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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

CONTO - A louca


     Matou o pai. Três pauladas na nuca foram o suficiente para deixar o corpo do velho caído no chão do quartinho em que ela morava, sem vida. 
     Diziam que ele era um homem do bem, honesto e trabalhador. Era um grande comerciante de iguarias e enriquecera rápido com essa atividade; tinha a melhor casa do condado, muitos empregados, uma vinícula, já que fabricar vinhos era o seu lazer preferido. Os cabelos brancos e a barba grande aumentavam a sua fama de homem bom. 
     No entanto, ninguém sabia que ela estava cansada de ser abusada por ele. Cresceu trancada em um quartinho em que um dia fora uma dispensa, esquecido em meio ao casarão imenso. Não tinha irmãos, e nem mesmo a própria mãe a quis; abandonou-a ainda criança nesse mundo perverso, com um homem pior ainda. Ninguém sabia de sua existência além do velho que todas as noites, desde bem pequena, entrava no cômodo com um prato com mingau de aveia, que ela só recebia se fizesse todas as coisas horríveis que ele a obrigava. Quantas vezes tivera que tomar chás abortivos que também lhe faziam mal, tentar não deixar infeccionar os machucados  que ele deixava em sua pele e até mesmo aguentar, calada, esta vida maldita. 
     Demorou apenas um dia para que dessem falta do velho. Sua voz imponente não tinha sido escutada, tão pouco havia indícios de que ele havia saido. Assim, os empregados começaram a procurá-lo. Foi um jovem oportunista que achou a porta empoeirada, escondida entre os armários do patrão. Encontrou dentro do minúsculo cômodo o corpo desfalecido do homem junto a um pedaço de madeira que havia sido parte do alisar da porta. Pegou um saco de moedas que encontrou com o morto e escondeu em suas próprias roupas. 
     Encolhida, bem distante do corpo, ela viu o homem se aproximando com um sorriso malicioso. Entendeu suas intenções ao ver que se aproximava tirando o cinto e calça o mais rápido possível. Jogou seu corpo contra o dele e o unhou no rosto, tirando dele um urro de dor. "Socorro, socorro!", gritou ele em seguida.  Logo vieram outros empregados que a pegaram e levaram para ser julgada em praça pública.
     Diagnosticaram-na com a doença do útero, histeria. Já era relativamente velha e não acharia um marido que pudesse curá-la, disseram. Logo, condenaram-na: seria enforcada ao raiar do dia seguinte. Trancaram-na em uma torre alta, onde passaria a noite, com somente uma porta pesada, impossível de abrir por dentro, e uma janela em que ela via apenas a imensidão do céu e o mar revolto, cujas ondas batiam com tanta velocidade e força nas pedras da torre que pareciam enlouquecidas, assim como ela. Ao final do dia conturbado, ela mal se preocupava com a lua e o céu, tão pouco com a lua no mar. A mártir se jogou da sacada, sem usar as asas que Deus lhe deu. Sentiu o baque do seu corpo contra a água salgada e sorriu. O que Ismália queria mesmo, era se libertar.

("Jéssica Stewart")