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sábado, 20 de setembro de 2014

Apoteose de Ícaro - Parte 4 (Final)

Olhei para a escuridão que se arrastava no vale tenebroso lá embaixo, com a luz do por do sol batendo nas plumas grudadas na armação e deixando-as douradas, balançando com o vento. Senti-me como um jovem pássaro prestes a voar pela primeira vez. Ouvi as brisas sussurrando em meu ouvido e provei o sabor da liberdade.
Sem perceber o que fazia, joguei-me do penhasco, lançando-me à morte ou à apoteose de minha vida.


No primeiro momento, o sussurro do vento tornou-se um zumbido rouco palatando-me aos poucos, prestes a estourar meus ouvidos com a pressão. Eu caía mais rápido que o próprio Hermes, sacolejando e arrastado pelo ar que resistia frente a meu corpo em queda livre. Fechei os olhos e preparei-me para a morte que me espreitava no chão duro, esperando-me ao fundo com passagem direta para o Tártaro. Suspirei profundamente e abracei a escuridão latente.
Pude sentir o sabor da lama molhada ao meu encalço, mas antes que a vida de desprendesse de mim, consumindo minha carne e elevando minha alma, um torpor enclausurado em meu cerne ascendente. Acendeu-se então uma centelha que instigou o bater das asas.
Meu lombo muscular aparentemente estático tremeu perante a onda de energia que invadiu meu corpo e percorreu minha coluna vertebral, alcançando cada vértebra e cada músculo de forma a ativá-los em uma sensação inexplicável. Sentia eu, portanto, as penas da armação como se fossem parte de minha carne. Subiu-me uma força descomunal, com os nervos sensitivos esbarrando na pele fria e arranhando meu córtex cerebral, causando uma mudança definitiva no meu modo de ver o mundo. Cada centímetro das asas tornara-se sensível, e eu podia finalmente experimentar o voo das aves pelos céus maravilhosos da Grécia.
Delicioso.

Após alguns minutos subindo mais e mais, percebi que lentamente me aproximava do infinito do céu, com o chão dando às costas e se despedindo de mim, com o ar rarefeito abraçando meu corpo com ternura. Já podia visualizar ao longe o topo do monte Olimpo, lar do panteão dos deuses gregos, esperando um dia poder voar até Olímpia e encontrar-me pessoalmente com Zeus e Hera, todos os seus filhos superpoderosos e o resto dos deuses olimpianos. Visualizei, entretanto, o penhasco por onde eu me lançara tempos atrás, com Dédalo esperneando e acenando com os braços. Não pude ver sua expressão.
Aproximando-me mais do céu, as feições de meu pai tornaram-se borradas, assim como o resto do mundo lá atrás. Eu subia rápido demais, acelerado e em linha reta. Ascendi aos céus com tudo e os corações aos berros.
Finalmente visualizei o fim do labirinto, a cerca de duzentos e cinquenta quilômetros de distância, ao norte, brilhando a luz do sol, que se extinguia no horizonte. O por do sol era maravilhoso visto dali de cima, com os raios lineares se estendendo sobre a circunferência terrestre assim como um leque de cerimônias. As cores negras, amareladas, fúcsia, vermelho, carmim claro e alaranjado se misturavam em afrescos mirabolantes, como se fossem obras diretas de Apolo. Pensei, aliás, ter visto sua carruagem flamejante conduzindo o sol ao infinito.
Sorri de alegria, com as lágrimas escorrendo límpidas de meus olhos e evaporando antes de chegar a minhas maçãs do rosto. Este, por sua vez, estava quente, quase em estado febril.
Sentia, assim, todo o meu corpo se aquecer, uma sensação maravilhosa de felicidade tomando conta dele em êxtase. Eu era o primeiro homem a voar, e sentia-me tão especial que poderia tocar o próprio Apolo, brincando de controlar os céus junto a Zeus, o rei do mundo superior.
A temperatura aumentou paulatinamente à medida que minha felicidade se elevava assustadoramente, borbulhando sentimentos bons perante a liberdade que eu experimentava. Sentia eu as penas se anuviando, ficando leves e flutuantes, com sua massa ficando desprezível. Olhei para as envergaduras de pena de ganso.
Pus a mão na boca e transbordei de desespero, estagnando em pleno ar, instantaneamente sugado com força de volta ao solo, um vetor crescente que me puxava pelo abdômen e retesava minha face em uma expressão assustada.
Desta vez, era o sol quem dava adeus, com as enormes falhas de minhas asas pendendo no ar e perdendo pedaços gigantescos da cera que se derretia, desfazendo a estrutura em pleno ar. Enquanto isso, eu via a luz despedindo-se de meu corpo em chamas, meus olhos borrando-se cada vez mais e a imagem de um montante grande de plumas flutuando acima de minha cabeça, caindo em um vai e vem bem lento, indo e vindo com graciosidade. A morte chamava-me nos entremeios das plumas na penumbra que começava a me consumir.
A situação ficou insustentável, ao passo que eu assistia à última pena se desprendendo de meu corpo, sentindo-a descolar-se e arrancando sangue de minha pele. Junto a ela, desgarrava-se de mim a lucidez. Tudo ficou escuro depois disso, engolfando-me um pretume mórbido, e abandonei a vida da mesma forma que Demétria me deixara: Tragicamente.


 
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