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sábado, 26 de julho de 2014

Apoteose de Ícaro - Parte 1

Tudo escuro e eu perdido nas sombras. Tateava paredes ásperas de pedra e perseguia o lodo e as minúsculas briófitas que insistiam em nascer na penumbra. O quarto negro não me era familiar, mesmo que, por ventura, persistia a sensação de que eu já estivera por ali.
O calor sufocava-me e o ar quente seco e seco incineravam meus pulmões abertos e despertos, sequestrando grande parte do oxigênio ao meu redor. Minha testa suava rios de gotas salgadas, e meus cabelos grossos lambidos de suor colavam-se a meu corpo e absorviam com eficiência seu calor.
Todo o meu dorso doía, e uma amnésia que roubara minhas memórias insistia em fazer-me fraco.
Frestas pela parede indicavam-me que o sol brilhava alto sobre o horizonte, e as constelações desarranjadas que elas formavam eram um tênue mapa astral que me divertia nos entremeios das estrelas difusas.
Corri os olhos de pupilas dilatadas, e pela primeira vez em alguns dias de estadia pude distinguir algumas formas geométricas a meu redor, possivelmente um móvel ou a própria porta.
Levantei-me debilmente e lambuzei os dedos em algo na parede de pedras, que me deixavam receoso do que poderia ver. Meus olhos começavam a namorar a escuridão latente, e eu já visava a quase imperceptível linha da porta amadeirada.
Cambaleei, e apesar do treinamento esparciata que recebera, fugiram-me as forças naquele momento. Por isso, tive de retornar à viscosidade que me saltou aos dedos na parede gelada.

Enfim, minutos se passaram junto às fluidas e alvas lembranças, difusas em minha mente, e pude alcançar minha possível salvação, tão perto de mim e tão longe de ser real.
Toquei na madeira áspera e segmentada, indicando que era uma porta de tábuas. Pressionei pregos metálicos que a envolviam rigorosamente, tornando-a tão estável quanto uma barra de ouro fundido. Coloquei-me a postos com certa destreza e apalpei um retângulo gélido, coberto por travas também metálicas. Estas proviam minha prisão, mesmo que nunca saberia eu o porquê de estar recluso ali de forma tão desumana.

Abruptamente, uma portinhola escancarou-se e rompeu com a escuridão que chegava a minha córnea, cegando-me com a luz tremulante das tochas acesas no exterior.
Um bigode escroto e deliberadamente perfeito, salpicado de fios brancos e de memórias alimentares interveio sobre a luz, postando-se entre a porta e a brilhante rajada, sombreando meu rosto cansado e recostando as pupilas por hora até retornarem ao normal.
Quis questionar os motivos reais de minha “estadia” naquele cubículo escuro, mas as poucas rugas do rosto sardento do grego de meia-idade me revelavam o descaso praticado por ele; então de pouco adiantavam reclamações.
A boca dentada abriu-se como um vórtice, sugando minhas palavras ao interior e cuspindo fonemas inicialmente inaudíveis, que foram aos poucos transmutados em frases, batendo em meus ouvidos e gerando uma sinfonia psicodélica.
-... Então, ele deseja vê-lo o mais rápido possível. – Pestanejei por alguns instantes. – Vamos?
Abriu a pesada porta de madeira e puxou-me ao exterior, cuspindo-me da prisão escura e deixando-me constrangido ao perceber minha nudez.
-Vais deixar-me ir assim? – Fiz sinal de reprovação.
O homem fitou-me, e rapidamente me entregou uma toga de algodão, meio suja, mas suficiente para esconder-me as vergonhas. Usei das dobras gregas para fazê-la adaptar-se ao meu corpo. O homem levantou-se de um rasgo na pedra e conduziu-me pelo corredor fino e fundo, de onde não conseguia ver o final.

Fui dirigido por espaços bem iluminados, alternando-se entre celas, e, depois de passar por portas escuras de madeira e salas mais escuras ainda, pude sentir o aroma do mundo exterior.
Outras aberturas na parede de pedra e eu estava fora da construção, dando as costas à prisão e de cara com a ágora principal da cidade movimentada. Ao longo da linha do horizonte, estendia-se o pátio de combates e academia filosófica, ambos cheios de gregos talhando a mente e exercitando o corpo; parcialmente semelhante às minhas atividades em Esparta, onde nos dedicávamos às artes físicas, com treinamentos especiais às zonas abdominais e aos outros músculos funcionais, afinal, éramos preparados constantemente para a guerra.
Apalpei minha barriga cansada de se exercitar e percorri os gomos se separavam as coxas do peitoral másculo, tentando deglutir o que fazia um espartano musculoso no templo da democracia pomposa de Atenas.

Pelas ruas de terra da polis, pessoas envoltas em togas de algodão encaravam-me como um apátrida, ou até mesmo um escravo de guerra, mas jurava por Ares, o deus da guerra, que nunca estivera antes em local tão estranho. Jamais vira a suntuosa acrópole no topo do monte, circundado por um panteão e pelo resto da cidade que por ventura respirava intelectualidade, algo que sinceramente por meu pai já bastava.
Um soldado forte e bem defendido por uma armadura de combate-Obviamente inferior à espartana e pesada, comprovada da postura curvada do homem- postou-se a meu lado, acompanhado de outro de porte físico bom, porém condenável para os padrões esparciatas, ajudou a conduzir-me para o outro lado da cidade.
Juntos, os dois serviam de escolta para um espartano, eu. Cidadão ativo e que injustamente fora levado por thetas que insistiam em se alistar ao capenga exército desenvolvido por fora da polis da guerra. Pobres atenienses.

