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sábado, 14 de dezembro de 2013

A garota com apenas um olho - 3

A estalagem


Marie, mesmo atordoada com o momento que acabara de viver,reuniu forças,deu costas a Calvin e bateu em retirada rumo à estação de ônibus. Ao chegar lá,soube que o mesmo já havia saído,portanto ela teria que permanecer mais um dia naquela cidade,visto que o próximo ônibus somente sairia às 9 horas da manhã do dia seguinte.
Logo a jovem ficou amargurada pela dor de ser tratada como uma qualquer.Aquilo doía nela mais do que uma faca que transpassa a pele,uma dor incurável e insaciável, que fazia queimar suas entranhas em um burburim intenso de sensações deprimentes. Ah! Como ela queria esquecer tudo que havia se passado e começar uma nova vida, mas naqueles tempos não era muito bem aceito o divórcio, e a culpa sempre recaía sobre a mulher. Que desgosto!
Aos prantos e fraca de tanto chorar, a garota resolveu buscar algum abrigo, porém o dinheiro fora levado por Calvin e a ela só haviam restado alguns trocados, que mal davam para uma refeição.Somente lhe restava dormir na rua.
Procurando muito pelos bairros de Bruxelas, ela finalmente conseguiu encontrar uma estalagem barata para tomar uma “sopa de pedras” e alguns poucos goles de água que de nada serviram para hidratar sua garganta, que ardia mais do que um deserto ao meio dia.
Por fim, a dona da estalagem ficou comovida com a situação da moça e cedeu-lhe um cômodo para passar a noite em troca de alguns serviços especiais que ela somente saberia depois. A jovem prontamente se ofereceu para dormir ali em troca do serviço, que ela julgou ser fácil como a de lavadeira, passadeira ou arrumadeira, porém era muito além do que a frágil mulher poderia imaginar.
***


            Cerca de uma hora depois, a dona da estalagem entrou no quarto em que Marie estava e deixou duas caixas fechadas que ela falou que eram roupas. A sopa que Marie tanto aguardava ficara pronta a pouco e a mulher aproveitou para chamá-la:
            -Querida, está na hora do jantar, vamos comer? Aproveite que a sopa ainda está quente e está no início, quem sabe você não consegue fisgar um rapaz lá em cima? Olha que esse lugar sempre é muito movimentado, e hoje está especialmente esplendoroso! Ande logo e não se atrase, pois precisamos que você tenha muita energia para essa noite - Riu baixinho a mulher e saiu do quarto. Boa sorte, porque você precisará!
            Marie não entendeu nada.
            A moça preparou-se como sempre, e mesmo na amargura ela tentou ter um pouco de classe. Mais cedo a dona da estalagem dissera que seriam entregues também algumas roupas para que ela usasse à noite, e a jovem viu que não lhe faltavam motivos para abusar da boa vontade da mulher, pois suas roupas tinham se encardido um pouco para serem usadas para dormir ou sair. Poucos minutos depois, Marie viu-se imersa naquele caixote de madeira, que lembrava uma caixa de fantasias, procurando pela roupa ideal.
            Após algumas trocas de roupas, a menina ficou satisfeita com aquilo que via no espelho, e resolveu que era hora de ir jantar.
            Ao subir as escadas que a levavam para o salão onde eram servidas as sopas, ela percebeu que várias outras meninas, mais exatamente cinco, também subiam para a sala.
            As seis garotas se entreolharam e trocaram olhares desconfiados. O que elas estavam fazendo ali, ao mesmo tempo e com roupas quase que idênticas? Essa foi a pergunta que ressoou na cabeça de várias delas naquele instante.
            Logo as garotas já haviam chegado ao salão onde seria servida a sopa, e cada uma dirigiu-se a uma mesa diferente, e mesmo que muitas delas estivessem ocupadas por alguns poucos homens encapuzados, todas conseguiram lugares reservados.
            A “sopa de pedras” foi servida quente e acompanhada de um chá quente. Marie tomou-a com vontade, pois estava realmente faminta. O chá acabou em um minuto, e a jovem pediu outro, sendo prontamente atendida.
            ***

Porém, o que nenhuma delas reparou é que a dona da estalagem conversava incessantemente com cada um dos encapuzados que estavam nas mesas ao lado delas, e que pareciam negociar algo. Uma discussão se formou em um canto do salão, em que dois homens discutiam com a dona em um tom muito alterado e fora de cogitação para uma estalagem. Por fim, os dois chegaram a um acordo amigável e eles foram mandados para os fundos, de onde as moças tinham vindo.

***
Marie voltara cedo para o quarto, pois já se satisfizera somente com um prato de sopa e duas xícaras de chá, porém demorou um pouco a voltar a seu quarto porque ficou a conversar com algumas outras jovens que estavam ainda tomando sopa.
-Prazer, meu nome é Marie- disse à uma moça loira que estava finalizando o primeiro prato de sopa- vim de um vilarejo no interior da Bélgica, e fui largada pelo meu marido aqui sem dinheiro. Tenho uma casa em Paris, e você?
-Infelizmente, sou órfã há poucos meses e já fui largada às traças pela minha família. Sou daqui de Bruxelas mesmo, porém me cansei de ser abusada pelo meu irmão, ele é cinco anos mais velho que eu e mesmo antes de meu pai morrer ele já fazia certas coisas que eu não gosto. Agora, na última semana, ele tentou me estuprar. Isso para mim foi o estopim. Creio que nunca mais o verei, seja por raiva, seja por falta de dinheiro - Algumas lágrimas rolaram pelas bochechas rosadas da mulher- Nos últimos dias, passei muita fome, até que encontrei essa caridosa dona desta estalagem e ela me ofereceu abrigo, roupas limpas, água e comida em troca de um serviço especial que eu nem hesitei em aceitar.
-Eu também- Acrescentou Marie- A propósito, qual o seu nome?
A garota respondeu confiante:
-Pauline, e o seu?
-Marie, prazer.
-Prazer. Tenho certeza que seremos grandes amigas, minha cara.
-Que Deus te ouça, Pauline - Completou Marie.

***
Após se despedirem e marcarem de se encontrarem ali, no outro dia, no mesmo horário, cada garota rumou ao seu quarto tranquilamente e preparavam-se para dormir.
Contudo, Marie teve um susto muito grande ao abrir a porta de seu quarto e ligar a lamparina, para iluminar melhor o quarto. No cabide havia duas capas masculinas penduradas. De um lado, também estavam duas calças masculinas de cor escura, um chapéu preto, e uma veste íntima para os homens. Meio que jogados no chão, estavam dois pares de sapatos pretos, de bico longo, e bem lustrados.
Marie estranhou-se, e virou-se para a porta, pois achou que havia confundido de quarto, e no exato momento em que ela encostou-se à maçaneta da porta, ela ouviu ao fundo uma voz falar com ela:
-Espere um pouco garota, venha até aqui.
A jovem então se virou abruptamente, com o coração batendo rápido, e deparou-se com uma cena chocante: Em pé, ao lado da cama de madeira, se encontrava um homem, despindo-se de sua peça íntima, e já deitado na cama, encontrava-se outro homem totalmente nu.
Era ele quem havia chamado sua atenção, e quem falava novamente:
-Vejamos o que temos aqui, Charles.
Marie tentou gritar, porém o homem que estava de pé foi mais rápido e a impediu de emitir qualquer som. Nesse momento, a lamparina iluminou o rosto do homem que falara com Marie, que ela julgou reconhecer sua voz.
-Muito bonita por sinal. Essa noite será uma festa. Não concordas Calvin?
Marie congelou-se. Era seu marido que estava naquela cama nu e deitado, esperando por uma noite maravilhosa ao lado de uma mulher. E estava acompanhado por seu melhor amigo, Charles, também casado. Definitivamente a última cena que ela esperava ver, porém não teve tempo de fazer mais nada, pois as mãos grossas e fortes de Charles a apertavam firmemente, e Calvin levantou-se grotescamente para consumar o ato.