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quinta-feira, 24 de julho de 2014

O palhaço

Em uma cidade qualquer, de um país menos importante ainda, vivia Gumercindo. Como qualquer criança tímida de dez anos, possuía poucos amigos e vivia como uma sombra na vida de todos.
Um dia eis que surge Clarinha, uma linda menina que tinha acabado de se transferir para sua escola. Simpática, passava todo o seu tempo com ele, ignorando todos os outros alunos que estavam eufóricos para receber sua atenção. O pequeno Gumercindo se sentia aquecido com aquela luz que irradiava dela, e de repente já não se sentia mais uma sombra.
Com o passar do tempo, acabou descobrindo muitas coisas sobre a menina: Era nascida e criada em um circo, filha de um ex-mágico e de sua assistente, que mais tarde decidiram abandonar a vida de espetáculos para poder dar à ela o direito de ter uma vida normal. Mas não era isso que Clarinha realmente queria. Desejava voltar para sua vida conturbada, viver onde quisesse, livre; quiçá poder participar do elenco, ser uma linda bailarina que graciosamente atravessar o perigo incalculável de uma corda bamba.

O garoto se sentia cada vez mais atraído por ela e sem perceber, já estava apaixonado em plenos quinze anos.



Até que, certo dia, um convite inesperado surgiu: Um circo havia se instalado na cidade. Escondidos, os dois conseguiram se esgueirar pelas laterais e entrar na grande tenda colorida, deparando-se então com inúmeros animais, roupas enfeitadas com paetês, lantejoulas, brocados, rendas...
Gumercindo viu um brilho diferente nos olhos da menina. Havia lá um fogo de desejo, ambição. Ela queria tudo aquilo da mesma forma que a Lua deseja o Sol. No entanto se viu triste, queria dar à ela a vida que desejava, mas isso não era possível.
Ela tinha família, uma casa, uma vida... e seus pais jamais retornariam a um circo.
Um livre toque o tirou do transe. A menina o puxava para andarem rapidamente. Sua intensa alegria o contagiava. Corriam como crianças entre vendedores, animais e a própria trupe.
Sem pensar, parou subitamente e a puxou, unindo seus lábios por um breve momento. Ao contrário do esperado, a menina não se assustou, não fugiu. Ansiava por aquilo também.
Ficaram com os rostos colados por alguns minutos. Sorriam muito, e ambos se dirigiam para a plateia. Seu plano já estava tramado.

Meses se passaram e Gumercindo conseguiu conquistar a confiança de seus sogros, e vivia sempre por lá. Um dia dia, pôs sua façanha em prática. Colocou um vidrinho de arsênico no molho de carne que estava sendo preparado na cozinha e levou sua amada para comemorar seu aniversário em um almoço no restaurante mais famoso da cidade. Retornando, ela se deparou como uma casa vazia, gélida. Bem na soleira da porta pode sentir que algo estava diferente. Gritou o nome da mãe algumas vezes e não obteve resposta. Gumercindo a observou entrar correndo pela porta. Não demorou muito até ouvir seu grito de pavor. Um belo sorriso apareceu em seu rosto, ela estava livre.
     Dias depois, ela o encontrou. Dizia que não tinha mais parentes, como ele previa, e que se juntaria a um circo que estava na cidade vizinha. Nada se comparava com a felicidade que ele sentia, nem mesmo o beijo, pois o considerava como um ato irracional e egoísta. Gostava de vê-la feliz e isso o dava vida. Vivia por ela e exclusivamente para ela.
     Despediram-se com um aceno de cabeça. Não conseguiram proferir uma palavra sequer. Ela se virou e foi de encontro ao destino. De repente uma mão a pegou pela cintura, e viu Gumercindo que a virava de encontro a ele. Seus corpos se encaixavam perfeitamente. Ele mantinha uma das mãos entrelaçadas em seu cabelo e a outra em suas costas, puxando-a cada vez mais para perto, como um desejo inimaginável. Ela por sua vez segurava as duas mãos em seu pescoço e desejava que aquele momento jamais acabasse. Ele fora seu primeiro amigo e namorado, e agora sua única família. Não queria abandoná-lo, mas sabia que se não fugisse acabaria em um orfanato. Ele largou seus lábios por um instante e depositou carinhosos beijos ao longo do pescoço, voltando à sua boca novamente. Pararam um momento, ofegantes. Olharam-se nos olhos e encostaram suas testas. Pouco tempo restava a eles. Fizeram uma promessa de amor eterno e juraram buscar ao outro, até mesmo após a morte. Despediram-se enfim, e foram de encontro ao futuro.

     Anos se passaram e ele pôs em prática o que prometera. Aos 23 anos e com apenas R$37,00 na carteira, entrou para um pequeno circo que estava de passagem na cidade. Começou como limpador de jaulas e foi ascendendo lentamente até conseguir o ofício de palhaço. A partir daí conseguiu migrar de circo em circo em busca de sua amada, se tornara conhecido entre as trupes pelo trabalho bem feito. Sabia que sua Clarinha estaria lá esperando por ele.
     Sua busca demorou quatro anos, e enfim, na Suécia, conseguiu encontrá-la. Mas sua satisfação durou pouco. Lá estava ela, sua amada, noiva de outro. Uma raiva o atingiu imensamente. Ela pertencia a ele, somente a ele. E ao contrário do que sempre imaginou, ela o tratava como um velho conhecido e nada mais. Era uma terrível traição, mas ele tiraria aquele ser indesejável da vida de todos.
     Passou a perceber seu alvo avidamente. E descobrindo um dia que ele se encontrava com suas amantes em hotéis mais simples, passou a andar armado com uma faca bem afiada.  Após um espetáculo, decidiu segui-lo. Ainda estava com seu traje de picadeiro, mas não se importava. Entrou no hotel e conseguiu arrombar a frágil porta com facilidade. Não conseguiu nem ao menos surpreendê-los, e os atingiu bem na jugular. Saiu com uma intensa felicidade. Conseguira livrar sua pequena de seres que atrapalhavam sua felicidade. O sangue escarlate escorria por sua roupa. Mal podia esperar para ver as reações de sua querida. Ela ficaria eternamente agradecida, acreditava.

      Ele conseguiu reconquistar o amor de Clara, e sem demora se casaram. Formavam o casal mais belo de todos e eram invejados por muitos. Em poucos meses, a menina dos olhos do circo já estava grávida. Gumercindo se sentia abençoado pela dádiva de Deus. Era o ápice de sua felicidade. 

     Começou a perceber um amor diferente da esposa. Ela se dedicava mais a criança do que a ele mesmo, preferia passar o tempo conversando com algo que nem sequer havia chegado ao mundo... Então algo passou por sua mente. Sua doce Clarinha estava se tornando presa novamente. Precisava libertá-la e sabia como! Em meio a seus remédios, injetava pequenas doses de antimônio. Aos poucos percebia a diferença. A vida estava se esvaindo dela... e do feto que a sugava.
       Deu um beijo de despedida em sua testa e escutou seu último suspiro. Ela agora estava realmente livre. Poderia fazer o que quisesse e eles ficariam juntos por toda a eternidade. Tomou seu uísque com uma grande dose de mercúrio. Deitou ao lado de Clara e esperou o efeito começar.

("Jéssica Stewart")