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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O assassino da catedral - Parte 3









Abriu as portas de seu quarto, estupefato. “Onde raios estariam as roupas limpas? Será que as deixei na dispensa?” Arqueou rapidamente e, dando meia-volta, bateu de cara no rosto fechado do detetive Isaac.




-O que fazes aqui, padre? – Questionou o investigador, dobrando as mãos como uma mãe o faz com as suas quando seus filhos lhe aprontam travessuras.
-Isaac! – Exclamou aturdido, com o coração lhe saltando do peito. – Eu vim em busca de roupas limpas. – Teve de contar a verdade, visto que fora pego com as mãos em uma de suas cuecas boxer novinhas que o frei trouxera da cidade recentemente. – Estava me dirigindo ao banho.
-Então terá tempo de me contar algumas coisas enquanto se limpa com água quente. Dizem que o vapor é um ótimo condutor elétrico e melhora os impulsos cerebrais. – Viu que o religioso o observava com certo desdém, apesar de um sorriso malvado que parecia querer simular o contrário.
-Pois bem. Se quiser me acompanhar então... – E saiu dissimulado, apressado e atordoado, com a cueca balançando na mão e esperando que o detetive não notasse os respingos de sangue em sua batina negra, já coagulados e craquelados perante o frio que se encerrava lá fora.
Todavia, o calor parecia emanar-se das paredes pedregosas da casa de banho, e as paredes escuras cediam ao lugar um tom tenebroso, digno de um filme de horror. Isaac virou-se quando o padre despia sua batina e ficava somente de cuecas em sua frente, sem nenhum pudor ou maldade no coração.
-Afinal, somos os dois dotados da mesma fisiologia por entre as pernas, detetive. – Não se acanhe, pois não mordo.
O religioso sorriu e abriu um dos boxes que separavam o chuveiro aquecido do lado de fora, com um pequeno declive para evitar o transbordamento de água do banho para o exterior. Neste momento, Isaac se debruçou no chão para recolher a vestimenta como prova, quem sabe, mas foi interrompido por um assobiar tremulante vindo do corredor, que logo avançou e estava chegando mais próximo dele.
-Isaac! – O outro padre gêmeo chegou já sem a batina, que estava segura em sua mão, e apoiou-se na parede, atabalhoado, para despir-se também sem pudor. Jogou as vestes junto às do irmão e entrou no boxe ao lado.
As cabeças dos dois despontaram cheias de sabão por cima do metal inoxidável das portinholas do banheiro, e os três aproveitaram para conversar com o detetive, que acabou perdendo a chance de recolher as vestes como possível prova para análise, já que todos naquelas redondezas podiam ser suspeitos.
-Já tens algo com o que trabalhar Isaac? – Mats pegou em um suporte ao lado um pequeno sabonete e esfregou-o por debaixo das axilas. Olhou então para o irmão gêmeo e pediu-lhe um frasco de xampu.
-Isto mesmo, detetive, conseguiu concluir algo com a autópsia?
Isaac deduziu que o melhor seria manter sigilo.
-Infelizmente, não. Somente sabemos que a bala entrou pelo abdômen e se alojou em um dos ossos da coluna vertebral da garota. Contudo, ainda não encontramos ainda a arma do crime. Têm alguma ideia, padres?
Ambos mexeram a cabeça em sinal de negação. Poderiam ter sido um pouco mais cuidadosos ao se ensaboar, visto que deixaram por várias vezes o sabão cair ao chão. Seria descuido ou nervosismo? O detetive contemplava cada movimento visível na expectativa de achar pretextos para derrubar o assassino em sua zona de conforto.
Aciel acabou primeiro, e saiu enrolado na toalha. Isaac pode perceber algo que a batina escondia, certo porte físico incomum a um pároco, que vive para a Igreja, e um abdômen definido em gomos não era o esperado de um religioso enclausurado com sua doutrina. Suspeito. O homem terminou de se enxugar e botou as cuecas limpas no lugar. Entretanto, lhe faltavam as batinas, e saiu rapidamente para busca-las, portanto, sem deixar suspeitas.
Mats demorou mais um pouco no banho, pois fazia a barba, algo que a partir daquele momento começou a destacá-lo do irmão. Exceto por isto, o resto de seu corpo era verossímil ao de seu irmão gêmeo, inclusive o abdômen segmentado.
-Onde arranjam tempo para se exercitar, meu jovem? – A pergunta sairia quase inoportuna se Mats não a respondesse.
O padre jovial e musculoso levantou o olhar e prontamente respondeu:
-Temos uma academia aos fundos da catedral. Ela é de uso da comunidade, apesar de nos servir de bom agrado.
-Bem... Quer dizer então que você e Aciel são atletas?
-Podemos considerar assim. – Mats exibiu os bíceps torneados com um tom satírico. – Mas vamos nos ater ao momento. Acredita que também esqueci as roupas?
Saiu pelo corredor gritando o irmão e desapareceu na escuridão. Era a oportunidade de Isaac para recolher as provas do crime.


