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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Maldita

               No dia 6 de junho, às três horas da manhã, nascia a primeira menina da família Dallas, Agatha.  Desde que fora levada para casa, coisas inexplicáveis começaram a acontecer, como barulhos, coisas tiradas do lugar . Nada para se preocupar realmente, até que em uma madrugada, Lúcia, a mãe da pequena, foi acordada por um grande estrondo. Agatha havia sido jogada para fora do berço.
             Na manhã seguinte, depois do grande susto, a mulher ainda com a filha nos braços conta ao marido o ocorrido. Sua reação fora a mais inusitada. Olhou-a fixamente, ficou extremamente pálido e foi embora sem dizer sequer uma palavra. Tarde da noite, Lúcia sentiu um movimento na cama e viu que seu marido deitava.
              -Vitor? - sem resposta e cansada demais para insistir, caiu novamente em profundo sono.
               Por anos, a situação permaneceu-se estável, porém sem melhoras. A família começou a se distanciar. Ninguém queria comentar sobre tudo o que acontecia desde o nascimento da menina.
               Seria o primeiro dia de aula de Agatha. Lúcia estava muito feliz e tinha a esperança de que tendo contato diário com outras crianças a filha poderia ter uma infância relativamente normal diante dos estranhos fatos dos quais nunca questionava.
                 Não havia passado nem uma hora desde que ela tinha deixado a criança na escola quando o telefone tocou:
                 -Sra.Dallas?
                 -Sim, com quem falo?
                 -Queira nos desculpar, mas... - pausa - não podemos ficar com sua filha.
                 - Mas o que? - A linha fora cortada.
                 Chegando à escola, a menina já se encontrava no lado de fora do portão com a mochilinha e um desenho em mãos.
                 -Querida, venha cá. - disse Lúcia estendendo os braços - conta pra mamãe o que aconteceu?
                 -Não foi eu mamãe, juro! - vendo que a mãe não a compreendia, entregou o desenho a ela. No desenho, feito em rabiscos infantis, havia a escola pegando fogo, inúmeras crianças mortas e a repetição da palavra maldita em letras garrafais. O mais estranho de toda a situação é que Agatha ainda não sabia escrever.
                 -Quem fez isso filha?
                 -O papai sabe... - Lúcia tomou a menina pela mão e correu para casa em busca de explicações do marido. Estacionou o carro do lado de fora da casa e nem se preocupou em tirar a chave da ignição. Adiantou o passo subindo as escadas ao pulos.
                 -Querida, vá para o quarto.
                 Chegou atordoada ao quarto do segundo andar assustando o marido ao gritar:
                 -Por que você não me conta? Eu sei que você sabe de tudo! Eu preciso saber... - Lúcia desfaleceu aos pés do marido.
                 Acordou ao sentir as mãos frias afagando seu rosto.
                 -Você tem razão - disse ele com lágrimas nos olhos - eu vou te contar. No século XV, um homem chamado Marlon Dallas brincou com o coração de uma bela jovem, Norma. Ela secretamente praticava bruxaria e ocultismo. Certo dia, ela recebera a notícia de que Marlon casaria-se com a prima e com o coração partido, rogou sob toda a família Dallas uma maldição na qual a próxima mulher Dallas pagaria por seu sofrimento. Durante gerações, fomos contemplados por apenas homens, até que Agatha nasceu.
               -Então você quer dizer que a minha pequena Agatha vai pagar pelos erros de um homem da sua família? Maldito seja! Maldita seja também a tal bruxa! Maldita, maldita, maldita... - A porta abriu uma fresta e a menina surgiu pálida. - Querida? - A menina caiu de joelhos no chão e soltou um grito tão estridente que chegou a estourar as janelas e o espelho do quarto. Houve um silêncio completo.
               A criança olhou para os pais chorando sangue e disse com o que parecia uma dupla voz:
              -Um Dallas provocou, um Dallas vai pagar! - Dito isso, correu a uma velocidade absurda até o pai, agarrando-lhe o pescoço, até que esforços de uma força sobrenatural, atingiu a jugular. A mulher até então atônita, ao ver o marido agonizando até a morte, empurra inesperadamente a menina em direção à janela já quebrada, fazendo-a despencar do segundo andar na grama do quintal. Cacos de vidro que ainda estavam presos na ferragem da janela foram lançados atras dela, atingindo-a bem no peito. Esse era o fim.
 Lúcia em prantos dirigiu-se até o quarto da filha, onde pegou uma foto da família e segurou-a bem forte perto do peito. Cantando uma canção de ninar, foi até o guarda-roupas e trancou-se lá dentro.
            Os vizinhos começaram a sentir falta do movimento na casa e achando estranho o cheiro de podridão que saia de lá, resolveram chamar a polícia local.
           -Tem alguém em casa? - Quando o policial fora bater a porta viu que ela se encontrava aberta. Já dentro da casa, o oficial de policia Scott se encontrava acompanhado de mais dois companheiros de turno, Hanrry e Sam.
            -Um de vocês poderia olhar o quintal e o outro o andar de cima. Vou averiguar os quartos daqui de baixo.
            Os três se separaram e a medida com que iam se afastando do hall de entrada sentiam cada vez mas forte o odor de enxofre. Sam fora até o quintal e lá encontrou o corpo de uma garotinha que aparentava estar ali a algumas semanas. Hanrry deparou-se com o corpo de um homem logo que chegou ao segundo andar. Scott não encontrara mais nada. Quando já ia de encontro aos companheiros para buscar reforços, ouviu o que parecia uma canção de ninar vinda do quarto ao lado.
            -Tem alguém ai? - disse o policial determinado a desvendar de onde vinha a canção. - Está tudo bem, é a policia. - A mulher saltou para fora do armário ao saber que a salvação chegara. Pendurou-se nos braços do policial desesperada. Ela estava visivelmente desidratada e fraca. - "Encontrei uma senhora com vida, além dos reforços, peça uma ambulância." - Disse o policial no rádio comunicador. - A senhora pode me dizer o que aconteceu aqui?
            -Maldita, maldita, maldita, maldita... - era só o que conseguia dizer.
            Lúcia foi levada ao hospital, onde averiguou-se que ela não estava de posse de suas sanidades mentais, sendo assim levada a um sanatório, onde viveu e foi assombrada pelas lembranças até se enforcar usando a própria calça, no dia 6 de junho às três horas da manhã.

("Brianna Morgan")