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quinta-feira, 5 de março de 2015

CONTO - Le mademoiselle



     

O sol transbordava toda a sua fúria presenteando os transeuntes com um calor escaldante de meio dia, todavia não era o suficiente para aquecer o coração da jovem.

Sua pele alva, quase translúcida, parecia refletir os raios do astro rei; os cabelos ruivos estavam soltos, claramente uma tentativa falha de esconder sua beleza angelical. Tal esforço não era lá necessário, uma vez que a tão outrora cortejada via-se passando despercebida em todos os lugares. Eram tempos difíceis, se comparados àquela outra era. Já fora rainha, princesa, duquesa, guerrilheira, plebéia… Agora, mesmo com aquele charme natural que fazia os homens caírem aos seus pés, não passava de uma reles pária.


A bochecha acentuava aos poucos, talvez por que o tom da sua pele parecia cada vez mais pálido, os olhos tornavam-se vazios, inexpressivos, a mão fria parecia congelar; se tivesse forças para chorar, com certeza o faria, contudo não tinha tempo para ter pena de si mesma, tão pouco para manter-se bela e austera. Queria sentir-se amada, desejada com fervor; era sua maior virtude e sua única fraqueza, precisava ser almejada para florescer. Ouvira seu nome entoado, inúmeras vezes, em canções de apaixonados que aqueciam seu coração e davam suas vidas para mantê-la pura, salva de todo perigo. Era invejada por muitas mulheres que viam seus maridos saindo de casa para encontrá-la, escondidos ou não; nunca faltava um encontro marcado, mesmo sabendo que certamente seria deixada de lado. Não fazia cerimônias, rendia-se a qualquer um que estivesse disposto a lutar por ela. Apesar de não aparentar, conhecia bem as táticas de batalha; seu traje maltrapilho, um vestido pardo amarrado por cordas na cintura, era uma breve lembrança dos conflitos vividos e suas árduas conquistas.


Vagava por aí, de ruas em ruas, cidades em cidades, quiçá entre países, não sei bem te informar, afinal ela apenas andava sem um rumo definido, buscava um chamado, uma paixão inflamada em um peito que mal cabia dentro do frágil corpo humano, que transcendia à alma, que se tornava uma causa acima da própria existência… Sim, havia amores como este há tempos atrás; não eram todos constituídos de tênues relações como os que vemos hoje em dia, era algo mais puro e mais intenso, era o amor verdadeiro tão idolatrado por Shakespeare e Victor Hugo.


Os pés calejados mal conseguiam traçar um trajeto retilíneo. Havia sido derrotada? Perguntava-se agarrando aos poucos momentos de sanidade que lhe restava. A mente da jovem francesa passeava por outras eras, como se procurasse consolo para sua dor. Os tempos saudosos de glória fizeram-na sorrir brevemente; era uma guerreira e jamais deixaria ser vencida sem lutar. Continuou a caminhada, mesmo sabendo que essa poderia ser sua ruína.


Marianne passava pela Tunísia, no norte da África, bem distante de sua amada Paris, palco de suas paixões mais ardentes que inflamaram gerações, quando algo enfim chamou sua atenção. Um rapaz, com seus vinte e poucos anos, estava no meio da avenida movimentada, logo em frente à sede do governo. Possuía cabelos castanhos e curtos, a pele bronzeada de tanta labuta. Em sua mente, apenas o anseio por liberdade.


Quando seus olhos se encontraram em meio aquele pandemônio, souberam que não estavam sós. A doce mademoiselle caminhou com passos firmes e o olhar fixo em sua direção. À medida que chegava perto, sentia a ligação entre eles se fortalecer.

Com o peito estufado por prender a respiração, o jovem comerciante de frutas avistava, com um sorriso encantador, a mulher que tanto almejava. Percebeu o estado de suas roupas, mas não se ateve a prender a visão nos seios que estavam visivelmente à mostra; focava apenas aquele belo rosto de traços suaves, angelical. Amava-a, mesmo sem saber o gosto de seus beijos, sem sentir o calor de seu toque. Estendeu lhe a mão, incitando-a a se aproximar.


Marianne mal podia acreditar no que acontecia. Era vista e admirada e isso trouxe vitalidade à sua forma. Prontamente deu-lhe as mãos suaves e retribuiu o sorriso caloroso. Sentia-se amada como antes, apesar de não ter sido nada entoado por ele. Enquanto o ajudava a preparar para o desafio que enfrentaria, via em seu coração os desejos mais puros e honestos, mesmo depois de sofrido uma terrível humilhação: tomaram suas mercadorias e cuspiram-lhe na face. Muitos daquela região haviam se tornado carrascos ao deixarem-na partir, e aquele bom cavalheiro estava se sacrificando para trazê-la novamente.


Ajoelhou-se em seus pés, ainda admirado com a beleza da dama, que repetiu o gesto mantendo-se a poucos centímetros dele. Fitando-o nos olhos aproximou-se de seu ouvido.


– Diga, e terá minha bênção. – Sussurrou a jovem.


O árabe sentiu-se conversando com um anjo, de uma delicadeza imensurável. Via-a como a personificação de seus sonhos mais belos e anseios mais puros, que nem mesmo as hábeis mãos de Delacroix conseguiram retratar de forma verídica. Uma multidão aglomerava-se ao seu redor, provavelmente estavam ansiosos para presenciar um belo espetáculo digno dos jornais de maior destaque no mundo. Ergueu suas mãos entrelaçadas aos céus e gritou liberando todo o ar dos pulmões:


– Liberdade! Aqui protesto pela opressão do meu provo, e aqui peço por sua liberdade! – e ateou fogo em si mesmo.


Marianne, o espírito da liberdade, debruçou sobre as labaredas ávidas para consumir o corpo do rapaz, puxou-o pela nuca com sua mão livre e fez uma carícia em seus cabelos enquanto aproximava lentamente seus lábios carnudos aos dele. Beijou-o suavemente e pode sentir novamente o calor do seu coração palpitante. O doce sabor que provinha de seus lábios abrandou o sofrimento do jovem, a quem embalou nos braços, ainda brincando com seus cabelos enquanto cantava a famosa Marselhesa até que ficasse inconsciente. Assim selava um pacto; tomaria a causa do amado para si e lutaria até que o último suspiro escapasse do seu peito, logo, guiaria os que zelassem por ela rumo à vitória que tanto almejavam.


A paixão que ali iniciava, incitou o desejo em muitos povos da região. Os amantes da bela francesa se uniram para lutar a seu favor; traziam armas em punho e entoavam cânticos como forma de clamor. Reuniram jovens que nunca provaram de seu sabor e velhos que sempre esperavam por seu retorno. Começava a Primavera Árabe.


("Jéssica Stewart")