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sexta-feira, 12 de abril de 2013

E tragicamente aconteceu... (O precedente)

    
Emma era apenas uma jovem de dezenove anos, cuja vida mal havia começado.
    Apesar de seus pais terem uma condição financeira de sustentar toda a sua vida (e sem dúvida, a vida de seus futuros filhos), ela insistia em conquistar  independência , porém a perda de seu pai em um acidente de carro acabou mudando seus planos. Ela até tentou por três anos consecutivos passar em diversas faculdades, mas não obteve resultado algum.
     A garota que antes era doce e apaixonada pela vida deu lugar a uma jovem amargurada, que já não via beleza em nada e passava os seus dias sentada sob uma pedra à beira mar, refletindo em como e porque sua vida havia tomado tal rumo. Seus amigos tentaram trazê-la de volta à realidade, mas desistiram semanas depois.
     Vendo o estado de sua filha, a mãe decidiu mandá-la para outro país. Mas ela relutou; não via motivo para abandonar sua mãe, sua única família, em busca de um velho sonho que fora enterrado junto com a antiga Emma. 
     Mal sabia ela que sua mãe acreditava fervorosamente que veria sua filha estonteante novamente, como costumava ser, assim que retornasse da temporada fora de casa. E insistência de sua mãe era tanta, que acabou cedendo. Ela sabia que essa decisão aquietaria o aflito coração da mãe, apesar de que ainda achava que isso era sem necessidade.
    
   O dia da tão temida viagem então chegou. Emma não havia separado muitas roupas, pois pretendia retornar para sua casa o quanto antes possível. Deu uma rápida olhada pelo quarto para ver se estava esquecendo algo importante e deparou-se com seu antigo amuleto da sorte -  uma velha foto de seu pai segurando-a em seus braços quando tinha apenas três anos. Ela estava vestida de anjo, por conta de uma apresentação da escola. A felicidade, capturada no instante em que a foto foi tirada, é evidente através dos sorrisos largos, daqueles que indicam as gargalhadas contagiantes, em que os olhos se contraem as bochechas se ressaltam e a boca se escancara mostrando todos os dentes. 
   Deixou-se contagiar pela foto e um pequeno sorriso brotou em sua face, o que já não acontecia há muito tempo. Apertou-a no peito e pediu a ele proteção. Uma lágrima apontou no canto do seu olho.
    
  Emma deixou o quarto em silêncio. Ficou assim durante todo o trajeto até o aeroporto.  Após longas despedidas, Emma embarcou no avião.  Nem ela mesma se lembrava de como havia chegado até ali, ou até mesmo do que sua mãe havia dito para tranquilizá-la. Estava em um estado mórbido, apenas seu corpo estava presente, pois sua alma estava perdida em outra dimensão - onde o medo de que algo acontecesse com sua mãe na sua ausência e a descrença de que a viajem mudaria alguma coisa em sua vida dominava todos os seus pensamentos e ações.
      Subitamente ela foi retirada do transe. Havia alguém sentado justamente no seu lugar. Era um rapaz alto, de olhos claros, cabelos cor de bronze e rosto quadrangular. Usava um casaco de frio com o capuz sobre um boné de aba reta, blusa listrada e uma calça jeans. O típico "garoto da moda". Ela não se importou em usar os maus modos e foi logo pedindo para que ele se retirasse. Ele a olhou diretamente nos olhos e, por um instante, ambos sentiram uma conexão inexplicável. Ela corou, mas em seguida retomou a postura severa e cobrou uma resposta, cruzando os braços. Gentilmente, ele mostrou  sua passagem, e com um sorriso no rosto mostrou que ela estava enganada; mas - como um bom cavalheiro -  cedeu o seu lugar. Emma corou novamente, devido ao erro, e sentou-se rapidamente.
   Eles conversaram durante toda a viagem. Andrew, o rapaz, contou-lhe que era um intercambista e que retornaria ao Brasil em dois meses, e ela contou  tudo o que a levou até lá. Ele enxugou com os dedos as lágrimas que começaram a saltar dos olhos dela, então pôde sentir sua pele gelada. Prontamente retirou seu casaco e entregou-a, que não recusou, pois sentia um frio não só no ambiente, mas também em seu coração. Ele abraçou-a forte, a fim de compartilhar a sua dor. Ficaram assim até o avião pousar.
     
  Ao sair do aeroporto, Emma encarou radiante a beleza de seu novo lar. Sentiu alguém se aproximar, e quando viu que era Andrew, retornou ao seu estado de admiração. Nunca vira na vida uma grama tão verde, um pôr-do-sol de um alaranjado vivo com o seus raios penetrando por entre as árvores que pareciam ter sido recentemente podadas. Andrew, timidamente, entrelaçou seus dedos nas mãos de Emma, que os apertou com suavidade. Deixando levar-se pelo momento, ela deitou sua cabeça sobre os ombros dele.
      A partir dali, ambos sabiam que não eram meros desconhecidos; pelo contrário, já se consideravam amigos de longa data. Acima de tudo, eles tinham a convicção de que aquela viagem ultrapassaria todas as sua expectativas e que ficaria marcada na vida de ambos.
   Para sempre.

("Jéssica Stewart")