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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A garota com apenas um olho - 4

Loucura
Marie chorou tanto naquela noite como nunca. Era sua pureza que se perdia ali, certo, mas o que estava em jogo entre os homens era quem era o mais viril e forte, quem conseguia manter a jovem submissa e principalmente qual deles a maltratava mais. Por fim, ela não aguentou mais, e depois de muito chorar resolveu tentar morder os homens, que agora afrouxavam um pouco as mãos. Certo que todos estavam cansados, porém a jovem estava decerto muito mais. Ela tentara resistir durante todo o tempo, mas a força de dois homens era muito superior a de uma mulher sozinha.
Aquilo doía muito, mas as feridas físicas não eram nem de perto superiores às feridas morais. Marie viu-se tratada como um animal, viu sua decência ser escancarada na cara daqueles dois homens, e o pior: Um deles era o marido dela.Como ele pode ter feito aquilo, e principalmente, por quê? Marie simplesmente não conseguia entender tal crueldade.
Ao final do ato, os dois homens se limparam, vestiram-se e saíram contentes e tagarelantes daquele local macabro. Marie ficou ali, ensanguentada, soada e toda suja, fora as poças de lágrimas no travesseiro. Tudo nela doía.
Somente o que ela podia fazer era tentar pedir ajuda. Rapidamente, lavou-se em uma bacia de banho que encontrara próxima ao toalete e foi de encontro a sua amiga Pauline, que ela deduzira ser o quarto dela, pois foi onde a mulher entrou pela última vez.
Contudo, ao abrir a porta do quarto, uma surpresa também tenebrosa: Pauline encontrava-se amarrada com fortes cordas na cama de casal e tinha a boca atada com um lenço. Os olhos da garota também haviam sido tampados com uma venda. A posição em que ela se encontrava era vergonhosa, e havia um homem nu na cama. Marie conseguiu dessa vez gritar horrorizada, e o homem rapidamente saiu de cima da mulher,pegou seu sobretudo, vestiu-o e saiu em disparada, virando à esquerda para sair ao salão onde as duas haviam tomado a sopa.
Felizmente Pauline havia sido salva daquela barbaridade por Marie. Infelizmente, Marie voltou a chorar lembrando-se do que acontecera com ela e pouco pode fazer para consolar Pauline. A jovem Marie ajudou a triste Pauline a se limpar, se vestir e elas cederam-se ombros amigos. As moças choraram incessantemente por longos trinta minutos, depois, desabafaram tudo o que estava engasgado em suas gargantas.
Pauline ficou estarrecida com o que acontecera com Marie, principalmente pelo fato de que um dos homens era marido dela, e ficou agradecida por Marie tê-la salvo. Isso seria uma dívida muito difícil de pagar, mas a moça prometeu à Marie que a ajudaria de qualquer forma.
Mas antes as duas necessitavam sair dali para evitar que algo pior acontecesse.
Marie voltou à seu quarto correndo e combinou de encontrar com Pauline no corredor em dez minutos, porém ao chegar lá ela encontrou-o trancado. Desesperou-se. A moça correu o mais rápido que podia para encontrar com sua amiga e saírem daquele local o quanto antes. Ao dobrar uma curva que dava acesso ao corredor da estalagem, Marie encontrou com a dona “generosa” do local, que tinha Pauline presa pelas mãos por um homem forte e de aparência estranha. Marie instintivamente atacou-o antes que ele a prendesse. O homem tentou bloqueá-la, contudo o máximo que pode fazer foi barrar a jovem naquele ataque de fúria. A moça dava chutes no ar e já se preparava para utilizar de toda a sua força quando que seu instinto de presa a fez dar um poderoso chute no meio das pernas do homem. O mesmo gritou de dor e soltou na hora Pauline. As duas jovens conseguiram derrubar a dona da estalagem e correram muito, porém antes tiveram que passar pelo salão principal do lugar para enfim fugir.
Lá, encontraram Calvin e Charles, os dois covardes que haviam violentado Marie, conversando satisfeitos com o terceiro homem que tentara violentar Pauline. As garotas bateram em retirara quando viram que Calvin e Charles se levantaram da mesa, junto com mais dois homens e vieram de encontro as duas moças. As mesmas soltaram gritos de espanto e trataram de correr.
Os quatro homens seguiram as moças até elas alcançarem a avenida principal. Chegando lá, três deles, incluindo Charles, desapareceram nas sombras e deixaram Calvin sozinho para fazer o que quisesse com as duas. Marie tentou chamar por socorro, mas naqueles tempos e àquela hora da madrugada, ninguém exceto os três estava na rua.
Calvin parecia ter a situação sob controle durante todo o tempo, e seguiu lentamente ao encontro de Marie e Pauline. As jovens tentaram correr, atravessaram as quatro faixas da avenida apressadas e pularam violentamente a mureta que separava o tráfego nos dois sentidos, porém se viram encurraladas em um beco estreito e escuro, cercadas por Calvin. Nesse momento, eis que reaparece Charles para aproveitar-se mais um pouco.
            -Escolhes quem Charles? Disse Calvin – Eu me satisfaço com qualquer uma das duas. Marie seria minha indicada. É muito boa para ser verdade!
Os dois homens riram.
Marie e Pauline começaram a chorar.
-Já sei, Calvin. Deixarei a da direita para você e ficarei com a da esquerda, fechado? Perguntou Charles,já abaixando as calças.
Ele havia escolhido Pauline.
-Ótimo, melhor assim. Marie, meu amor, esta noite você é novamente toda minha! Riu desdenhosamente – Pronta?
Marie gritou muito. Pauline gritou também.
Seus gritos vieram a acordar a vizinhança, e cerca de cinco pessoas chegaram das janelas para conferir o que acontecia naquele beco. Porém nenhuma delas ousou intervir no fato.
Rapidamente Calvin abaixou as calças e retirou as roupas íntimas. Charles já o havia feito a tempos. Agora,os dois homens nus avançavam para as moças e tentariam novamente retirar-lhes mais um pouco da dignidade.
Contudo, quase no momento em que Calvin encostou em Marie, uma voz masculina falou alto e ordenou:
-Tirem as mãos delas, seus covardes, ou serei obrigado a matar vocês dois sem pestanejar – e completou – Também cubram suas vergonhas, que não sou obrigado a ver esses seus membros nus e vergonhosos. Deveriam esconder os seus rostos para que não sejam taxados de estupradores e linchados aqui mesmo. Eu serei obrigado a levá-los para a delegacia, porque com a raiva que estou poderia esmagar seus miolos aqui mesmo, seus covardes.
Os dois homens começaram a vestir suas roupas, ainda virado de costas para o homem que salvara as garotas. Marie e Pauline estavam com os vestidos levantados, e trataram de se arrumar para esconder suas partes íntimas. Mais pessoas agora chegavam ao beco atraídas pelo barulho da confusão e um pequeno tumulto começou a se formar.

***

De repente, do meio da multidão saiu um tiro abafado e estrondoso que atingiu em cheio o peito de Charles, e o mesmo caiu morto e seminu no chão. As pessoas desesperaram-se e cada uma correu para o lado que estava mais fácil, imediatamente entrando em suas casas e trancando as portas.
Agora, o sangue do homem morto jorrava da perfuração e formava uma bela poça aos pés das moças, que estavam em estado de choque depois daquilo tudo. Marie chorava muito e Pauline tinha ficado paralisada e sem ação depois daquilo tudo. Ela não reagiu muito bem ao quase estupro da primeira vez e agora se sentia perseguida por tudo e por todos. Ela não conseguira se vestir e muito menos esboçou alguma reação com a cena que podia claramente ver aos seus pés. Ela simplesmente começou a chorar e abaixou-se para segurar as mãos de Charles.
Marie ficou impressionada com a reação da amiga, porque o homem que a poucos minutos a tentava violentar agora era acalentado pela mesma. Isso era realmente muito estranho. Tão estranho que Marie resolveu perguntar:
-Pauline, explique-me por que você está agindo assim. Esse homem tentou violentar-te, mas você chora por vê-lo morto! Isso é loucura!
-Certamente que não, querida amiga. Respondeu Pauline aos prantos. Quando se ama alguém muito forte como eu o amei, não queremos perdê-lo por nada nesse mundo.
Marie questionou, aturdida:
-Mas você o amava?
E Pauline respondeu, sentida:
-Como não podia amar? Ele era o meu marido!
Até Calvin, já preso por dois homens, espantou-se. Uma interjeição de surpresa criou-se entre os poucos moradores que voltaram para presenciar o fato e um estrondoso “oh!” foi ouvido.


