Páginas

Pesquisar este blog

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Querido "amigo"

Sinto-me pequena, inútil.
O mundo recai sobre mim
E seu peso a me sufocar.

Sinto o mundo
gigante, vazio
agir sobre mim.

Sinto cheiros, sabores e medos
desejos mal feitos.
Quando enfim terei um fim?

Sorrisos amarelos.
Frios abraços.
Olhares vazios.
Corações amargos.

Não adianta gente que não se importa,
cujo coração logo se desbota.
Para que tanta maestria
em coisas vãs, tuas quinquilharias?

A mesquinhez humana ainda não atingiu seu ápice?
Ora, some-te covarde!
Antes que tua áurea em putrefação
estrague de vez a minha arte.

Deixe-me sozinha,
bem longe do teu clamor.
Os poucos que levarei comigo,
ah, esses sim,
receberão tudo o que poderei dar.
Espero assim poder caminhar,
Longe de todo mal que fazes
à eles, à nós, à vós.

Não te cansas fazer-me pequena?
É a minha alma que envenenas.
Deixarei-te em teu mundo,
esse em que vivemos, assim, obscuro.

Encontrarei o refúgio que preciso
em um simples abraço amigo,
bem longe daquilo que me faz sofrer.


("Jéssica Stewart")

domingo, 4 de janeiro de 2015

Dulce



A mulher aportou na sala secreta, escura e tenebrosa. Apenas uma lanterna de LED, disposta sobre uma mesa alta, emanando uma luz fria, composta de fachos descontínuos que obrigavam qualquer pupila a dilatar-se ao máximo. Pairava no ar um cheiro de tabaco, pungente e fustigante; alguém fumava no recinto. A fonte de luz, recostada em uma mesa e com o foco voltado para cima, lambia o forro amadeirado, revelando nada mais além de partículas de poeira e fumaça, dançando no ar uma atabalhoada tarantela.
Um rosto masculino emergiu da escuridão e fez saltar o coração da senhorita.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Feliz 2015!

"A felicidade é a soma das pequenas felicidades. Li esta frase em um outdoor em Paris e soube,  naquele momento, que meu conceito de felicidade tinha acabado de mudar. (...)ali, vendo aquele outdoor estrategicamente colocado no meio do meu caminho,(...)tive certeza que a felicidade, ao contrário do que nos ensinam em contos de fadas e os filmes de Hollywood, não é um estado mágico e duradouro. 
Na vida real, o que existe é uma felicidade homeopática, distribuída em um conta-gotas. (...)
[...]
Como tantos já disseram tantas vezes, aproveitemos o momento. E quem for ruim de contas recorra à calculadora para ir somando as pequenas felicidades. Podem até dizer que nos falta ambição, que essa soma de pequenas alegrias é uma operação matemática muito modesta para os nossos tempos. Que digam. Melhor ser minimamente feliz várias vezes por dia do que viver eternamente em compasso de espera."

Leila Ferreira, em Viver não dói

Feliz ano novo a todos! Um 2015 repleto de sucesso e alegria, pois a vida é muito curta para ser desperdiçada com tristezas e rancor. Que venha um ano novo de paz e repleto de pequenas felicidades!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Por Amor. - PARTE 2


-Alô?
 -Amanda?
 -Sim, quem é?
 -O Bruno - respirou fundo.
 -O que tem ele? - A voz do outro lado da linha parecia impaciente.
 -Ele está morto. - Houve um prolongado instante de silêncio de ambos lados da linha.
 -Isso é um trote, certo? - Vanessa não sabia o que responder, olhando fixamente com os olhos arregalados ao primo. Pietro esticou a mão revirando os olhos de raiva e pegou o telefone.
 -É o seguinte Amanda, o Bruno se suicidou.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Táxi

-Táxi? – Agitou as mãos.
Um veículo sedan branco parou a sua frente. O motorista espichou o corpo volumoso como se estivesse atado ao carro. Na verdade, ele e o veículo eram um só depois do tempo que haviam passado juntos. Parecia que as pregas dele eram as mesmas das do banco de couro rasgado.
O homem entrou e sentou-se no banco de trás. Retirou o chapéu negro, repousou as mãos sobre o colo; aspergiu no ar seu aroma de cigarro barato.
-Pra onde vai?

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Escarlate

E lá foi ela. Um meio sorriso trêmulo armado na face pálida. Moldada em ossos. Mas o sorrir era metal e no olhar frio tinha cravado cristal. Na alma, doçura. Na carne, secura. Despida das vestes enegrecidas. Mortalhas sofridas. Trajada na lama da escória. Esboçada pela transgressão do apetite voraz social. Desnuda de moral, filosofia pagã, uma ex-moça sã. La foi ela, a rainha escarlate, a tal do embate. Mergulhar de cabeça no mar de sangue do desempate. Não tem mais amante, perdeu pro quebrante. Não quis diamante, se tornou a errante. E lá foi ela. Com expressão pálida. E uma desenvoltura inválida. Pra cadeira da morte, pra derrocada da sorte.
Tudo isso sofreu ela, por na mais tenra idade... Divergir da velha balela.

