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domingo, 22 de janeiro de 2017

Crônica - Adeus (É só isso o que eu tinha pra te dizer)




Essa é a primeira vez que escrevo algo sobre você e espero que seja a última. Não quero te colocar novamente num papel por medo de me expor demais e acabar dizendo coisas que não deveria; quando escrevo, deixo-me levar pelo sentimento poético que acaba controlando minhas mãos... mas dessa vez, escrevo porque quero te eternizar.
Pensei em dizer como nos conhecemos, mas acho que isso nunca aconteceu: você é uma esfinge e eu sou inconstante. Talvez seja por isso que a gente se comporta como completos desconhecidos quando se encontra por aí...

Como foi que tudo começou mesmo? Estávamos na sala, foi você quem puxou conversa; falou-me sobre suas bandas favoritas, livros... Você fica dias sem conversar com algum ser vivo, por que resolveu bater-papo comigo? Depois se ofereceu para me mandar umas fotos do mural da escola, já que a câmera do meu celular não era muito boa. Te passei o meu número, mas você não mandou mensagem. Fiquei muito incomodada por você ter me esquecido, sério; foi aí que eu me dei conta do quanto aquele menino com o cabelo do Jimmy Neutron havia me cativado. Mas já era tarde, as aulas haviam acabado e eu jamais o veria; que bom que eu estava enganada.
Um dia, do nada, você reapareceu. Com o tempo, passei a te ver com frequência. Fiz uma algazarra na sua vida, porque eu sou assim: se conversar comigo uma vez, já te considero melhor amigo, quero saber o nome do seu pai, da sua mãe, seu RG, e ainda apareço na sua casa de supetão para tomar café. Sentei-me ao seu lado sem pedir licença; eu te disse que gostava de Hitchcock, você me disse que tinha "Vertigo" no celular (tipo "playboyzinho" que usa palavras em inglês no meio das frases). Daí pra frente sou eu grudada no seu calcanhar.
Os outros comentam bobagens, mas eles não sabem daquele abraço que me deu quando viu que eu precisava (e ainda me deixou enxarcar sua camisa com as minhas lágrimas), que tentou me acalmar e dar apoio mesmo bêbado (podia ter ignorado aquelas mensagens dramáticas e ter curtido o que estava fazendo, mas parou um momento por mim). Você me deu um empurrão para que eu começasse a aceitar tudo aquilo que evitava pensar a respeito, e abraçou meu sol em sagitário: contigo, sinto-me livre para agir como quiser, falar o que bem entender.
De início, talvez tivesse algum interesse secundário, mas algo mudou. Confesso que foi estupidez ter me apegado tanto... te idealizei e fiquei presa a essa imagem. Doeu um pouco quando a realidade veio à tona, mas, ainda assim, você era aquele amigo que eu guardaria em um potinho. Sei lá, acho que é porque você consegue despertar amor e ódio simultaneamente, tipo quando explode minha cabeça com argumentos em uma discussão, ou o fato de deixar bem claro que não sente nada por mim além de indiferença (e quando eu aceito esse seu coração gelado, derrete o meu com um gesto involuntário de carinho). Ainda tem esse seu jeito de esfinge que me corta em pedacinhos; nunca sei o que está passando por sua cabeça.
Mas acho que já é hora de finalmente aceitar a bifurcação que vai separar nossos caminhos; por mais que exista interesse em manter contato, ele não tarda ser perdido. Sabíamos desde o início que seria assim, e talvez seja o que motivou uma amizade pautada em sinceridade e ausência de cobranças. Ao contrário de me entristecer, fico feliz pelo tempo em que me foi permitido conviver com o "baby" sacerdote de Nietzsche. Só me resta agora te desejar que a vida seja leve, com muito mais conquistas do que perdas; que a famigerada USP deixe de ser um sonho para se tornar realidade.
Espero ler esse texto daqui a alguns anos, e abrir um sorriso como se eu tivesse acabado de te encontrar perdido em um shopping na Paulista. Talvez não será a coisa mais esperta do mundo, mas provavelmente vou te mandar um "oi" no whatsapp; não ouse me ignorar.
Hasta la vista, Chewie.

("Lídia Duarte")