Pauline estava chorando rios de lágrimas quando Marie a consolou, dizendo:
-Amiga, agora não podemos fazer nada por ele. Infelizmente é o seu fim.
Ele se foi. Agora está em um outro lugar, melhor do que o nosso, eu garanto.
            -Claro, Marie. A dor de uma perda é pior do que a dor que ele te fez e tentou fazer comigo. Deixe-me chorar um pouco mais.
            Marie então saiu aturdida daquela cena e deu de caras com Calvin, que estava reclamando da força com que le prendiam nas mãos. Por fim, ela chegou bem perto de seu rosto formoso e muito bonito. Resistiu muito a dar-lhe um beijo, pois a raiva que sentia era muito maior.
            O homem ficou confiante de que Marie esquecera o estupro que ele tinha cometido. Achou que ela ia beijar-lhe e mandar soltá-lo. Sorriu um sorriso estonteante.
            Marie estava agora a menos de cinco centímetros de sua boca, e abriu os lábios para dar-lhe um beijo romântico. Mesmo preso, o homem inclinou-se para a frente e também preparou-se para beijar-la.
            -Querida, desculpas-me?
            -Claro amor. Mas não fale mais nada. Apenas me beije.
            E os dois esticaram os lábios, que se encontraram por apenas um segundo, antes de Marie abocanhar a carne da boca de Calvin. O homem gritou muito, e a mulher, com a boca também cheia de sangue, ria alto.
            As atenções se voltaram à ela. Aquela mulher havia enlouquecido. Ela mastigava os pedaços dos lábios de Calvin que conseguira arrancar, em uma cena certamente muito horripilante.
            O homem gemia de dor, e o sangue que jorrava de seus lábios era tão intenso que ele logo ficou tonto e caiu ao chão.
            -Chamem socorro, por favor, ou o homem morrerá aqui mesmo!
            -Deixem-no morrer! Ele merece! Disse Marie, que acabara de comer aquela carne dos lábios de Calvin – Ele me violentou. Merece morrer! Querem que eu termine o trabalho? Ficaria satisfeita!
            Dois homens correram e seguraram Marie pelas costas, tentando impedir que algo pior acontecesse. Contudo, esqueceram-se de tampar a boca da mulher e acabaram sendo mordidos também.
            Marie não era mais a mesma.
            Nos rostos de quem assistia àquela cena, viam-se expressões do mais profundo espanto e medo. Espantadas com a cena, as pessoas começaram a ficar indignadas e queriam matar Marie ali mesmo, porém Pauline interveio pela amiga a abraçou-a com muito carinho.
            A mulher sossegou um pouco, e foi-lhe chamado um manicômio para interná-la. Primeiro chegou a ambulância para levar Calvin, que ainda estava desacordado, mas ela acabou levando também os dois homens que foram mordidos por Marie.

            Poucos minutos depois de a ambulância ter chegado, o carro do manicômio chegou com dois enfermeiros. Junto dele, um carro de uma funerária que viera levar o corpo do homem morto. Chegaram ainda duas viaturas policiais e mais uma com peritos criminais para analisar as diversas causas do crime que havia sido cometido.