-Boa noite, padre.
-Boa noite.
Os religiosos se dirigiram cada um a seus aposentos simples, despedindo-se uns dos outros com cumplicidade. Frei Emmanuel foi o último a permanecer na capela de orações, recitando como sempre sua usual ladainha de bênçãos. Estava, portanto, sozinho e distraído.
O golpe caiu rápido sobre sua cabeça, e ele logo caiu por cima do corpo roliço e compacto, confundindo-se quando o assunto era entre as dobras de suas vestes e as de seu próprio corpanzil lipídeo. Em seguida, engrossou-se o sangue que lhe vinha na boca, juntando um joelho coberto por um pano negro que lhe comprimia o tórax e a própria ferida que jorrava um sangue infortúnio.
Abriu-se fogo, e a chama da pólvora do disparo calou para sempre o estabanado frei capuchinho. Queimaram-se seus pequenos cabelos do peito e queimou-se também o arquivo que ele guardava em sua mente de tudo o que havia ouvido naquele dia do confessionário. Ficou então Emannuel com o olhar morto a observar os passos apressados do assassino de volta a seus aposentos eclesiásticos.


-Bom dia, padre.
-Bom dia.
Os religiosos levantaram-se habitualmente, não estranhando a falta do frei. Certamente tinham suas dúvidas, mas à esta hora da manhã, cerca de cinco e trinta e cinco quando ainda o sol não havia nascido, o atarracado homem costumava preparar o café. Era geralmente o primeiro a se levantar.
Aciel e Mats ficaram esticados por ali mais alguns minutos. Cônego Hanz debandou seu corpo esguio e esquelético para fora de seu quarto, tateando as paredes, ainda com os bocejos de sono em sua boca escassa e os olhos cegos pregados de muco ocular. Apesar dos pesares, prosseguia com o porte de líder, o nariz fino e branco levantado com presunção e os ouvidos abertos para tudo menos a críticas.
A parede ainda estava gelada quando a seguiu até a cozinha. Emmanuel não estava lá como habitual. O cheiro de café ou chá de hortelã morno, costumeiro àquela hora da manhã por aquela região da casa paroquial, tinha se perdido nas histórias; e o vasilhame cuidadosamente arrumado pelo detetive Isaac em parceria com o frei, tudo isto na noite passada, haviam deixados como marca da pessoa que era o religioso.
Fez ele mesmo o café e pegou na geladeira um pouco de leite para acompanhar. Esquentou-o ali mesmo, em um fogareiro rústico alimentado por lenha, junto com canela, uma especiaria de que não abria mão. Tomou-o sozinho. Aciel e Mats estiveram dormindo por todo este tempo. O frade Abraham Markus sempre saía para um passeio campestre, quando ia ao centro de Łomża e percorria as vielas em busca de preces divinas. Gostava de acompanhar o nascer do sol.
O período que passou sozinho deu a Hanz tempo para relembrar a morte da garota na catedral, cerca de três dias atrás. Observando o fogo crepitar e consumir a madeira que um dia fora um ser vivo, com xilema e floema correndo por seus vasos condutores, e agora, estava estático morrendo no fogo. Os olhos de Hanz ficaram vidrados por minutos, quiçá horas, com o calor aquecendo-os e a luz seduzindo-os.
-Hanz! – Uma voz masculina gritou em saudação. O cônego pulou de susto, quase a ponto de derramar o café com leite na batina limpa. Viu, pelo tom de voz, que se tratava do detetive Isaac, provavelmente vindo colher mais informações.
-Elsner! Quanto tempo! – Estendeu a xícara branca, de louça, da qual saía um vapor fino e alvo, além de um aroma agradável de canela. – Acompanhas-me?
Isaac não gostava de leite com café, mas precisava ganhar tempo com o cônego. Puxou a cadeira, pegou uma xícara e sentou-se ao lado do religioso.
-Então, Hanz, o que tu andas fazendo?
-Nada de mais. E você, prosseguiu com as investigações?
Ele obviamente não poderia revelar muito. Todavia, sua expressão poderia passar despercebida caso quisesse. Abriu um sorriso de comercial e usou de certa malícia para arrancar palavras da boca do cônego.
-Referindo-me à de Eva Araz. Qual sua ligação com ela?
O homem ao lado do detetive se assustou com a pergunta e curvou as sobrancelhas. Deu um falso sorriso de canto de boca e largou as xícaras em cima da mesa.
-Por que perguntas, caro amigo?
-Desejo colher informações e cultivar minhas suspeitas. Quem sabe não poderia dispensá-lo como assassino de vez?
-Deveras. Acusam-me?
-Ainda não.
A frase reverberou na mente de Isaac e pressionou os tímpanos de Hanz. Ambos tiveram calafrios. Seria um presságio?


***