Por amor.

                                                                                                                "Há um buraco na minha alma. Eu posso sentir...Há um vazio no meu coraçãoVocê pode supri-lo?"






  Foi a última coisa que ele escreveu antes de se matar. Ninguém conseguia entender o porquê de um jovem de apenas 23 anos querer dar fim a própria vida. Os familiares choravam incontroláveis, principalmente seu irmão.


 -Temos que avisar a Amanda. Decerto esse texto era sobre ela.- Todos pararam por um segundo e o olharam.


 -Que Amanda?- Não reconheciam o nome, até mesmo porque não conheciam a moça.


 -Ela era namorada dele... pobrezinho - soluçou - meu querido irmão! - Uma das primas que ali estavam revirou os olhos e bufou.
 -Agora ele é querido...- Cochichou alto o suficiente para que ele pudesse ouvi-la. Agarrou-a pelo braço, tão forte que deixou as marcas de seus dedos na pele carmim.
 -Cala essa sua boca, vadia! - Soltou-a e retornou a chorar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Até onde você iria ''Por Amor''?

Esse novo conto de Brianna Morgan, cheio de mistérios e banhado a sangue, fará você questionar os limites de um amor doentio.

''-Eu preciso saber por que?
-Fiz por amor...''

domingo, 23 de novembro de 2014

Vozes perdidas na neve



Seus lábios secos, gelados de frio, racharam-se a pouco, deixando escorrer um sangue ralo por falta de sais minerais. 
A pele branca clamava por sol, mas as semanas escondido não lhe reservavam tempo para um passeio matinal ou para um piquenique ao ar livre. As lágrimas já cansadas de escorrer pelo rosto torturado escondiam-se no fundo de sua alma, com pavor do que poderia acontecer em seguida.

sábado, 1 de novembro de 2014

O assassino da catedral - Parte FINAL





Abraham Markus, o curioso frade franciscano e que entrara na paróquia a cerca de cinco anos, mantinha sempre uma expressão misteriosa no rosto. Era um paradoxo: Adorava despir-se das batinas e usar roupas comuns, principalmente seus alegres tênis de corrida com um shorts de caminhada à altura do joelho. Enquanto isso mantinha uma vida sombria e aparentemente em total imersão na religião. Sendo assim, fizera poucas amizades na cidade, e aproveitava seu passeio matinal para saudá-los e tomar o café com eles.
Ligou para Hanz, que provavelmente o aguardava ainda para o desjejum matinal, e desculpou-se pelo atraso que cometia naquele dia.
-Não, padre, não demorarei. – A impressão era de que todos da paróquia se autoproclamavam padres. Apesar de alguns deles serem superiores dos outros.
-Certifique-se de que estará aqui às onze da manhã para começarmos os preparativos para a missa dominical. – Cônego Blaun parecia conversar com alguém do outro lado da linha. Abraham aportou em frente a uma porta singela e velha, parou, e prestou atenção à conversa.
Apesar disso, não pode ouvir muito do que se dizia, apenas reconhecer uma segunda voz masculina. Seria mais um dos padres?

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O assassino da catedral - Parte 3









Abriu as portas de seu quarto, estupefato. “Onde raios estariam as roupas limpas? Será que as deixei na dispensa?” Arqueou rapidamente e, dando meia-volta, bateu de cara no rosto fechado do detetive Isaac.




-O que fazes aqui, padre? – Questionou o investigador, dobrando as mãos como uma mãe o faz com as suas quando seus filhos lhe aprontam travessuras.
-Isaac! – Exclamou aturdido, com o coração lhe saltando do peito. – Eu vim em busca de roupas limpas. – Teve de contar a verdade, visto que fora pego com as mãos em uma de suas cuecas boxer novinhas que o frei trouxera da cidade recentemente. – Estava me dirigindo ao banho.
-Então terá tempo de me contar algumas coisas enquanto se limpa com água quente. Dizem que o vapor é um ótimo condutor elétrico e melhora os impulsos cerebrais. – Viu que o religioso o observava com certo desdém, apesar de um sorriso malvado que parecia querer simular o contrário.
-Pois bem. Se quiser me acompanhar então... – E saiu dissimulado, apressado e atordoado, com a cueca balançando na mão e esperando que o detetive não notasse os respingos de sangue em sua batina negra, já coagulados e craquelados perante o frio que se encerrava lá fora.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O assassino da catedral - Parte 2





