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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Crítica - Chantagem e Confissão, filme de Alfred Hitchcock


Apesar de ser uma das primeiras obras do pai do suspense, Blackmail possui alguns dos elementos que marcam as criações de Hitchcock, como crimes efetuados por autores "improváveis" - um marido apaixonado, um filho carinhoso ou uma dama ingênua -, sonoplastia marcante, e pequenos acontecimentos que acabam desencadeando a trama; no caso de Blackmail, é o abandono da protagonista pelo parceiro em um restaurante.
Em 1929, data de lançamento da obra, o capitalismo passava por uma de suas piores crises. A provável falta de recursos a serem investidos na produção aliada a um cinema com tecnologia ainda precária, resultou em um filme com pouco apelo visual, com cenários limitados, poucos personagens e figurinos, mas, em compensação, os longos diálogos preenchem os espaços deixados e, embora duradouros, não são cansativos devido a alternância de câmeras em diferentes ângulos, ademais constituem uma parte importante para que o espectador compreenda os caminhos tomados na trama e analise psicologicamente os personagens.

Entretanto, o que nitidamente mais chama a atenção é o papel de Anny Ondra. Alice White, a protagonista, é uma típica senhorita de classe média dos anos 20 que exala graciosidade na fala, no sorriso, nos gestos, possui uma educação impecável, uma dama. Todavia, reagiu de forma inesperada quando tentaram aproveitar de sua ingenuidade, e as consequências desse ato provocaram uma notória mudança no comportamento da personagem. Mais madura e introspectiva, Alice tenta conviver com os conflitos que permeiam sua mente e com a culpa por suas ações. Muito embora Hitchcock talvez não se preocupasse em deixar explícita a problematização acerca das questões de gênero na sociedade da época, é válido ressaltar essa possível análise. A visão de sexo frágil, ainda presente na cabeça de muitos, é posta de xeque pela protagonista, e é essa mentalidade que a salva de uma condenação penal, entretanto corrobora em uma autopunição psicológica.
Todavia, pouco se problematiza a respeito de quem é a vítima e quem é o agressor. Não há uma discussão que leve o espectador a reconhecer que Alice na verdade é vítima de uma sociedade com valores misóginos e que suas ações são reflexos da violência cometida contra ela. Provavelmente, uma análise mais aprofundada desse problema entraria em conflito com os valores da época e teria grande impacto na carreira do diretor, uma vez que, 87 anos após o lançamento da obra, as questões de gênero ainda não foram superadas e mantém-se a visão de incapacidade de autodefesa feminina.
Blackmail, ainda que seja uma ficção em preto e branco, traduz uma realidade atual do universo feminino que sofre com abusos, assédios e uma visão erroneamente dicotômica que o divide em dois grupos: santas e putas.
Hitchcock soube conduzir com maestria a produção da obra, o que já era esperado. Embora Blackmail não tenha atingido o mesmo grau de qualidade de Psicose ou Um Corpo que Cai, vale muito a pena ser assistido e analisado com criticidade.


Dados da obra (Imdb):


Título Original: Blackmail
Título em Português: Chantagem e Confissão
País: Reino Unido
Idioma: Inglês
Data de lançamento: 30 de junho de 1929
Duração: 84 min
Gênero: Suspense
Avaliação: 7
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Alfred Hitchcock, Benn W Levy
Elenco: Anny Odra, Sara AllGood, Charles Paton, John Longden, Donald Calthrop

("Lídia Duarte")