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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Caso 127



     Andando pelas ruas deparei com uma situação interessante: uma jovem menina de 12 anos, aproximadamente, chorava desesperadamente em frente a um prédio. Prontamente fui ajuda-la.
     - O que foi? O que aconteceu?
     - Fui roubada! – respondeu ela em meio às lágrimas.
     - Roubada? O que levaram?
     - Meu coração! – E caiu no chão em desespero.
     Assustada, entendi logo do que se tratava.
     - Querida, qual é o seu nome? – Perguntei calmamente a fim de tranquiliza-la.
     - Ale... Alessandra – Disse entre soluços.
     - Vamos. Conte-me o que aconteceu querida.
     Levei-a para uma lanchonete próxima e comprei um pote sorvete para que ela acalmasse.
     Agradecida começou a falar:
     - Eu estava na festa da Maya e...
     - Maya? Quem é ela? – interrompi
     - Minha melhor amiga. – disse ela sem entusiasmo.
    - Ah. Quantos anos ela tem?
    - Não sei, mas acho que está terminando a faculdade.
   Estava alarmada. Procurei obter a maior quantidade de informações possíveis e sutilmente liguei meu gravador de voz.
     - Continue meu bem. – Encorajei com um sorriso.
     - E lá estava o Luiz, mas eu não entendi porque as pessoas chamavam ele de Fernando também...
     - E ele era da idade da Maya? – indaguei.
     - Sim, eu acho – respondeu confusa.
     - Conte-me mais, por favor.
     A menina se endireitou na cadeira, como se refletisse no que deveria contar ou omitir. Tive um pressentimento ruim, sabia que essa história não teria um final bom.
     - Ele é lindo. Um príncipe. Disse que me amava e que quando as pessoas se tornam mais velhas, Deus dá a elas o poder da visão. Ele disse que éramos almas gêmeas e que estávamos destinados a ficar juntos para sempre... – Rapidamente, a expressão do rosto dela alterou. Estava omitindo uma parte crucial. – Ele disse que eu era linda... que se casaria comigo, que morava aqui – apontou para o prédio – mas acho que eu sou burra demais... Deus me castigou.
     - Castigou? Ele fez alguma coisa com você, Alê? Posso te chamar assim?
     - Pode – hesitou – Ele me levou para um quarto para continuar a história e disse que teríamos que fazer um ritual para sermos abençoados por Deus... E foi aí onde eu fiz algo de errado – começou a chorar novamente.
     - Ritual?
     - É. Hm – ponderou – Ele me chamava de anjo enquanto beijava meu corpo todo. Tirou minhas roupas e...
     Levei-a para meu posto de trabalho, desesperada. A menina, confusa, não entendeu de início, mas eu já conhecia o procedimento. Era a terceira jovem que sofreu abuso em dois dias.

("Jéssica Stewart")

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O palhaço

Em uma cidade qualquer, de um país menos importante ainda, vivia Gumercindo. Como qualquer criança tímida de dez anos, possuía poucos amigos e vivia como uma sombra na vida de todos.
Um dia eis que surge Clarinha, uma linda menina que tinha acabado de se transferir para sua escola. Simpática, passava todo o seu tempo com ele, ignorando todos os outros alunos que estavam eufóricos para receber sua atenção. O pequeno Gumercindo se sentia aquecido com aquela luz que irradiava dela, e de repente já não se sentia mais uma sombra.
Com o passar do tempo, acabou descobrindo muitas coisas sobre a menina: Era nascida e criada em um circo, filha de um ex-mágico e de sua assistente, que mais tarde decidiram abandonar a vida de espetáculos para poder dar à ela o direito de ter uma vida normal. Mas não era isso que Clarinha realmente queria. Desejava voltar para sua vida conturbada, viver onde quisesse, livre; quiçá poder participar do elenco, ser uma linda bailarina que graciosamente atravessar o perigo incalculável de uma corda bamba.

O garoto se sentia cada vez mais atraído por ela e sem perceber, já estava apaixonado em plenos quinze anos.