Uma construção jônica, tombada cerca de dois graus à esquerda, foi me aparecendo à frente, vinte metros adiante, e reparei nas colunas marmóreas ao nível da rua. Pelas características arquitetônicas, poderia deduzir que se tratava do tribunal da “politika” ateniense, para o qual se julgavam deserções contra o próprio Clístenes, de onde hão de aplicar um código tão apetecido de crueldade que um prisioneiro comum talvez nunca saísse da prisão sobre as circunstâncias em que entrara.
Foi assim com meu pai, Dédalo. Ah! Aquele arquiteto dos deuses, enfurnado em suas pesquisas, que ficou encabeçado em um projeto ordenado pelo rei Minos, e que lhe empertigou de tal forma que fora taxado louco pelos atenienses eupátridas. A solução nem um pouco atraente foi colocá-lo naquele labirinto maldito, à mercê do próprio Minotauro, e de onde nunca mais saiu.
Agora, cá estava eu, molhado de suor e desperdiçando meu corpo definido para saciar gregos de nariz em pé e que zombavam incessantemente de minha masculinidade aflorada perante os cérebros torneados dentro daqueles corpos gordos definhados pelas ruas de pedras.
Abriu-se caminho por entre um grupo de garotas eufóricas com minha aparência, e fui conduzido ao interior do salão principal, com os pés sujos de areia e quentes, mudando abruptamente para um chão de pedra fria e lisa.
O homem que iria me julgar estendia-se por uma cadeira rígida e imponente, e um conselho de anciãos postou-se a seu lado para proceder com meu julgamento. (Apesar de eu nem ao menos saber como estava naquela situação).
Joguei o corpo ao lado e escorei-me em uma coluna fina, provavelmente onde amarravam os prisioneiros para julgá-los. Nada fizeram, entretanto, acerca de minhas mãos soltas. Em virtude disso, recostei-as no ar e esperei aqueles hipócritas decidirem meu futuro.

Após o julgamento, que curiosamente não fora proferido uma sentença audível, pegaram-me pelo pescoço e levaram-me ao centro da ágora, onde em praça pública, despiram-me e humilharam-me de todas as formas possíveis, onde dezenas de pessoas animadas reuniram-se para ver mais uma daquelas punições.
Cortaram meus lindos e grossos cabelos, deixando-me aparado como uma árvore após a poda. Rasparam a penugem da escassa barba em meu rosto, que insistia em nascer mesmo quando a retirava. Abriram sulcos, sem dó, onde deveria estar um maxilar curvilíneo, elegante. Retiraram-me a toga com violência, rasgando o algodão macio, deixando-me às ventas com o corpo nu para ser flagelado.
Neste ponto, olhei para duas garotas que cochichavam, aflitas, na multidão, e sorri maliciosamente, pois sabia que estavam gostando do que viam.
Todavia, fui surpreendido pelos mesmos que trouxeram-me até ali, e retiraram-me com tamanha truculência, proferindo palavras em um dialeto incompreensível, consumindo-se de prazer por açoitar-me com perversidade.

Jogaram-me num fosso escuro e fundo, que me traria uma dolorosa queda até um solo barrento e gelado, bastante mal iluminado. Eu sabia, por interpretar a condenação mal e porcamente, que poderia ter sido largado no labirinto que meu próprio pai construíra. O mesmo homem que agora jazia prostrado em um canto, tendo que conviver com o temor constante de ser assolado por uma das pragas do labirinto, ou até mesmo ser atacado pelo próprio bovino desesperador, o Minotauro.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Caso 127



     Andando pelas ruas deparei com uma situação interessante: uma jovem menina de 12 anos, aproximadamente, chorava desesperadamente em frente a um prédio. Prontamente fui ajuda-la.
     - O que foi? O que aconteceu?
     - Fui roubada! – respondeu ela em meio às lágrimas.
     - Roubada? O que levaram?
     - Meu coração! – E caiu no chão em desespero.
     Assustada, entendi logo do que se tratava.
     - Querida, qual é o seu nome? – Perguntei calmamente a fim de tranquiliza-la.
     - Ale... Alessandra – Disse entre soluços.
     - Vamos. Conte-me o que aconteceu querida.
     Levei-a para uma lanchonete próxima e comprei um pote sorvete para que ela acalmasse.
     Agradecida começou a falar:
     - Eu estava na festa da Maya e...
     - Maya? Quem é ela? – interrompi
     - Minha melhor amiga. – disse ela sem entusiasmo.
    - Ah. Quantos anos ela tem?
    - Não sei, mas acho que está terminando a faculdade.
   Estava alarmada. Procurei obter a maior quantidade de informações possíveis e sutilmente liguei meu gravador de voz.
     - Continue meu bem. – Encorajei com um sorriso.
     - E lá estava o Luiz, mas eu não entendi porque as pessoas chamavam ele de Fernando também...
     - E ele era da idade da Maya? – indaguei.
     - Sim, eu acho – respondeu confusa.
     - Conte-me mais, por favor.
     A menina se endireitou na cadeira, como se refletisse no que deveria contar ou omitir. Tive um pressentimento ruim, sabia que essa história não teria um final bom.
     - Ele é lindo. Um príncipe. Disse que me amava e que quando as pessoas se tornam mais velhas, Deus dá a elas o poder da visão. Ele disse que éramos almas gêmeas e que estávamos destinados a ficar juntos para sempre... – Rapidamente, a expressão do rosto dela alterou. Estava omitindo uma parte crucial. – Ele disse que eu era linda... que se casaria comigo, que morava aqui – apontou para o prédio – mas acho que eu sou burra demais... Deus me castigou.
     - Castigou? Ele fez alguma coisa com você, Alê? Posso te chamar assim?
     - Pode – hesitou – Ele me levou para um quarto para continuar a história e disse que teríamos que fazer um ritual para sermos abençoados por Deus... E foi aí onde eu fiz algo de errado – começou a chorar novamente.
     - Ritual?
     - É. Hm – ponderou – Ele me chamava de anjo enquanto beijava meu corpo todo. Tirou minhas roupas e...
     Levei-a para meu posto de trabalho, desesperada. A menina, confusa, não entendeu de início, mas eu já conhecia o procedimento. Era a terceira jovem que sofreu abuso em dois dias.