Na mesma hora, em um hotel não muito longe da catedral e próximo ao centro da cidade de Łomża, acabara de acordar um homem novo, bonito e cativante. Lavou as mãos na pia das estalagens simples e passou a mão pelo sobretudo negro, que usava por cima das vestes também da mesma cor. Recebeu no quarto um singelo café da manhã, contemplando o sol que nascia tímido no horizonte.
-Obrigado, senhor, volte sempre. – O recepcionista pegou nas mãos que um dia estiveram sujas.
-Fique com Deus. – O homem de negro saiu, deixando um ar místico no lugar. Andava tranquilamente por entre as ruas de pedra do centro histórico da cidade.
Naquele dia, todavia, o jovem não entrou em lugar nenhum. Seguiu caminhando e rodeou a igreja, esquivando-se de alguns policiais que analisavam a catedral, indo diretamente à casa paroquial, decidido. Contornou o perímetro de um pátio sossegado atrás da construção, passando a mão nos bancos cobertos de neve, limpando a sujeira por entre os dedos ásperos.
Um daqueles policiais tocou-lhe no ombro com cordialidade.
-Padre! O senhor não pode prosseguir, infelizmente. – Seu coração pulou de susto.
-Céus, você realmente me assustou. – Riu, desconfiado. – O que aconteceu por aqui? – Olhou para o horizonte e para o resto das pessoas que estavam à frente da catedral.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Tudo azul

Seus olhos me seduziam. Estava eu estático, ela também. Ambos nos fitando como rivais; bichos do jeito que éramos. Azuis como sempre foram estavam suas íris, na cor azul-piscina, radiantes e imersas em profundo mistério. A pupila sempre dilatadíssima antes me preocupara, mas agora, e somente agora, pude ver que elas eram assim mesmo. Metamorfose? O fato é que seus olhos me seduziam.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

E assim se faz fim

Colocou o casaco, marrom de botões pretos, uma gola levantada pra cima, as mangas sutilmente arrebitadas e os bolsos devidamente fechados a velcro. Logo em seguida vieram as calças, pretas e de corte singelo, um cinto branco a mantém longe de se deixar levar pela gravidade e rabiscar um enorme vexame na vida do moço. Os sapatos, marrons também, mas de couro e sola escura que estralam ao beijar o solo. Os cabelos negros são penteados para trás e o gel lhe dá uma aparência molhada e engravatada de sempre.

domingo, 28 de setembro de 2014

Devaneio


Vi-me correndo em uma campina graciosa, quiçá encantada. As flores, de várias espécies e cores diversificadas cobriam todo o chão, exalando um perfume doce. Borboletas cobriam o ar à medida que meus pés, descalços, tocavam o chão. Simpáticas, voavam ao meu redor, roçando em minha pele e provocando uma gostosa sensação. Abri meus braços e me virei para o céu, agradecendo a Deus pelo momento maravilhoso que estava me proporcionando. Os raios de sol tocaram meu rosto, irradiando seu calor e me enchendo de alegria.
Um belo beija-flor se aproximou, batendo suas asas rapidamente e se escondendo em meus cabelos, fazendo cócegas. Estendi a palma da mão para acariciá-lo e algo aconteceu.
O céu, antes limpo e azul, tornou-se escuro e com nuvens de um cinza muito macabro. As flores jaziam mortas no chão e em seus lugares surgiram outras, cadáveres, e plantas carnívoras. O perfume agridoce existia apenas na vaga lembrança, que se esvaía. As borboletas se transformaram em corvos, que esganiçavam estridentemente, perturbando a paz que outrora existira.
A escuridão me engoliu.
O pequeno pássaro que me trouxera tanta felicidade mergulhou rapidamente no ar e usou seu bico afiado para penetrar em meu pé, causando um machucado tenebroso. O sangue jorrou de forma inesperada. O pequeno buraco causado pelo pássaro começou a se expandir, deixar parte do meu esqueleto à mostra. Logo percebi que a ferida estava enfestada de minúsculas larvas que decompunham minha carne.
Caí no chão.
Tentei gritar por socorro, mas o ar estava rarefeito. Meus pulmões queimavam e minha garganta se fechava. Restava apenas esperar por meu final. Fui arrastada, subitamente para a realidade.
Acordei.
Estava em casa como de costume. Minha cabeça doía. Aparentemente estava tudo normal. Levantei-me.
Instantaneamente, avistei em meu pé algo horrendo, pior do que qualquer ferida purulenta em decomposição. Dessa vez, consegui soltar um grito de horror. Comecei a chorar desesperadamente e, à minha porta, surgiram inúmeras pessoas. Olhando com pavor, consegui enfim dizer: