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sábado, 5 de março de 2016

CONTO - O destino da Estrela


(Inspirado em A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr)

    Lá estava a jovem, a minha frente, com cara de espanto, as mãos na boca. Seus olhos arregalavam-se em minha direção, deixando-me apreensivo.
    - O  que foi? - perguntei
    - Eu sou seu ativador.


    - O que? Como assim?
    - Primeiro eu gostaria de conversar com você. - hesitou. - como posso chamá-lo?
    - Hm... Não sei. - Dei de ombros. Minha identidade se esvaíra da mente. Não havia qualquer pista que me conectasse à minha vida. O que estava acontecendo? Fiz uma prece silenciosa à Deus; pedi uma luz, qualquer que fosse, algo que me ajudasse a sair dessa situação. Subitamente minha mente se abriu. Consegui pensar  em um nome. -  Aziel - disse por fim.
    - Aziel? - Espantou-se. - Você é um Ishin!
    Dei as costas pra ela e comecei a me dirigir para longe daquela maluquice. Ishin? Era só o que me faltava. Sou um saudita, e disso tenho certeza.
    À medida que andava, percebia que meus pés não afundavam na areia, e que minhas roupas já estavam secas. Parei por um instante. Nada fazia sentido... Mas há uma explicação para tudo.  Está falando a verdade?  O que eu sou?
    -Não estou louca, por favor, vamos conversar. - Gritou distante.
    Rendi-me  às  suas explicações. Voltei desconfiado para onde estávamos apesar de não haver provas que estava errada.
    - Veja, concentre-se bem aqui. - disse apontando para suas mãos, até então normais.  Decidi dar uma chance a garota, mesmo sabendo que não passava de mentiras. Aos poucos uma luminescência tornou-se visível, uma luz azulada emanava envolvendo-a por inteiro. Duas protuberâncias surgiram em suas costas, e logo uma imensa asa apareceu. Um anjo?
    - Anjos são majoritariamente masculinos. Quem é você? Uma succubus? Um demônio? Diga! - Cuspi as palavras rispidamente.
    -  Acha mesmo que uma cultura de dominação machista deixaria seu povo ter conhecimento da existência de mulheres celestiais? - disse, mantendo a calma. - Nós sempre coexistimos, Aziel. Olhe para si. Não sabe nadar? Como boiou com tanta facilidade? E suas roupas? Porque estão secas? Feri seus lábios a pouco, há sangue em sua camisa, e o ferimento já cicatrizou.
    Todas as evidências eram verdadeiras. Olhei-a com espanto. - Quem sou eu?
    Transformou-se em seu avatar humano novamente, com a mesma facilidade que me apresentou sua forma celestial. Havia nela certa graça, algo que prendia meu olhar. A forma como falava, firme e segura de si, era mais um motivo para confiar em suas palavras. Sua beleza singela e seu coração bondoso atraiam sentimentos bons.
    - Você é Aziel, Chama Sagrada, da casta dos Ishins. Consegue controlar os elementos fundamentais.
    - Como você sabe quem sou?
    Deu um sorriso mostrando covinhas em suas bochechas rosadas. - Digamos que seu nome é famoso por aqui. Quem sabe eu te conto essa história mais tarde...
    - E você? Quem é?
    - Sou Estrela Sombria. - fez uma cara de desaprovação, deixando no ar que não lhe era agradável. E logo completou. – Pode me chamar de Varna. Sou um querubim, e sim, sei usar muito bem um arco e flecha. - disse impaciente - Nosso tempo está se esgotando...
    - Então, somos anjos?
    - Sim.
    - E temos uma missão?
    - Sim.  Eu tomei a liberdade de ler sua mente e...
    - UAU. Nossa. Você lê mentes? - interrompi
    - Sim, e você manuseia fogo. Agora, deixe-me terminar, por favor. - fez uma pequena pausa. - Obrigada. Eu já li histórias assim antes, na verdade pesquisei sobre isso durante muito tempo... Sua mente está conectada a alguém que precisa ser salvo. Você sente o que essa pessoa está sentindo, por isso tem esses lapsos de "memória", mas não são suas. E normalmente, essa pessoa tem sempre um "ativador", que traz a tona todos os sentimentos. Eu sou seu ativador. Toda vez que se encosta-se em mim, a ligação se completa.
    Ponderei sobre o assunto um instante. Todas essas informações, jogadas assim, de uma só vez... Não fazia sentido... Todavia algo em mim me dizia para agarrar-me a elas. E lá se foi minha sanidade.
    - Muito bem. - disse por fim. - Onde devemos ir e o que fazer?
    - Toque em mim. - completou em seguida - e concentre-se, por favor. Não quero mais ter que machucá-lo. - disse soltando um sorriso tranquilizador.
    Assim fiz.

***

    - Senhores passageiros, o voo 11 da American Airlines com destino a Los Angeles, Califórnia, sairá em 30 minutos. Favor dirigirem-se ao portão de embarque. - Avisou uma voz feminina.
Um relógio pendia do teto, indicando já ser 07h15min.
 -Vá. O voo partirá a qualquer momento!
    Deu-me um beijo de despedida, deixando seu perfume impregnado em minha pele.
    - Chame os outros. Está na hora.

***

    - Então? Conseguiu ver? - perguntou ansiosa.
    - São quantas horas agora? - perguntei olhando-a nos olhos.
    - 05h26min.
    - Varna, estou vendo o futuro. - arregalou os  olhos surpresa, mas se conteve, deixando-me logo despejar as informações obtidas. - Vi-me, quer dizer, eu o vi no aeroporto. Pegará o voo 11, da American Airlines. O destino é Los Angeles, na Califórnia.
    - Isso ainda não ajuda muito... Anda, encoste de novo.

***

    - Quantos a bordo?
    - 92. Há cinco de nossos homens aqui. Acha que conseguimos?  - Perguntou um homem alto, moreno, com a barba recém aparada, um pouco acima do peso.
    - É mais do que o suficiente.  Waleed, aqui está. - Entreguei-lhe um papel com um "X" assinalado. Coordenadas indicavam o local. - Peça para Abdulaziz estar a postos. É ele quem vai agir primeiramente. Não deixe que os vejam conversando. Isso atrairá suspeitas.


***

    -  40°42’42” Norte, 74°0’45” Oeste.
    -  World Trade Center, Nova Iorque. – identificou, para minha surpresa. - Que eu saiba, lá não é um aeroporto. O que isso tem a ver?
    - Varna, não temos que salvá-lo.  - Seu semblante demonstrou que não compreendia. Tratei logo de explicá-la. - Vão sequestrar um avião e colidi-lo nos arranha-céus. Há milhares de vidas em jogo.
    - Isso muda tudo.- ponderou. - Temos que ir, Aziel.  Agora.
    - Mas como? - olhava-me com um sorriso esperto, insinuante. - Ah, asas.  - disse entre suspiros. - Eu não sei como usá-las. Como faço para aparecerem?
    - Temos que deixar nossos avatares e ir para o plano etéreo. É tudo tão natural, que mal vai perceber que está se locomovendo. Respire, inspire. Isso! Bem devagar. - Instruía. - Sinta seu corpo mais leve, a mente mais livre, deixe-se elevar.
    De início, não vi nenhuma mudança aparente, mas logo apareceram as labaredas azuis nas pontas dos dedos que se alastravam, progressivamente, por meus membros, até atingirem o coração. Imensas asas brancas apareceram em minhas costas. Senti-me levitar, e como disse a querubim, tudo fluiu tão naturalmente que não foi preciso muito para já saber usá-las.
    O ar batia em meu rosto, ventilando cada pedaço da minha alma. Era uma sensação libertadora, revigorante. Quem me dera poder viver assim, dessa sensação de controle sobre si próprio, dessa paz. Encontrei-me! Sou um anjo! Mas Ele não me deu o livre arbítrio, como fez aos homens. Vivo para servi-lo, para proteger toda a sua criação e darei o que for necessário, até mesmo minha vida,  para cumprir seus desejos.
    A querubim começou a descer próximo as gigantescas torres. Fui atrás.
    Descemos no asfalto quente da caótica Nova Iorque e materializamos em um beco abandonado para não chamar muita atenção. Varna era mesma jovem, bela e sábia, que encontrei aquela noite na praia. Sorria, involuntariamente, mesmo que a situação pedisse seriedade, com um carisma que vinha encravado em seu caráter.
    - Vou subir. - Disse encarando a imensa construção. - Fique bem aqui, por favor. Já são 08h30min, tenho que agir rapidamente. - virou-se para mim e fitou-me. - Eu preciso que você tente desviar o curso do avião. Se consegue controlar o fogo, talvez o ar não seja tão difícil.
    - Sim. Prometo dar meu máximo. Mas como vai fazer lá dentro?
    - Ainda não sei. - disse cabisbaixa. - talvez acionar um alarme, gritar para evacuarem os prédios. Vou agora.
     Em um impulso, abracei-a. A ligação não ocorreu, como esperado, no entanto minhas reais memórias irromperam minha mente.
    - Mas o que? - surpreendeu-se.
    - Sou eu Varna! Lembrei-me quem sou. Obrigado. - Afaguei suas bochechas com afeto. Havia algo de especial nela que eu ainda não havia descoberto. - Agora vá. Tem uma missão a cumprir.
    Assentiu e rumou  ao seu destino.
    - Cuide-se bem, Estrela Sombria. - sussurrei observando-a correr entre aquele mar de pessoas.
    Não tardou muito para, a 790KM/h, o Boeing 767 rasgar o céu, atraindo curiosos pelo trajeto inusitado.
     Concentrei-me ao máximo para mudar sua rota e transferi-lo para um campo próximo. O suor escorria por meu corpo, minha mente entrava em colapso. O trabalho a ser feito era quase impossível, não dominava o ar, apenas o fogo.
    A força aplicada era tamanha, que me sentia movido pelo avião. Trinquei os dentes na esperança de obter um resultado, mas foi em vão. O Boeing atingiu a torre norte com um barulho ensurdecedor. Instantaneamente parei de sentir a aura pulsante de Varna.
    Caí de joelhos sem forças para me reerguer.
    Estrela Sombria deu sua vida à uma causa, foi embora fazendo aquilo que mais amava: Servir a Deus. Não perdeu-se no tempo e no espaço; seu coração nobre e suas belas atitudes permitiram que torna-se a mais bela estrela no céu, ironicamente, a mais cintilante. Tivemos uma missão a ser cumprida hoje. Não sabemos se fomos bem sucedidos ou não, afinal o evento foi considerado um marco na busca pela paz. A vida não vem com um manual de instruções, e para nós, celestiais, a morte está presente em todo momento. Não nos destruímos como fazem os homens. Morremos em batalhas a favor da vida, para salvar aqueles que correm o risco de partir sem completar sua missão na Terra.
    Suspirei de dor. Fui levado à exaustão pelo ato. Deitei-me no chão para tentar me recuperar e presenciei o ataque a torre sul.
    Um pedaço da lataria se desprendeu e veio em minha direção. Não consegui me mover.


("Jéssica Stewart")