("Jéssica Stewart")

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O palhaço

Em uma cidade qualquer, de um país menos importante ainda, vivia Gumercindo. Como qualquer criança tímida de dez anos, possuía poucos amigos e vivia como uma sombra na vida de todos.
Um dia eis que surge Clarinha, uma linda menina que tinha acabado de se transferir para sua escola. Simpática, passava todo o seu tempo com ele, ignorando todos os outros alunos que estavam eufóricos para receber sua atenção. O pequeno Gumercindo se sentia aquecido com aquela luz que irradiava dela, e de repente já não se sentia mais uma sombra.
Com o passar do tempo, acabou descobrindo muitas coisas sobre a menina: Era nascida e criada em um circo, filha de um ex-mágico e de sua assistente, que mais tarde decidiram abandonar a vida de espetáculos para poder dar à ela o direito de ter uma vida normal. Mas não era isso que Clarinha realmente queria. Desejava voltar para sua vida conturbada, viver onde quisesse, livre; quiçá poder participar do elenco, ser uma linda bailarina que graciosamente atravessar o perigo incalculável de uma corda bamba.

O garoto se sentia cada vez mais atraído por ela e sem perceber, já estava apaixonado em plenos quinze anos.


quinta-feira, 17 de julho de 2014

Dama da noite

Algo naquele beco chamou-me a atenção. O calor que inundava a entrada era extraordinário, como se algo queimasse lá dentro. Logo, uma chama dourada captou minha silhueta, deixando ainda mais nítidas as sombras na parede, que dançavam um ritual satânico, desprendendo tamanha emoção.
            Um vulto enegrecido se desprendeu da parede e vinha em minha direção com longas garras. Soltei um grito de terror, e meu coração quase parou quando me tocou nos ombros e disse-me rasgando o silêncio:
            -Até que enfim eu lhe achei! Pensei que não o veria nunca mais. – As unhas vermelhas rasgaram minha dignidade com um toque quente e desesperador, que me trouxe na hora lembranças de um passado já esquecido. Não queria ter um daqueles loucos flashbacks, mas era inevitável. Ela tomou meus lábios em um beijo amargo e temeroso, faltando-me o ar. Era como se minha alma fosse sugada da carne pela boca, com certa ferocidade e rancor diabólico.
            Queria fazer com que ela parasse, mas já não era dono de minhas próprias vontades. Eu pertencia à ela.
            -Não vai querer mais? – Questionou-me quando me afastei metade envergonhado e metade eufórico. Queria mais, sempre mais.
            Ela começou a me conduzir à parede. Estava enfeitiçado pela loucura da paixão, com ela me pressionando fortemente, dizendo em meus ouvidos palavras sussurradas.
            -Venha, meu bem. Eu sei o que você quer. Sei também o que você precisa.
            Estava preso em seus olhos dourados. A parede cada vez mais perto e ela continuava a me puxar pela mão.
            -Pare com isso! – Tentei gritar, desesperado e afobado. Corri meus olhos pela rua atrás de mim, completamente vazia. – O que você quer de mim? – Perguntei, olhando em seus olhos e vendo sua alma por dentro, linda e cativante.
            -Você sabe o que eu quero meu bem. – Sussurrou ela em meus ouvidos. Deixei-me envolver. Ela pressionou-me contra a parede e deu um beijo quente com os lábios carnudos em meu pescoço. Começaram-se a eriçar os pelos de minha nuca enquanto ela passava as unhas provocantemente vermelhas em meu abdômen definido.
            Já não queria mais ir embora, e entreguei-me totalmente a ela. Girei-a, trocando de lugar, e ela ficou de costas para a parede de tijolos, gemendo.
            Mas, assim como ela surgiu em um ressalto, começou a dissolver-se em seu próprio prazer, que havia comungado com o meu, coisa que não podia
            -Não! – Gritei em desespero.
            Ela já não estava mais lá. Ouvi no silêncio da escuridão uma risada leve e satisfeita. Ela havia conseguido o que queria. Agora, EU a desejava.
            -O que faço para vê-la novamente? – Questionei, contando as palavras.
            -Nada. – Fui respondido com frieza, por fonemas obscuros que vieram diretamente do nada.
            E sumiu no breu daquele beco, deixando-me somente com a lembrança de seu perfume suave e de suar artimanhas para seduzir-me. Algo me fazia ter certeza de que ela voltaria, e que não tardaria a reaparecer. Ademais, meus sentidos à flor da pele despertavam instintos carnais que me faziam suspirar de desejo, como se uma aura secular pairasse sobre mim e continuasse a me provocar. Meu desejo era vê-la em minha cama quando chegasse em casa para poder apoderar-me daquele corpo.
            -Boa noite, meu bem! – A voz voltou por trás de minha nuca, e um aroma achocolatado invadiu minhas vias nasais.
            -Te espero em meu apartamento. – Disse baixinho, com tom malicioso no rosto, esperando que meu pedido fosse atendido.
            Esperei a voz do silêncio se expressar, com aquele toque felpudo em meu tímpano que o fazia vibrar de emoção, rompendo a tensão de minha escápula e derretendo meu coração.
            -Não posso sair desse beco. – Ela disse, encostando seu indicador em minha boca seca e ansiosa por algo mais. – Sou filha das sombras, e não posso abandoná-las. Queria muito poder provar mais disso aí. – Apontou para mim. Corei com as bochechas, que ardiam vermelhas como fogo.
            -Deixe-me então ficar com você. – Supliquei, desesperado.
            -Você sabe que é um caminho sem voltas, certo?
            -Não me importo. – Seus olhos se iluminaram no meio da escuridão, como dois faróis altos.
            -Chegue mais perto. – Ela ordenou de forma baixa e lenta, como um ronrono.
            -Sou todo seu. – Respondi, avançando em sua direção. Ela envolveu-me com suas garras até alcançar meus glúteos, com suas mãos delicadas se encaixando perfeitamente, e me puxando para si, sugando-me com a escuridão, que tomou conta de mim. Tudo mais ficou escuro, mas ainda podia sentir aquele perfume.
        
                                                                      ("Brianna Morgan, André Luiz e Jéssica Stewart")
                                                               





quinta-feira, 26 de junho de 2014

It's coming!

ATENÇÃO! Conhece este símbolo? NÃO? ENTÃO PREPARE-SE QUE ALGO NOVO ESTÁ EM CONSTRUÇÃO. ALGO QUE INTERFERE NO MUNDO E INTERFERE NAS HISTÓRIAS E NOS SONHOS. ALGO QUE SURPREENDERÁ ATÉ MESMO JÉSSICA STEWART. ESPERE E CONFIRA NO MINÚSCULAS MANIVELAS.


O irmão e o palhaço

O irmão e o palhaço
Ronald trabalhava como palhaço por anos, e já adquirira experiência suficiente para promover grandes eventos por conta própria. Naquele dia, ele organizara um show infantil com o intuito de angariar fundos para um projeto pessoal. Sua profissão era gratificante, pois lidar com crianças, para ele, era uma das melhores coisas do mundo.
Seus cabelos em tom escarlate, encaracolados como macarrão ao sugo, pendiam por uma peruca mal colocada naqueles fiosrealmente negros por debaixo do nylon vermelho. Com sua estatura alta e porte físico desejável, Ron, como era conhecido, sempre ostentava um sorriso incomum para os homens de sua idade. A propósito, ele não gostava de revelá-la a ninguém, mas estima-se que ele tenha no máximo vinte e cinco anos.
Nota-se claramente que ele gosta muito de praticar exercícios físicos, mas seu tônus muscular elogiável dá-se mais em vista de seu esforço com as crianças do que com uma academia em si. O trabalho que as pestinhas dão é fenomenal.
Após anos no emprego, ele já se mantinha sozinho no ramo e começara a preparar festas por si próprio. Juntava grande parte de sua renda para aquele projeto personalíssimo. Por tempos lutou por ele, e agora este estava prestes a se concretizar.
-Tio Ronald, você faz um cachorrinho para mim? – Questionava um menino de cinco anos com um chapéu de festa azul na cabeça. O moleton engordurado também estava com uma fenomenal marca de sorvete, com uma mancha roxa que provavelmente nunca mais sairia. – Tio Ronald?
-Ah... Cachorrinho? – Ron não se atentara para a pergunta. – Que cachorrinho?
-De balão. – O garoto sorriu.
-Ah.
Ronald enrolou a bexiga debilmente e devolveu-a ao garoto.
-Quê isso, tio? – O garoto parecia não estar satisfeito. – Eu pedi um cachorro! – Ele abriu a boca para chorar.
Aquele dia não estava sendo o melhor da vida de Ron, e seus sonhos estraçalhados e estourados como um balão o pressionavam a ponto de fazer algo improvável.
-Dê-me aqui este balão, menino. – O garoto viu seu mais precisoso bem ser suprimido de suas mãos. E, ignorando todo o resto das pessoas que estavam do outro lado do parque gramado, sequestrou o garoto. Tinha se cansado de vez daquele emprego, e, embora podia ser preso por aquilo, não parou muito para pensar nas consequências.
O menino babado e sujo de sorvete foi levado sorrateiramente para um furgão adornado com alguns adereços de palhaços. Um belo nariz vermelho ficava em cima do veículo, e indicava que o palhaço Ron estava chegando. A buzina do furgão também foi modificada.
Contudo, o homem estava cansado daquela vida de palhaço e queria que o resto do mundo explodisse. Antes, porém, aquele garoto iria sofrer.
Mas como?
Primeiramente, pegou-o e amordaçou-o com alguns balões vazios que ele mantinha em uma sacola, prendeu-o com o cadarço de seus enormes tênis e por fim enfiou quase que toda sua peruca na cabeça do garoto, que ficou mais parecido com um pequeno palhaço do que com um refém de verdade.
Chutou uma lata de refrigerantes que caíra da mão do garoto e sentou-se no banco. Apreensivo, girou a chave, com as mãos trêmulas, e ligou o carro. Arrancou cantando pneus enquanto alguns dos pais que acompanhavam os filhos corriam aturdidos rumo ao veículo, e, inclusive, dois deles desesperados pelo filho que fora roubado.
A polícia foi chamada e rapidamente perseguia o rapaz, que foi mais astuto e, com uma virada brusca, derrubou o nariz de cima do veículo, que se espatifou em cima do carro dos tiras. Eles foram obrigados a parar, e o meliante escapou ferozmente por entre uma rua estreita e sinuosa, bem no centro da cidade.
O labirinto urbano foi transpassado fielmente por alguém que conhecia toda Arcadia, na Califórnia, e o homem em fuga foi perdendo as contas do tempo que passara com o pé somente no acelerador.
Por fim, já as duas horas da tarde, três horas depois do incidente, parou em uma casa de campo, feita de madeira e decorada debilmente com algumas cabeças empalhadas de porcos e bois( por sinal, muito esquisitas) e desligou o carro de forma apressada, esquecendo o garoto lá dentro por algum tempo. Entrou e encontrou-se com seu irmão Maurice, fazendo sabe-se lá o que com uma garota em seu quarto. Resolveu pegar uma bebida bem gelada, que por fim acabou virando um whisky quente e ardente. Bebeu toda a dose em somente um gole, e a bebida desceu queimando sua garganta. Tirou um maço de um legítimo Marlboro, acendeu-o e pitou algumas vezes.
Maurice saiu do quarto praticamente nu, com a mulher de não mais de dezoito anos atrás, despreocupada em enrolar-se em algo para esconder suas vergonhas.
O irmão e a “acompanhante” se assustaram. Ele já estava acostumado com o corpo masculino, e então nem ligou de mostrar suas partes a Ronald. A garota se enfiou de volta no quarto, com uma batida de porta nem um pouco agradável.
-Ron, meu palhaço favorito. O que faz aqui? Pensei que tinha que trabalhar hoje.
-Desisti de tudo.
-Como assim de TUDO? – Maurice ficou aturdido e veio correndo tirar satisfações com o irmão. – Tudo o que?
-Tudo. Cansei. Manda embora essa...aquela...- ele não encontrava a palavra certa. – ah... mulher, embora.
-Está bom então. – O irmão parecia nervoso e raivoso, mais sabia que não poderia contrariar Ronald, seu irmão mais velho, então foi logo tratar de despedir-se de Katy.
-E guarde isto em seu lugar. – Apontou para as partes baixas. – Cansei-me de vê-las livres pelo ar.
O outro irmão ficou mais aliviado. Ronald sendo “Ronald, o palhaço”.

