramos amantes em corpo e em alma. Seu toque antes quente e macio estava demasiado molhado e frio. Sua pele aveludada, suja de sangue. Seu corpo angelical, dilacerado. No entanto, era seu olhar que me apavorava, um misto de loucura e terror. Ela estava olhando diretamente a mim quando fora atingida. Um olhar felino e romântico ao mesmo tempo.
Minha face: A última cena congelada em sua alma, o último brilho em seus olhos azuis cor de piscina.
Naquele dia eu dormiria sem seu olhar para me confortar. Eu dormiria sem sua pele macia para acariciar. Talvez eu nem dormisse, apenas sonharia acordado com o oceano azulado de seus olhos.


E este tenebroso dia ainda iria se repetir para todo o sempre...

Walter Crick