quinta-feira, 17 de julho de 2014

Dama da noite

Algo naquele beco chamou-me a atenção. O calor que inundava a entrada era extraordinário, como se algo queimasse lá dentro. Logo, uma chama dourada captou minha silhueta, deixando ainda mais nítidas as sombras na parede, que dançavam um ritual satânico, desprendendo tamanha emoção.
            Um vulto enegrecido se desprendeu da parede e vinha em minha direção com longas garras. Soltei um grito de terror, e meu coração quase parou quando me tocou nos ombros e disse-me rasgando o silêncio:
            -Até que enfim eu lhe achei! Pensei que não o veria nunca mais. – As unhas vermelhas rasgaram minha dignidade com um toque quente e desesperador, que me trouxe na hora lembranças de um passado já esquecido. Não queria ter um daqueles loucos flashbacks, mas era inevitável. Ela tomou meus lábios em um beijo amargo e temeroso, faltando-me o ar. Era como se minha alma fosse sugada da carne pela boca, com certa ferocidade e rancor diabólico.
            Queria fazer com que ela parasse, mas já não era dono de minhas próprias vontades. Eu pertencia à ela.
            -Não vai querer mais? – Questionou-me quando me afastei metade envergonhado e metade eufórico. Queria mais, sempre mais.
            Ela começou a me conduzir à parede. Estava enfeitiçado pela loucura da paixão, com ela me pressionando fortemente, dizendo em meus ouvidos palavras sussurradas.
            -Venha, meu bem. Eu sei o que você quer. Sei também o que você precisa.
            Estava preso em seus olhos dourados. A parede cada vez mais perto e ela continuava a me puxar pela mão.
            -Pare com isso! – Tentei gritar, desesperado e afobado. Corri meus olhos pela rua atrás de mim, completamente vazia. – O que você quer de mim? – Perguntei, olhando em seus olhos e vendo sua alma por dentro, linda e cativante.
            -Você sabe o que eu quero meu bem. – Sussurrou ela em meus ouvidos. Deixei-me envolver. Ela pressionou-me contra a parede e deu um beijo quente com os lábios carnudos em meu pescoço. Começaram-se a eriçar os pelos de minha nuca enquanto ela passava as unhas provocantemente vermelhas em meu abdômen definido.
            Já não queria mais ir embora, e entreguei-me totalmente a ela. Girei-a, trocando de lugar, e ela ficou de costas para a parede de tijolos, gemendo.
            Mas, assim como ela surgiu em um ressalto, começou a dissolver-se em seu próprio prazer, que havia comungado com o meu, coisa que não podia
            -Não! – Gritei em desespero.
            Ela já não estava mais lá. Ouvi no silêncio da escuridão uma risada leve e satisfeita. Ela havia conseguido o que queria. Agora, EU a desejava.
            -O que faço para vê-la novamente? – Questionei, contando as palavras.
            -Nada. – Fui respondido com frieza, por fonemas obscuros que vieram diretamente do nada.
            E sumiu no breu daquele beco, deixando-me somente com a lembrança de seu perfume suave e de suar artimanhas para seduzir-me. Algo me fazia ter certeza de que ela voltaria, e que não tardaria a reaparecer. Ademais, meus sentidos à flor da pele despertavam instintos carnais que me faziam suspirar de desejo, como se uma aura secular pairasse sobre mim e continuasse a me provocar. Meu desejo era vê-la em minha cama quando chegasse em casa para poder apoderar-me daquele corpo.
            -Boa noite, meu bem! – A voz voltou por trás de minha nuca, e um aroma achocolatado invadiu minhas vias nasais.
            -Te espero em meu apartamento. – Disse baixinho, com tom malicioso no rosto, esperando que meu pedido fosse atendido.
            Esperei a voz do silêncio se expressar, com aquele toque felpudo em meu tímpano que o fazia vibrar de emoção, rompendo a tensão de minha escápula e derretendo meu coração.
            -Não posso sair desse beco. – Ela disse, encostando seu indicador em minha boca seca e ansiosa por algo mais. – Sou filha das sombras, e não posso abandoná-las. Queria muito poder provar mais disso aí. – Apontou para mim. Corei com as bochechas, que ardiam vermelhas como fogo.
            -Deixe-me então ficar com você. – Supliquei, desesperado.
            -Você sabe que é um caminho sem voltas, certo?
            -Não me importo. – Seus olhos se iluminaram no meio da escuridão, como dois faróis altos.
            -Chegue mais perto. – Ela ordenou de forma baixa e lenta, como um ronrono.
            -Sou todo seu. – Respondi, avançando em sua direção. Ela envolveu-me com suas garras até alcançar meus glúteos, com suas mãos delicadas se encaixando perfeitamente, e me puxando para si, sugando-me com a escuridão, que tomou conta de mim. Tudo mais ficou escuro, mas ainda podia sentir aquele perfume.
        
                                                                      ("Brianna Morgan, André Luiz e Jéssica Stewart")
                                                               





quinta-feira, 26 de junho de 2014

It's coming!

ATENÇÃO! Conhece este símbolo? NÃO? ENTÃO PREPARE-SE QUE ALGO NOVO ESTÁ EM CONSTRUÇÃO. ALGO QUE INTERFERE NO MUNDO E INTERFERE NAS HISTÓRIAS E NOS SONHOS. ALGO QUE SURPREENDERÁ ATÉ MESMO JÉSSICA STEWART. ESPERE E CONFIRA NO MINÚSCULAS MANIVELAS.