Após a saída de Katy, que na verdade era Monique Salém, uma prostituta, Ronald levou o irmão, já de cuecas e com um cigarro na boca(O vício era presente entre os dois) para conferir o “material” que Ron trouxera na parte de trás do carro amassado e sem o nariz de palhaço que ficava em cima do capô.
-Caramba, cara! O que é que você arrumou aí? Tá doido?
O garotinho olhava para os dois com olhos de ressaca.
-E aí? – Ronald olhou para o irmão. – Sugestões?
-Claro que não, cara! O que você acha que vou fazer com um garoto de dez anos amarradona parte de trás de um carro? Onde é que você estava com a cabeça?
-Pra falar a verdade, já perdi a cabeça a muito tempo. Sequestrei um garoto em uma festa infantil, fui perseguido pela polícia, atropelei o cachorro de uma madame e derrubei o nariz vermelho estúpido em cima do carro dos tiras, velho. Eu tô ferrado!
Ron olhou para o horizonte perdido no meio do nada e ficou por alguns segundos deslumbrando a estrada vazia.
-Cara? – Ronald se virou quando Maurice chamou-o com uma voz bastante rouca depois de anos de cigarro e drogas.
-Oi?
-Olha pra estrada.
E Ronald quase sujou as calças quando o batalhão de polícia de Arcadia parecia estar completamente vindo em sua direção. Cerca de dez viaturas e mais uns doze policiais em motocicletas.
-Cara, o que foi que você fez?
-Sequestrei aquele garoto ali. – Ron apondou para o menino, que não esboçou reação. Sua roupa estava bastante suja de um suor mesclado à poeira da estrada. – Simplesmente isso.
-Simplesmente isso? Cê pirou? – Maurice pegou as chaves do carro. – Vamos nos entregar e pagar pelo que você fez. – Olhou para si mesmo e repensou: - Acho que os tiras não vão querer explicações e vão me levar junto.
-Não tardou a perceber seu erro. Parabéns! Agora, - O palhaço buscou em seus pensamentos. – é... Entre aqui e vamos fugir!
O irmão entrou sem pestanejar.
O velho furgão rangeu os motores e cantou pneus antes de os dois irmãos ouvirem a sirene da polícia. É essencial ressaltar que, na verdade, o que se via dentro do carro era um menino pálido amarrado com balões, um palhaço ao volante e um bêbado praticamente pelado bebendo whisky e fumando pela janela, enquanto metia a cara para fora e saudava maliciosamente as mulheres por quem eles passavam.
-E agora? Para onde?
Ronald destraiu-se um pouco com a estrada e devaneou por alguns momentos.
-Sei lá. Já ouviu falar em **-se. Então, é para lá que vamos. Quer mesmo ir?
-Acho que não, mas tanto faz então.
-Vambora!
E o dia foi sumindo bem devagar, à medida que as cidades passavam em relâmpagos, como flashes, e algumas pequenas viaturas nem sequer paravam para reparar nos dois fugitivos emaranhados em uma situação perigosíssima.
A noite toda foi de muita estrada, e pela manhã Ronald ainda suspirava os efeitos do álcool e do cigarro, que daquela vez não fora de fumo.
-E aí, cara, o que você vai fazer? – Maurice acordara sobressaltado.
-Não enche. – Ronald virou a cara e deu mais um trago no cigarro.
-Nervosinho...
-O que foi? Tá achando bom não?
-Não é isso. É que eu quero saber o que vamos fazer em seguida. E tem também o lance do menino.
-Menino? Que menino? – Ron não se lembrava de muita coisa enquanto consumia drogas. Até que encontrou bem no fundo de sua mente a imagem do garoto que tinham sequestrado. – PUTZ!
O carro foi freado bruscamente até parar no acostamento de uma rodovia pouco movimentada no Texas.
-*lho, velho, *ta *rda, esquecemos a *rra do menino no banco de trás. Que *sta!
-Calma *rra! O bichinho ainda tá aí preso e só deve estar com uma *ta fome.
Os irmãos foram em direção ao fundo do veículo, abriram a porta do furgão acoplado ao carro e tiveram uma baita surpresa: O menininho bonitinho que Ronald tinha sequestrado, sujo de baba e sorvete, estava roxo, caído ao chão, e duro como uma pedra.
Contudo, ainda estava quente, por isso, ainda sob efeito de drogas, o irmão mais velho meteu logo a boca nos lábios pequenos do menino na esperança de ressuscitá-lo, como se faz com as pessoas com parada respiratória, mas o gosto de sangue e vômito que a boca do garoto lhe proporcionara o fez abandonar a proposta rapidamente.
-*lho, velho! Que *sta que a gente fez. * tomar no *, seu *zão, olha onde você me meteu! – Maurice tinha empurrado o irmão para longe com uma força excomungal. Ronald, bêbado e “noiado”,caiu com tudo em cima de uma pequena pedra que lhe deu um grande rasco em uma das mãos, e sua blusa escrota de palhaço ficou logo manchada de sangue.
-*rra, meu! Cê tá de brincadeira comigo, ou minha mão tá mesmo sangrando? – Ronald parecia não sentir dor alguma. Pegou o cigarro e pitou mais uma vez.
