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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O assassino da catedral - Prólogo

As velas bruxuleantes davam um tom mórbido ao local, com as chamas dançando na penumbra, hora azuis como o medo, hora laranjas como a coragem. O silêncio era ensurdecedor. Os longos cachos encaracolados pendiam molhados de suor, e os fios grossos ressaltavam ainda mais a sensualidade natural da mulher. O nervosismo tomava conta e não a deixava perceber o par de olhos que a observava por entre a escuridão latente, comendo-a com o olhar azul de um homem sedutor. Seu pálido rosto feminino escondia-se sobre um véu negro, rendado, e que fora colocado especialmente para deixa-la anônima; impedindo a visão de seus finos traços.
Ela ouvia o som ritmado de seus tamancos amadeirados no piso rudimentar de madeira, batendo e ecoando pelo interior do antro mal iluminado e que cheirava a mofo; atenta apenas à simbólica representação religiosa ao fim do corredor de bancos, forrado por um tapete extenso de veludo vermelho. Reverenciou a estátua, levando as mãos à cabeça, encostando-as na testa delicadamente. “Em nome do pai...”, distanciou-se um pouco, ainda sem notar o homem que a olhava pelas sombras, sentado em um dos longos bancos. Postou a mão direita sobre o coração. “... em nome do filho...”, deixou cair uma lágrima. Levou-a ao lado esquerdo do peito e abaixou o tom da voz: “... do espírito santo...”. Respirou fundo e finalizou. “... Amém.”
Enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo em busca da pistola que guardara para a ocasião. Afagou o metal gelado, enchendo-se de prazer ao se deliciar com a sensação de tocá-lo. Apesar do frio, suava ao pensar no peso da situação que carregava nas costas.
-Deus, perdoe-me pelo que estou prestes a fazer. – Sussurrou, ainda com as mãos coladas à arma, e fechou firmemente os olhos, interrompendo a passagem da já escassa luz.
Neste exato momento, sentiu um aperto nos peitos; todavia, a causa não era um flagelo cardíaco, mas uma mão grossa, visivelmente masculina, e de veias saltadas. Sentiu a respiração quente na nuca e o membro enrijecer. Ela arfou, vacilante e morrendo de desejo, mas não podia se deixar levar.
Ele alisou seu corpo e desceu vagarosamente aos bolsos do sobretudo negro que ela usava, sentindo o toque na arma fria.
-Traidora... – Soprou a palavra, fazendo-a arrepiar. – Venha comigo.
Agarrou seus punhos com uma das mãos, provido de uma força abismal. Com a outra mão, puxou seus cabelos e levou-a por entre os bancos e velas para perto de uma porta lateral, menor do que uma normal e tão trabalhada que poderia ser uma relíquia do século passado. Esta, quase escondida atrás de uma pilastra grossa e sólida de mármore. Ele abriu a porta e conduziu-a a escuridão.
-Você tem sido uma menina má. – Disse, puxando seus cabelos tão fortemente que a fez gemer de dor. – Muito má. – Pegou a alça de seu sutiã por debaixo do sobretudo e de mais três blusas de frio e puxou para o lado, começando a despi-la. – Sabe o castigo que uma menina má merece?
Molhou-a na pele nua com um líquido consideravelmente quente, provocando-a com o olhar, que escorreu por entre o decote ousado e percorreu o caminho até o umbigo dela. Utilizando uma das mãos para segurá-la, encontrou a outra livre para levantar o véu que separava os olhares dos dois.
-Tão bela... – Deu-lhe um caloroso beijo. – Tão traiçoeira... –Deferiu-lhe um tapa que ecoou por todo o ambiente.
Sua barba rala roçou na pele branca dela e deixou-a doida. Estendeu a língua, porém acabou lambendo o ar. O homem vestido da cabeça aos pés em trajes negros virou-se abruptamente, com uma expressão psicopática na face bonita. Encaixou as mãos largas nos ombros dela e empurrou-a, que bateu com força na parede; entretanto, rapidamente reagiu, com um rompante imensurável, jogando-o contra uma mesinha curta e que servia de suporte para os objetos litúrgicos. Derramaram-se ao chão uma garrafa de vinho e todo o resto dos aparatos religiosos, fazendo-o se cortar no lábio quando raspou a boca em um caco de vidro da mesma garrafa do vinho barato. As hóstias se esparramaram no chão sujo de poeira, vinho, sangue e outras coisas mais.
Foi aí que ela conseguiu correr até o altar, desesperada, e enfiou as mãos trêmulas no bolso em busca de sua pistola automática, que havia guardado especialmente para o que viera fazer. Encontrou um espaço vazio, o que a fez soltar um grito miúdo e espantado, quase um miado felino.
Vindo calmamente em sua direção, o homem mostrou-se de posse da arma, que antes era sua salvação; agora sua maior ameaça. O metal conseguiu brilhar mesmo com aquela luz vaga.
-Procurando por isso? – Olhou-a com o rosto demoníaco, o sorriso contorcendo-se nas bochechas, lembrando-se das horas que a possuíra com selvageria.
Ela ficou acuada entre o altar e o crucifixo, porém, apesar de abrir a boca para gritar por socorro, acabou engolindo as palavras suplicantes e fê-las descer com uma saliva seca. Viu que as largas janelas da catedral estavam trancadas, assim como a porta por onde entrara, além da portinhola da sacristia. Os padres provavelmente estavam no último sono e nenhuma alma viva passava pela rua àquela hora da noite.
Ele chegou tão perto que pode encostar a ponta gelada da arma metálica no liso abdômen da mulher, que agora tremia tentando conter o pavor que sentia.
-Eu quero que você olhe no fundo dos meus olhos agora! – Ordenou, passeando entre graves e agudos. Levantou o olhar dela com o cano da pistola e pode ver os olhos marejados e vermelhos de pavor. – Agora diga que me ama! –Os lábios rosados dela tremularam, mas a voz não saia deles. – Diga! – Pigarreou.
-Eu te amo... – As lágrimas finalmente se permitiram sair.
-Sua vagabunda mentirosa! – Apertou o gatilho sem piedade. Os olhos acinzentados dela ficaram fixos no teto, assim que ela caiu e rachou o crânio com uma pancada forte na cabeça. Um último suspiro foi dado antes de o resto de seu corpo morrer.

Ele pegou o véu sujo de sangue e cobriu novamente o rosto, retirou as luvas que a todo o momento usara e, com seu auxílio colocou a arma no bolso de suas vestes. Tocou-a em um único ponto, que escorria um sangue negro, e provou do líquido vermelho. Satisfeito, soprou as velas e abandonou a catedral às escuras. 

Leia agora a parte 1 e continue no mistério da catedral. Quem será o assassino?
http://minusculasmanivelas.blogspot.com.br/2014/09/o-assassino-da-catedral-parte-1.html