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domingo, 13 de março de 2016

Crônica - "Mas só chove, chove..."


     

Escutou os murmúrios por onde passava. Cruzou os braços em uma inútil tentativa de se esconder. Apertou o passo, abaixou a cabeça.

Risos ecoaram em sua mente.

Convenceu a si mesma de olhar para frente sem olhar para trás. O que será que estavam reparando? Seu cabelo que fugia a regra de ser liso, suas unhas descuidadas, seus braços roliços, suas espinhas, a roupa fora de moda, o corpo não malhado... havia tantas coisas que a intimidava no convívio social que acabou desistindo de fazer novas amizades e deixar-se cativar por alguém. Não teriam coragem de amá-la de qualquer forma.

Findou sua vida, transformou-se em adulta. Tudo aquilo que antes a deixava sã foi abandonado, como aquela última boneca deixada no canto de um quartinho qualquer, lembrada apenas por traças e outras pestes urbanas.

Seu coração pulsava apenas a dor e o sofrimento de um cotidiano monótono.

TOC-TOC-TOC - fazia o seu salto na calçada. Tropeçou em uma pedra e foi o suficiente para começar a escutar novamente os risos maldosos. Seus olhos se encheram de lágrimas que instanâneamente embaçaram a sua visão. Atravessou a rua ávida para se libertar; não viu - ou talvez tivesse visto - o carro que vinha em sua direção.




("Jéssica Stewart")