-Tá doido bicho, cê tá muito noiado, isso sim! A gente tem que dar o fora daqui agora. Tô vendo uma casa ali a uns dois quilômetros. Parece que não tem ninguém lá, a gente pode ir e ver se eu consigo alguma coisa. Bora!
Maurice assumiu o volante e acelerou tanto que o presunto atrás do carro chocou-se violentamente contra uma das paredes da caixa metálica que caracterizava o furgão. Um barulho oco foi ouvido, seguido de um vômito tremendamente absurdo que saíra da boca de Ronald e sujara a estrada de verde, dez vezes mais nojento que o slime da Nickelodeon.
-Seu filho da mãe, rouba uma pestinha e ainda suja meu carro! Isso não vai ficar assim mesmo!
Mas Ron nem deu ouvidos, e o irmão mais novo decidiu continuar o caminho mesmo assim, até que dois minutos depois, aos trancos e barrancos, já estavam naquela pequena casa no meio do nada. Com certeza estava abandonada a tempos, e seria o local ideal para descartar o bichinho sem que nunca mais o achassem.
O carro parou e Maurice desceu rapidamente, gritando:
-Corre seu malandro, venha, me ajude com esse trambolho!
Ronald ainda estava aturdido, contudo pegou o menino morto e amarrado e praticamente jogou-o ao chão, onde ele ficaria por mais algumas horas até que decidissem o que fazer.
-E aí? De novo...
-Cara, não sei o que fazer.
-Nem eu.
-Bebe um pouquinho então, isso resolve.
-Você tem um estoque infinito de whiskys aí nesse furgão? – Maurice parecia entrar no clima do irmão.
-O suficiente para nós dois agora.
-Me dá uma garrafa então.
-OK.
-Mas antes vamos fazer uma fogueira, porque aqui no deserto, à noite, é bem frio.
-É pra já.
E as pequenas labaredas foram subindo junto às estrelas do céu, assim como a Lua que brilhava tão forte quanto o fogo que consumia alguns velhos pedaços de madeira que antes eram a porta da casa.
***
-*uta *erda, cara!
-Bom dia para você também, Rice!
-Não, cara! Olha a *osta que a gente fez, velho! Tô com nojo de mim!
-O que? – A pergunta de Ronald soou quase retórica quando o mesmo percebeu a grotesca cena que tinham protagonizado.
Em cima da fogueira, o menino jazia cozido e comido aos pedaços, em uma carnificina geral e enlouquecedora, que amedrontou ferozmente os dois homens. Um pouco de sêmen também estava ao lado do garoto, indicando que a noite foi mais louca do que se pensava.
-Eu comi o garoto! – Ronald se debatia debilmente, como se aquela carne humana fosse se desfazer dentro de seu corpo e simplesmente sumir de sua vida. – Caraca, meu!
-E você acha isso bom? Cê tá mesmo doido!
-Não, eu não tô doido não, eu só gostei.
-COMO ASSIM?
-Eu gostei daquela carne. Achei suculenta.
-VAI SE *DER! Eu não tô tão doido assim não!
Os dois irmãos quase se atracaram ao lado do resto do corpo do menino, ainda quente sobre a fogueira em brasas.
-Prova!
-Eu não!
-Prova de novo!
-NÃO!
-Quer ver, é bom! – Ronald abaixou-se e pegou um pedaço dos dedos do menino e meteu-o na boca como se fosse uma bala. – Ainda está suculento.
-Seu doido!
-Doido, não, diferente!
-DOIDO!
-Somente prova mais um pedaço.
-Só unzinho?
-Só um.
-Tá bom.
Outro dedo foi arrancado e atravessado no ar vagarosamente, posteriormente entrando na boca.
-Bom?
Maurice pensou, como se estivesse a analisar aquilo que estava fazendo.
-Não é ruim.
-Falei?
E como zumbis que perseguem a comida ambulante, os dois irmãos terminaram o café da manhã, botaram mais madeira sobre os ossos, urinaram sobre a carcaça e foram embora, deixando o local o mais nojento possível.
***
-Como andas, mocinha? – Ronald ria do irmão, que estava pensativo e prostrado recostado à janela.
-Acho que não foi certo o que fizemos. Não é certo comermos pessoas.
-O certo é não comermos coelhos e lebres, coitados. Seres humanos temos muitos no globo.
-Não acho isso certo.
Ronald reprimiu-o fisicamente, e colocando-lhe a mão em um local indesejado, disse em alto e bom tom:
-Você vai comer o que eu mandar, e eu estou te ordenando comer carne humana. Aliás, a próxima pobre alma que encontrarmos por essa estrada.
-Eu não quero mais fazer isso.
A mão de Ronald apertava cada vez mais o membro de Maurice, que foi ficando bastante dolorido.
-Vai fazer isso agora?
-Não.
Apertou mais a mão.
-E agora?
-Ainda não.
Parecia que o sangue ali iria parar, ao passo que a cabeça do irmão mais novo começara uma mudança radical em virtude da literal pressão do irmão mais velho.
-E agora?
-Sim, tá bom, eu vou tentar.
-Conseguir.
-Sim.
-Sim?
-SIM!
-Assim que eu gosto. – Ronald olhou para o horizonte, e um posto de combustíveis se aproximava junto com um casebre malfeito. Um homem de aproximadamente trinta e dois anos fumava sentado em um tamburete de madeira de lei, com uma das mãos enfiadas nos bolsos e os olhos no horizonte que se extendia ao infinito. – Aquele ali. Alvo travado, localizado e preparado.