O irmão e o palhaço

O irmão e o palhaço
Ronald trabalhava como palhaço por anos, e já adquirira experiência suficiente para promover grandes eventos por conta própria. Naquele dia, ele organizara um show infantil com o intuito de angariar fundos para um projeto pessoal. Sua profissão era gratificante, pois lidar com crianças, para ele, era uma das melhores coisas do mundo.
Seus cabelos em tom escarlate, encaracolados como macarrão ao sugo, pendiam por uma peruca mal colocada naqueles fiosrealmente negros por debaixo do nylon vermelho. Com sua estatura alta e porte físico desejável, Ron, como era conhecido, sempre ostentava um sorriso incomum para os homens de sua idade. A propósito, ele não gostava de revelá-la a ninguém, mas estima-se que ele tenha no máximo vinte e cinco anos.
Nota-se claramente que ele gosta muito de praticar exercícios físicos, mas seu tônus muscular elogiável dá-se mais em vista de seu esforço com as crianças do que com uma academia em si. O trabalho que as pestinhas dão é fenomenal.
Após anos no emprego, ele já se mantinha sozinho no ramo e começara a preparar festas por si próprio. Juntava grande parte de sua renda para aquele projeto personalíssimo. Por tempos lutou por ele, e agora este estava prestes a se concretizar.
-Tio Ronald, você faz um cachorrinho para mim? – Questionava um menino de cinco anos com um chapéu de festa azul na cabeça. O moleton engordurado também estava com uma fenomenal marca de sorvete, com uma mancha roxa que provavelmente nunca mais sairia. – Tio Ronald?
-Ah... Cachorrinho? – Ron não se atentara para a pergunta. – Que cachorrinho?
-De balão. – O garoto sorriu.
-Ah.
Ronald enrolou a bexiga debilmente e devolveu-a ao garoto.
-Quê isso, tio? – O garoto parecia não estar satisfeito. – Eu pedi um cachorro! – Ele abriu a boca para chorar.
Aquele dia não estava sendo o melhor da vida de Ron, e seus sonhos estraçalhados e estourados como um balão o pressionavam a ponto de fazer algo improvável.
-Dê-me aqui este balão, menino. – O garoto viu seu mais precisoso bem ser suprimido de suas mãos. E, ignorando todo o resto das pessoas que estavam do outro lado do parque gramado, sequestrou o garoto. Tinha se cansado de vez daquele emprego, e, embora podia ser preso por aquilo, não parou muito para pensar nas consequências.
O menino babado e sujo de sorvete foi levado sorrateiramente para um furgão adornado com alguns adereços de palhaços. Um belo nariz vermelho ficava em cima do veículo, e indicava que o palhaço Ron estava chegando. A buzina do furgão também foi modificada.
Contudo, o homem estava cansado daquela vida de palhaço e queria que o resto do mundo explodisse. Antes, porém, aquele garoto iria sofrer.
Mas como?
Primeiramente, pegou-o e amordaçou-o com alguns balões vazios que ele mantinha em uma sacola, prendeu-o com o cadarço de seus enormes tênis e por fim enfiou quase que toda sua peruca na cabeça do garoto, que ficou mais parecido com um pequeno palhaço do que com um refém de verdade.
Chutou uma lata de refrigerantes que caíra da mão do garoto e sentou-se no banco. Apreensivo, girou a chave, com as mãos trêmulas, e ligou o carro. Arrancou cantando pneus enquanto alguns dos pais que acompanhavam os filhos corriam aturdidos rumo ao veículo, e, inclusive, dois deles desesperados pelo filho que fora roubado.
A polícia foi chamada e rapidamente perseguia o rapaz, que foi mais astuto e, com uma virada brusca, derrubou o nariz de cima do veículo, que se espatifou em cima do carro dos tiras. Eles foram obrigados a parar, e o meliante escapou ferozmente por entre uma rua estreita e sinuosa, bem no centro da cidade.
O labirinto urbano foi transpassado fielmente por alguém que conhecia toda Arcadia, na Califórnia, e o homem em fuga foi perdendo as contas do tempo que passara com o pé somente no acelerador.
Por fim, já as duas horas da tarde, três horas depois do incidente, parou em uma casa de campo, feita de madeira e decorada debilmente com algumas cabeças empalhadas de porcos e bois( por sinal, muito esquisitas) e desligou o carro de forma apressada, esquecendo o garoto lá dentro por algum tempo. Entrou e encontrou-se com seu irmão Maurice, fazendo sabe-se lá o que com uma garota em seu quarto. Resolveu pegar uma bebida bem gelada, que por fim acabou virando um whisky quente e ardente. Bebeu toda a dose em somente um gole, e a bebida desceu queimando sua garganta. Tirou um maço de um legítimo Marlboro, acendeu-o e pitou algumas vezes.
Maurice saiu do quarto praticamente nu, com a mulher de não mais de dezoito anos atrás, despreocupada em enrolar-se em algo para esconder suas vergonhas.
O irmão e a “acompanhante” se assustaram. Ele já estava acostumado com o corpo masculino, e então nem ligou de mostrar suas partes a Ronald. A garota se enfiou de volta no quarto, com uma batida de porta nem um pouco agradável.
-Ron, meu palhaço favorito. O que faz aqui? Pensei que tinha que trabalhar hoje.
-Desisti de tudo.
-Como assim de TUDO? – Maurice ficou aturdido e veio correndo tirar satisfações com o irmão. – Tudo o que?
-Tudo. Cansei. Manda embora essa...aquela...- ele não encontrava a palavra certa. – ah... mulher, embora.
-Está bom então. – O irmão parecia nervoso e raivoso, mais sabia que não poderia contrariar Ronald, seu irmão mais velho, então foi logo tratar de despedir-se de Katy.
-E guarde isto em seu lugar. – Apontou para as partes baixas. – Cansei-me de vê-las livres pelo ar.
O outro irmão ficou mais aliviado. Ronald sendo “Ronald, o palhaço”.

Após a saída de Katy, que na verdade era Monique Salém, uma prostituta, Ronald levou o irmão, já de cuecas e com um cigarro na boca(O vício era presente entre os dois) para conferir o “material” que Ron trouxera na parte de trás do carro amassado e sem o nariz de palhaço que ficava em cima do capô.
-Caramba, cara! O que é que você arrumou aí? Tá doido?
O garotinho olhava para os dois com olhos de ressaca.
-E aí? – Ronald olhou para o irmão. – Sugestões?
-Claro que não, cara! O que você acha que vou fazer com um garoto de dez anos amarradona parte de trás de um carro? Onde é que você estava com a cabeça?
-Pra falar a verdade, já perdi a cabeça a muito tempo. Sequestrei um garoto em uma festa infantil, fui perseguido pela polícia, atropelei o cachorro de uma madame e derrubei o nariz vermelho estúpido em cima do carro dos tiras, velho. Eu tô ferrado!
Ron olhou para o horizonte perdido no meio do nada e ficou por alguns segundos deslumbrando a estrada vazia.
-Cara? – Ronald se virou quando Maurice chamou-o com uma voz bastante rouca depois de anos de cigarro e drogas.
-Oi?
-Olha pra estrada.
E Ronald quase sujou as calças quando o batalhão de polícia de Arcadia parecia estar completamente vindo em sua direção. Cerca de dez viaturas e mais uns doze policiais em motocicletas.
-Cara, o que foi que você fez?
-Sequestrei aquele garoto ali. – Ron apondou para o menino, que não esboçou reação. Sua roupa estava bastante suja de um suor mesclado à poeira da estrada. – Simplesmente isso.
-Simplesmente isso? Cê pirou? – Maurice pegou as chaves do carro. – Vamos nos entregar e pagar pelo que você fez. – Olhou para si mesmo e repensou: - Acho que os tiras não vão querer explicações e vão me levar junto.
-Não tardou a perceber seu erro. Parabéns! Agora, - O palhaço buscou em seus pensamentos. – é... Entre aqui e vamos fugir!
O irmão entrou sem pestanejar.
O velho furgão rangeu os motores e cantou pneus antes de os dois irmãos ouvirem a sirene da polícia. É essencial ressaltar que, na verdade, o que se via dentro do carro era um menino pálido amarrado com balões, um palhaço ao volante e um bêbado praticamente pelado bebendo whisky e fumando pela janela, enquanto metia a cara para fora e saudava maliciosamente as mulheres por quem eles passavam.
-E agora? Para onde?
Ronald destraiu-se um pouco com a estrada e devaneou por alguns momentos.
-Sei lá. Já ouviu falar em **-se. Então, é para lá que vamos. Quer mesmo ir?
-Acho que não, mas tanto faz então.
-Vambora!
E o dia foi sumindo bem devagar, à medida que as cidades passavam em relâmpagos, como flashes, e algumas pequenas viaturas nem sequer paravam para reparar nos dois fugitivos emaranhados em uma situação perigosíssima.
A noite toda foi de muita estrada, e pela manhã Ronald ainda suspirava os efeitos do álcool e do cigarro, que daquela vez não fora de fumo.
-E aí, cara, o que você vai fazer? – Maurice acordara sobressaltado.
-Não enche. – Ronald virou a cara e deu mais um trago no cigarro.
-Nervosinho...
-O que foi? Tá achando bom não?
-Não é isso. É que eu quero saber o que vamos fazer em seguida. E tem também o lance do menino.
-Menino? Que menino? – Ron não se lembrava de muita coisa enquanto consumia drogas. Até que encontrou bem no fundo de sua mente a imagem do garoto que tinham sequestrado. – PUTZ!
O carro foi freado bruscamente até parar no acostamento de uma rodovia pouco movimentada no Texas.
-*lho, velho, *ta *rda, esquecemos a *rra do menino no banco de trás. Que *sta!
-Calma *rra! O bichinho ainda tá aí preso e só deve estar com uma *ta fome.
Os irmãos foram em direção ao fundo do veículo, abriram a porta do furgão acoplado ao carro e tiveram uma baita surpresa: O menininho bonitinho que Ronald tinha sequestrado, sujo de baba e sorvete, estava roxo, caído ao chão, e duro como uma pedra.
Contudo, ainda estava quente, por isso, ainda sob efeito de drogas, o irmão mais velho meteu logo a boca nos lábios pequenos do menino na esperança de ressuscitá-lo, como se faz com as pessoas com parada respiratória, mas o gosto de sangue e vômito que a boca do garoto lhe proporcionara o fez abandonar a proposta rapidamente.
-*lho, velho! Que *sta que a gente fez. * tomar no *, seu *zão, olha onde você me meteu! – Maurice tinha empurrado o irmão para longe com uma força excomungal. Ronald, bêbado e “noiado”,caiu com tudo em cima de uma pequena pedra que lhe deu um grande rasco em uma das mãos, e sua blusa escrota de palhaço ficou logo manchada de sangue.
-*rra, meu! Cê tá de brincadeira comigo, ou minha mão tá mesmo sangrando? – Ronald parecia não sentir dor alguma. Pegou o cigarro e pitou mais uma vez.
