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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Dama da noite

Algo naquele beco chamou-me a atenção. O calor que inundava a entrada era extraordinário, como se algo queimasse lá dentro. Logo, uma chama dourada captou minha silhueta, deixando ainda mais nítidas as sombras na parede, que dançavam um ritual satânico, desprendendo tamanha emoção.
            Um vulto enegrecido se desprendeu da parede e vinha em minha direção com longas garras. Soltei um grito de terror, e meu coração quase parou quando me tocou nos ombros e disse-me rasgando o silêncio:
            -Até que enfim eu lhe achei! Pensei que não o veria nunca mais. – As unhas vermelhas rasgaram minha dignidade com um toque quente e desesperador, que me trouxe na hora lembranças de um passado já esquecido. Não queria ter um daqueles loucos flashbacks, mas era inevitável. Ela tomou meus lábios em um beijo amargo e temeroso, faltando-me o ar. Era como se minha alma fosse sugada da carne pela boca, com certa ferocidade e rancor diabólico.
            Queria fazer com que ela parasse, mas já não era dono de minhas próprias vontades. Eu pertencia à ela.
            -Não vai querer mais? – Questionou-me quando me afastei metade envergonhado e metade eufórico. Queria mais, sempre mais.
            Ela começou a me conduzir à parede. Estava enfeitiçado pela loucura da paixão, com ela me pressionando fortemente, dizendo em meus ouvidos palavras sussurradas.
            -Venha, meu bem. Eu sei o que você quer. Sei também o que você precisa.
            Estava preso em seus olhos dourados. A parede cada vez mais perto e ela continuava a me puxar pela mão.
            -Pare com isso! – Tentei gritar, desesperado e afobado. Corri meus olhos pela rua atrás de mim, completamente vazia. – O que você quer de mim? – Perguntei, olhando em seus olhos e vendo sua alma por dentro, linda e cativante.
            -Você sabe o que eu quero meu bem. – Sussurrou ela em meus ouvidos. Deixei-me envolver. Ela pressionou-me contra a parede e deu um beijo quente com os lábios carnudos em meu pescoço. Começaram-se a eriçar os pelos de minha nuca enquanto ela passava as unhas provocantemente vermelhas em meu abdômen definido.
            Já não queria mais ir embora, e entreguei-me totalmente a ela. Girei-a, trocando de lugar, e ela ficou de costas para a parede de tijolos, gemendo.
            Mas, assim como ela surgiu em um ressalto, começou a dissolver-se em seu próprio prazer, que havia comungado com o meu, coisa que não podia
            -Não! – Gritei em desespero.
            Ela já não estava mais lá. Ouvi no silêncio da escuridão uma risada leve e satisfeita. Ela havia conseguido o que queria. Agora, EU a desejava.
            -O que faço para vê-la novamente? – Questionei, contando as palavras.
            -Nada. – Fui respondido com frieza, por fonemas obscuros que vieram diretamente do nada.
            E sumiu no breu daquele beco, deixando-me somente com a lembrança de seu perfume suave e de suar artimanhas para seduzir-me. Algo me fazia ter certeza de que ela voltaria, e que não tardaria a reaparecer. Ademais, meus sentidos à flor da pele despertavam instintos carnais que me faziam suspirar de desejo, como se uma aura secular pairasse sobre mim e continuasse a me provocar. Meu desejo era vê-la em minha cama quando chegasse em casa para poder apoderar-me daquele corpo.
            -Boa noite, meu bem! – A voz voltou por trás de minha nuca, e um aroma achocolatado invadiu minhas vias nasais.
            -Te espero em meu apartamento. – Disse baixinho, com tom malicioso no rosto, esperando que meu pedido fosse atendido.
            Esperei a voz do silêncio se expressar, com aquele toque felpudo em meu tímpano que o fazia vibrar de emoção, rompendo a tensão de minha escápula e derretendo meu coração.
            -Não posso sair desse beco. – Ela disse, encostando seu indicador em minha boca seca e ansiosa por algo mais. – Sou filha das sombras, e não posso abandoná-las. Queria muito poder provar mais disso aí. – Apontou para mim. Corei com as bochechas, que ardiam vermelhas como fogo.
            -Deixe-me então ficar com você. – Supliquei, desesperado.
            -Você sabe que é um caminho sem voltas, certo?
            -Não me importo. – Seus olhos se iluminaram no meio da escuridão, como dois faróis altos.
            -Chegue mais perto. – Ela ordenou de forma baixa e lenta, como um ronrono.
            -Sou todo seu. – Respondi, avançando em sua direção. Ela envolveu-me com suas garras até alcançar meus glúteos, com suas mãos delicadas se encaixando perfeitamente, e me puxando para si, sugando-me com a escuridão, que tomou conta de mim. Tudo mais ficou escuro, mas ainda podia sentir aquele perfume.
        
                                                                      ("Brianna Morgan, André Luiz e Jéssica Stewart")