-Não faça isso, por favor... – Maurice ainda tentou salvar o pobre homem. – Ele tem a nossa idade quase.
-Então é melhor ainda, que aí poderemos imaginar o sabor aproximado que nós possuímos. – Ron tascou-lhe um tapa na nuca que quase o fez desmaiar. – Vá lá atrás e pegue o machado. Vamos parar por aqui e seguiremos a pé, para facilitar nosso lado.
Maurice calou-se e, enquanto o irmão encostava o carro no acostamento, ele abria a porta e descia do carro.
O furgão era silencioso quando necessário, mas a porta traseira não ajudava muito neste quesito. Ela rangeu tanto que o homem do posto virou-se ressabiado e levantou-se do banquinho, vindo em sua direção. Ronald rapidamente agarrou o machado pelo cabo vermelho e escondeu-se atrás da porta, mais tarde rodeando o veículo e parando exatamente a dois passos do texano.
-Precisam de ajuda? – O homem loiro e barbado questionou, com um cheiro de fumo que infelizmente contagiou Maurice.
-Por enquanto, um cigarro.
-John. – Estendeu-lhe a mão. Maurice ficou estupefato, mas decidiu cumprimentá-lo, na esperança de uma salvação.
-Maurice.
Ronald aproximava-se psicopaticamente por trás do homem e erguia o machado, que reluziu à luz do sol. O brilho refletiu-se no asfalto empoeirado e fez com que o homem do posto virasse subitamente e pegasse o palhaço assassino com a mão na prova do crime, apesar de não sacar diretamente do que se tratava.
Ron desferiu-lhe uma machadada, que o acertou bem no ombro e respingou sangue bem no rosto de Maurice.
-Rice, me dá uma ajudinha aqui. – O mais velho pedia ao mais novo cautela, para conservar a frescura da carne. – Vamos levá-lo ao posto.
O estômago de Maurice revirou-se, e o máximo que ele conseguiu fazer foi afastar-se e fumar.
-Eu te encontro lá no posto, pode ir. Vou pitar um bocado.
-Vê se não demora que eu hoje tenho um prato especial que eu fui criando enquanto dirigia. Afinal, as quase dezesseis horas que demoramos até aqui serviram para inspirar-me. Quando passamos pelas proximidades de El Paso, no México, percebi que poderíamos nos fixar por ali, mas abandonei a ideia, visto que a polícia deve estar atrás de nós. Até lá no posto! Vou estar cozinhando.
Maurice estava perplexo, e quando finalmente tomou consciência de si, já podia enxergar o irmão apontando para ele, na esperança de que fosse lá ajudar. Fez sinal com as mãos e pegou o Marlboro.
A fumaça entrou em seus pulmões e chegou até os alvéolos lentamente, com uma sensação viciante de prazer. Queria esquecer o resto do mundo, mas principalmente a encrenca em que havia se metido. Queria ser feliz, longe dali, mas não o poderia enquanto estivesse debaixo das asas do irmão que por sinal era quase como um abutre em busca de presas.
Ron assoviou bem alto, com a boca salivando.
-Vem, seu panaca! Não tenho o dia inteiro!
Maurice obedeceu-o como um cachorro obedece ao dono.
-Que foi, Ronald? O que é que você planeja? – Maurice o vira acender a fogueira característica, mas não vira o corpo do texano. – Desta vez será carne de verdade, pelo menos?
-Não. – Engasgou com saliva.
Rice foi acudí-lo com esperteza. Bateu em suas costas, iniciando uma manobra de desengasgo. Da forma mais nojenta possível, saíram de sua boca dois glóbulos oculares azuis que pertenciam ao homem assassinado, com toda a certeza.
-Seu *ta, comeu ele inteiro, não foi? Virou um cão selvagem, ansioso por carne humana.
-Rice, meu irmão. Que ingênuo! – Deu uma risada malévola. Pegou os glóbulos que havia cuspido e colocou-os para observar os do irmão. Maurice corou o ficou com o coração na mão. –Come.
Maurice pestanejou.
-Come.
Com um tapa sorrateiro, derrubou as bolinhas que o irmão segurava. Ron abaixou-se vagarosamente e capturou as esferas que rolavam.
-Come, ou...
-Ou o que?
-Ou... – Ronald não sabia o que falar. – Ou então você vai ver.
-Ver o que?
-O que eu vou fazer com você. – O palhaço estava ficando com raiva.
-Duvido.
-Não se brinca com palhaços, caro irmão. Aquele sorriso que estampamos é somente mais uma marca do sofrimento que trazemos no peito.
Maurice desferiu-lhe um golpe digno dos samurais japoneses e correu em direção ao furgão, sem ao menos olhar para trás, e deu a partida no automóvel, que de início, não queria pegar.
-Seu *zão! Volta aqui! – Ron gritava e lançava pedaços do homem esquartejado em direção ao furgão, manchando o caminho de vermelho escarlate. – Vamos comer uns hamburgueres.
Entretanto, o homem de cuecas não queria mais fazer parte daquela loucura, e pisou fundo no acelerador, deixando o demente de seu irmão mais velho gritando e pulando de raiva, com o corpo coberto do sangue e das tripas do texano.

Ademais, ele sabia que não encontraria mais o irmão por algumas décadas.


Maurice reorganizou sua vida e, curiosamente, montou uma lanchonete (com carne bovina) que ele resolveu denominar “O Rei do Hambúrguer”, que fez muito sucesso em todos os Estados Unidos.
Os negócios cresciam, e as viagens se equacionavam em progressão aritmética, ao passo que os lucros se masterizavam e renderizavam suas campanhas fenomenais de marketing. E foi em uma dessas viagens que ele passou por uma situação que mudaria de vez sua vida.
-Bom dia, senhor. Suco, refrigerante, champanhe? – A aeromoça, de nome Mariana, trajava um elegante corpete vermelho e azul, salpicado de estrelas. Eles voavam na American Airlines, e o senhor Maurice Simons, desfrutava das viagens na classe A.
-Champanhe. – Ele pegou a taça e agradeceu.
A loira que o atendia se despediu e continuou com o carrinho.

Ao chegar em Los Angeles para participar da inauguração de mais uma filial de seu empreendimento, topou de cara com um palhaço que na hora o fez lembrar de Ronald.
-Com licensa, seu nome?
-Mark Anthuerpia.
Não era ele.
-Bom trabalho! – Maurice continuou seu caminho até a inauguração.

A festa foi excelente, com vendas superando o esperado. Já na volta para o aeroporto, com o tempo corrido, reparou em uma nova lanchonete que inaugurara no mesmo dia.
O slogan colorido e chamativo era contagiante, tanto que o fez parar e entrar.
Por dentro, a loja era mais estérica e ilusionista: Diversas garçonetes deslizavam graciosamente em cima de patins, que reduziam o tempo de entrega e ainda divertiam os frequentadores. Era, sem dúvidas, um empreendimento que faria sucesso.
Em um anúncio ao lado do caixa, vários brinquedos estavam em exposição, perto de um cartaz que oferecia os brinquedos junto ao hambúrguer com feições infantis. E, surpreendentemente, um palhaço divertido ficava por ali, encantando os clientes com mágicas e outros truques, além de certas piadas bobas.
Maurice aproximou-se do palhaço com atenção, e estendeu-lhe a mão amigavelmente.
-Com licensa? – Simons parecia confuso. Era ou não Ronald?
O palhaço respondeu da maneira mais idiota possível, sem sair so personagem e estendendo também as mãos, em um cumprimento suficientemente exagerado.
-Bom dia! – O sorriso vermelho e branco estampava felicidade. – O que você vai querer para comer?
-Nada. – Maurice tentava reparar no rosto por detrás da maquiagem. - “Ele certamente havia mudado muito com o tempo, assim como eu.”, pensou.
-Quem sabe um hambúrguer especial? – O palhaço era macabro. Maurice entendeu ali naquele exato momento o porquê daquelas pessoas que choram quando veem um. – Ou então nossa costela exclusiva?
-Não. Obrigado. Quero apensas saber o seu nome.
-Meu nome, pequenino, é Ronald.
Era ele. O irmão diabólico que ele abandonara anos atrás. Aqueles habúrgueres especiais eram na verdade feitos de carne humana.
“Espero que não me reconheça”, quase orou para Deus.
-Espera, eu te conheço? – O palhaço tocou em seu braço.
Maurice simplesmente correu.

Dois dias depois e não mais sinal do palhaço diabólico além das propagandas que inundavam a TV. As crianças adoravam o palhaço vermelho e amarelo. Maurice se preparava para dormir, em um hotel em Nova York, algo simples e compacto, sem muito luxo.
A luz tremulou por alguns instantes e se apagou.
Um vulto dançou na escuridão.
Ao voltar a energia, duas mãos envoltas em luvas brancas estavam no rosto de Maurice, prestes a sufocá-lo. Escondiam a peruca vermelha e a roupa amarela com listras carmim.

E o palhaço demoníaco sufocava-no com demência, sacudindo a presa e exclamando com satisfação para o irmão ouvir pela última vez:
-Amo muito tudo isso.