-Tá doido bicho, cê tá muito noiado, isso sim! A gente tem que dar o fora daqui agora. Tô vendo uma casa ali a uns dois quilômetros. Parece que não tem ninguém lá, a gente pode ir e ver se eu consigo alguma coisa. Bora!
Maurice assumiu o volante e acelerou tanto que o presunto atrás do carro chocou-se violentamente contra uma das paredes da caixa metálica que caracterizava o furgão. Um barulho oco foi ouvido, seguido de um vômito tremendamente absurdo que saíra da boca de Ronald e sujara a estrada de verde, dez vezes mais nojento que o slime da Nickelodeon.
-Seu filho da mãe, rouba uma pestinha e ainda suja meu carro! Isso não vai ficar assim mesmo!
Mas Ron nem deu ouvidos, e o irmão mais novo decidiu continuar o caminho mesmo assim, até que dois minutos depois, aos trancos e barrancos, já estavam naquela pequena casa no meio do nada. Com certeza estava abandonada a tempos, e seria o local ideal para descartar o bichinho sem que nunca mais o achassem.
O carro parou e Maurice desceu rapidamente, gritando:
-Corre seu malandro, venha, me ajude com esse trambolho!
Ronald ainda estava aturdido, contudo pegou o menino morto e amarrado e praticamente jogou-o ao chão, onde ele ficaria por mais algumas horas até que decidissem o que fazer.
-E aí? De novo...
-Cara, não sei o que fazer.
-Nem eu.
-Bebe um pouquinho então, isso resolve.
-Você tem um estoque infinito de whiskys aí nesse furgão? – Maurice parecia entrar no clima do irmão.
-O suficiente para nós dois agora.
-Me dá uma garrafa então.
-OK.
-Mas antes vamos fazer uma fogueira, porque aqui no deserto, à noite, é bem frio.
-É pra já.
E as pequenas labaredas foram subindo junto às estrelas do céu, assim como a Lua que brilhava tão forte quanto o fogo que consumia alguns velhos pedaços de madeira que antes eram a porta da casa.
***
-*uta *erda, cara!
-Bom dia para você também, Rice!
-Não, cara! Olha a *osta que a gente fez, velho! Tô com nojo de mim!
-O que? – A pergunta de Ronald soou quase retórica quando o mesmo percebeu a grotesca cena que tinham protagonizado.
Em cima da fogueira, o menino jazia cozido e comido aos pedaços, em uma carnificina geral e enlouquecedora, que amedrontou ferozmente os dois homens. Um pouco de sêmen também estava ao lado do garoto, indicando que a noite foi mais louca do que se pensava.
-Eu comi o garoto! – Ronald se debatia debilmente, como se aquela carne humana fosse se desfazer dentro de seu corpo e simplesmente sumir de sua vida. – Caraca, meu!
-E você acha isso bom? Cê tá mesmo doido!
-Não, eu não tô doido não, eu só gostei.
-COMO ASSIM?
-Eu gostei daquela carne. Achei suculenta.
-VAI SE *DER! Eu não tô tão doido assim não!
Os dois irmãos quase se atracaram ao lado do resto do corpo do menino, ainda quente sobre a fogueira em brasas.
-Prova!
-Eu não!
-Prova de novo!
-NÃO!
-Quer ver, é bom! – Ronald abaixou-se e pegou um pedaço dos dedos do menino e meteu-o na boca como se fosse uma bala. – Ainda está suculento.
-Seu doido!
-Doido, não, diferente!
-DOIDO!
-Somente prova mais um pedaço.
-Só unzinho?
-Só um.
-Tá bom.
Outro dedo foi arrancado e atravessado no ar vagarosamente, posteriormente entrando na boca.
-Bom?
Maurice pensou, como se estivesse a analisar aquilo que estava fazendo.
-Não é ruim.
-Falei?
E como zumbis que perseguem a comida ambulante, os dois irmãos terminaram o café da manhã, botaram mais madeira sobre os ossos, urinaram sobre a carcaça e foram embora, deixando o local o mais nojento possível.
***
-Como andas, mocinha? – Ronald ria do irmão, que estava pensativo e prostrado recostado à janela.
-Acho que não foi certo o que fizemos. Não é certo comermos pessoas.
-O certo é não comermos coelhos e lebres, coitados. Seres humanos temos muitos no globo.
-Não acho isso certo.
Ronald reprimiu-o fisicamente, e colocando-lhe a mão em um local indesejado, disse em alto e bom tom:
-Você vai comer o que eu mandar, e eu estou te ordenando comer carne humana. Aliás, a próxima pobre alma que encontrarmos por essa estrada.
-Eu não quero mais fazer isso.
A mão de Ronald apertava cada vez mais o membro de Maurice, que foi ficando bastante dolorido.
-Vai fazer isso agora?
-Não.
Apertou mais a mão.
-E agora?
-Ainda não.
Parecia que o sangue ali iria parar, ao passo que a cabeça do irmão mais novo começara uma mudança radical em virtude da literal pressão do irmão mais velho.
-E agora?
-Sim, tá bom, eu vou tentar.
-Conseguir.
-Sim.
-Sim?
-SIM!
-Assim que eu gosto. – Ronald olhou para o horizonte, e um posto de combustíveis se aproximava junto com um casebre malfeito. Um homem de aproximadamente trinta e dois anos fumava sentado em um tamburete de madeira de lei, com uma das mãos enfiadas nos bolsos e os olhos no horizonte que se extendia ao infinito. – Aquele ali. Alvo travado, localizado e preparado.
-Não faça isso, por favor... – Maurice ainda tentou salvar o pobre homem. – Ele tem a nossa idade quase.
-Então é melhor ainda, que aí poderemos imaginar o sabor aproximado que nós possuímos. – Ron tascou-lhe um tapa na nuca que quase o fez desmaiar. – Vá lá atrás e pegue o machado. Vamos parar por aqui e seguiremos a pé, para facilitar nosso lado.
Maurice calou-se e, enquanto o irmão encostava o carro no acostamento, ele abria a porta e descia do carro.
O furgão era silencioso quando necessário, mas a porta traseira não ajudava muito neste quesito. Ela rangeu tanto que o homem do posto virou-se ressabiado e levantou-se do banquinho, vindo em sua direção. Ronald rapidamente agarrou o machado pelo cabo vermelho e escondeu-se atrás da porta, mais tarde rodeando o veículo e parando exatamente a dois passos do texano.
-Precisam de ajuda? – O homem loiro e barbado questionou, com um cheiro de fumo que infelizmente contagiou Maurice.
-Por enquanto, um cigarro.
-John. – Estendeu-lhe a mão. Maurice ficou estupefato, mas decidiu cumprimentá-lo, na esperança de uma salvação.
-Maurice.
Ronald aproximava-se psicopaticamente por trás do homem e erguia o machado, que reluziu à luz do sol. O brilho refletiu-se no asfalto empoeirado e fez com que o homem do posto virasse subitamente e pegasse o palhaço assassino com a mão na prova do crime, apesar de não sacar diretamente do que se tratava.
Ron desferiu-lhe uma machadada, que o acertou bem no ombro e respingou sangue bem no rosto de Maurice.
-Rice, me dá uma ajudinha aqui. – O mais velho pedia ao mais novo cautela, para conservar a frescura da carne. – Vamos levá-lo ao posto.
O estômago de Maurice revirou-se, e o máximo que ele conseguiu fazer foi afastar-se e fumar.
-Eu te encontro lá no posto, pode ir. Vou pitar um bocado.
-Vê se não demora que eu hoje tenho um prato especial que eu fui criando enquanto dirigia. Afinal, as quase dezesseis horas que demoramos até aqui serviram para inspirar-me. Quando passamos pelas proximidades de El Paso, no México, percebi que poderíamos nos fixar por ali, mas abandonei a ideia, visto que a polícia deve estar atrás de nós. Até lá no posto! Vou estar cozinhando.
Maurice estava perplexo, e quando finalmente tomou consciência de si, já podia enxergar o irmão apontando para ele, na esperança de que fosse lá ajudar. Fez sinal com as mãos e pegou o Marlboro.
A fumaça entrou em seus pulmões e chegou até os alvéolos lentamente, com uma sensação viciante de prazer. Queria esquecer o resto do mundo, mas principalmente a encrenca em que havia se metido. Queria ser feliz, longe dali, mas não o poderia enquanto estivesse debaixo das asas do irmão que por sinal era quase como um abutre em busca de presas.
Ron assoviou bem alto, com a boca salivando.
-Vem, seu panaca! Não tenho o dia inteiro!
Maurice obedeceu-o como um cachorro obedece ao dono.
-Que foi, Ronald? O que é que você planeja? – Maurice o vira acender a fogueira característica, mas não vira o corpo do texano. – Desta vez será carne de verdade, pelo menos?
-Não. – Engasgou com saliva.
Rice foi acudí-lo com esperteza. Bateu em suas costas, iniciando uma manobra de desengasgo. Da forma mais nojenta possível, saíram de sua boca dois glóbulos oculares azuis que pertenciam ao homem assassinado, com toda a certeza.
-Seu *ta, comeu ele inteiro, não foi? Virou um cão selvagem, ansioso por carne humana.
-Rice, meu irmão. Que ingênuo! – Deu uma risada malévola. Pegou os glóbulos que havia cuspido e colocou-os para observar os do irmão. Maurice corou o ficou com o coração na mão. –Come.
Maurice pestanejou.
-Come.
Com um tapa sorrateiro, derrubou as bolinhas que o irmão segurava. Ron abaixou-se vagarosamente e capturou as esferas que rolavam.
-Come, ou...
-Ou o que?
-Ou... – Ronald não sabia o que falar. – Ou então você vai ver.
-Ver o que?
-O que eu vou fazer com você. – O palhaço estava ficando com raiva.
-Duvido.
-Não se brinca com palhaços, caro irmão. Aquele sorriso que estampamos é somente mais uma marca do sofrimento que trazemos no peito.
Maurice desferiu-lhe um golpe digno dos samurais japoneses e correu em direção ao furgão, sem ao menos olhar para trás, e deu a partida no automóvel, que de início, não queria pegar.
-Seu *zão! Volta aqui! – Ron gritava e lançava pedaços do homem esquartejado em direção ao furgão, manchando o caminho de vermelho escarlate. – Vamos comer uns hamburgueres.
Entretanto, o homem de cuecas não queria mais fazer parte daquela loucura, e pisou fundo no acelerador, deixando o demente de seu irmão mais velho gritando e pulando de raiva, com o corpo coberto do sangue e das tripas do texano.

Ademais, ele sabia que não encontraria mais o irmão por algumas décadas.


Maurice reorganizou sua vida e, curiosamente, montou uma lanchonete (com carne bovina) que ele resolveu denominar “O Rei do Hambúrguer”, que fez muito sucesso em todos os Estados Unidos.
Os negócios cresciam, e as viagens se equacionavam em progressão aritmética, ao passo que os lucros se masterizavam e renderizavam suas campanhas fenomenais de marketing. E foi em uma dessas viagens que ele passou por uma situação que mudaria de vez sua vida.
-Bom dia, senhor. Suco, refrigerante, champanhe? – A aeromoça, de nome Mariana, trajava um elegante corpete vermelho e azul, salpicado de estrelas. Eles voavam na American Airlines, e o senhor Maurice Simons, desfrutava das viagens na classe A.
-Champanhe. – Ele pegou a taça e agradeceu.
A loira que o atendia se despediu e continuou com o carrinho.

Ao chegar em Los Angeles para participar da inauguração de mais uma filial de seu empreendimento, topou de cara com um palhaço que na hora o fez lembrar de Ronald.
-Com licensa, seu nome?
-Mark Anthuerpia.
Não era ele.
-Bom trabalho! – Maurice continuou seu caminho até a inauguração.

A festa foi excelente, com vendas superando o esperado. Já na volta para o aeroporto, com o tempo corrido, reparou em uma nova lanchonete que inaugurara no mesmo dia.
O slogan colorido e chamativo era contagiante, tanto que o fez parar e entrar.
Por dentro, a loja era mais estérica e ilusionista: Diversas garçonetes deslizavam graciosamente em cima de patins, que reduziam o tempo de entrega e ainda divertiam os frequentadores. Era, sem dúvidas, um empreendimento que faria sucesso.
Em um anúncio ao lado do caixa, vários brinquedos estavam em exposição, perto de um cartaz que oferecia os brinquedos junto ao hambúrguer com feições infantis. E, surpreendentemente, um palhaço divertido ficava por ali, encantando os clientes com mágicas e outros truques, além de certas piadas bobas.
Maurice aproximou-se do palhaço com atenção, e estendeu-lhe a mão amigavelmente.
-Com licensa? – Simons parecia confuso. Era ou não Ronald?
O palhaço respondeu da maneira mais idiota possível, sem sair so personagem e estendendo também as mãos, em um cumprimento suficientemente exagerado.
-Bom dia! – O sorriso vermelho e branco estampava felicidade. – O que você vai querer para comer?
-Nada. – Maurice tentava reparar no rosto por detrás da maquiagem. - “Ele certamente havia mudado muito com o tempo, assim como eu.”, pensou.
-Quem sabe um hambúrguer especial? – O palhaço era macabro. Maurice entendeu ali naquele exato momento o porquê daquelas pessoas que choram quando veem um. – Ou então nossa costela exclusiva?
-Não. Obrigado. Quero apensas saber o seu nome.
-Meu nome, pequenino, é Ronald.
Era ele. O irmão diabólico que ele abandonara anos atrás. Aqueles habúrgueres especiais eram na verdade feitos de carne humana.
“Espero que não me reconheça”, quase orou para Deus.
-Espera, eu te conheço? – O palhaço tocou em seu braço.
Maurice simplesmente correu.

Dois dias depois e não mais sinal do palhaço diabólico além das propagandas que inundavam a TV. As crianças adoravam o palhaço vermelho e amarelo. Maurice se preparava para dormir, em um hotel em Nova York, algo simples e compacto, sem muito luxo.
A luz tremulou por alguns instantes e se apagou.
Um vulto dançou na escuridão.
Ao voltar a energia, duas mãos envoltas em luvas brancas estavam no rosto de Maurice, prestes a sufocá-lo. Escondiam a peruca vermelha e a roupa amarela com listras carmim.

E o palhaço demoníaco sufocava-no com demência, sacudindo a presa e exclamando com satisfação para o irmão ouvir pela última vez:
-Amo muito tudo isso.
















                                

sábado, 17 de maio de 2014

Lucca

         Muitas crianças já desenvolvem desde cedo uma sede insanável de cometer maldades. Muitas delas nem ao menos apresentam tal comportamento, outras porém já se demonstram frias e cruéis.
           Lucca Harinson nascera em 1928 em Milwaukee, Wisconsin. Filho de Lion e Joy Harinson. Por ser muito tímido nunca fora uma criança que se enturmava facilmente. Devido a isso criou estranhos passatempos. O seu passatempo preferido era empalhar cabeças de cachorros e espalha-las pela mata próxima de sua casa. Ele descarnava animais com um kit de substâncias de seu pai, um PhD em química.
 Em 1940, com 12 anos de idade, sua mãe faleceu após um infarto fulminante. Diante disso, ele e o pai se mudaram para Bath Touwnship, um pequeno município em Ohio.
       Lucca fora matriculado em um colégio local, no qual sofria bullying frequentemente por parte dos colegas e até mesmo professores. Chamavam-no de estranho e não lhe davam oportunidade de se aproximar para uma possível amizade. Cheio disso, o menino armara uma brincadeira para assustar os "colegas".  Ele vitimou um pequeno gato de rua e empalhou sua cabeça durante toda a madrugada, para que na manhã seguinte ele a colocasse dentro de um armário aleatório.
         O armário era de Johan Dahmer, um popular brigão do colégio, que ao abri-lo deparou-se com uma pequena cabeça de um gato pardo rolando até o chão.
        -Quem fez isso? - gritou furioso, mas não obteve respostas de nenhum aluno que presenciara o ocorrido.
            Por sorte, ninguém sabia do cruel passatempo de Lucca.
         Algumas semanas depois da brincadeira, os alunos ainda comentavam  incidente e um deles, Alec Wilson, alegava ter visto Lucca descarnando um animal no quintal de casa. Todas as suspeitas caíram assim sobre ele.
         Sem aviso prévio, Lucca fora surpreendido por um empurrão no caminho de volta para casa. Era Johan, que satisfeito com o tombo de joelhos do estranho menino, deu a volta e seguiu seu rumo. Ao tentar revidar a agressão atirando-lhe uma pedra, uma coisa inesperada aconteceu. A pedra acertou com força a nuca do garoto que logo foi ao chão já sem vida. 
          Desesperado com o que acabara de fazer, ele pegou o cadáver pelas pernas e o arrastou para um bosque ali perto. Ele ia apenas deixá-lo ali e ir embora, mas algo o fez querer ficar. Algo que dominava sua mente.
           Lucca, com a ajuda de um canivete que carregava consigo, dissecou o corpo ainda quente. Sempre teve uma grande curiosidade em ver e tocar órgãos humanos.

         No dia seguinte a manchete de um jornal local era sobre um brutal assassinato de um jovem chamado Johan Dahmer, que fora encontrado servindo de comida para alguns animais silvestres.
        Lucca, o pequeno assassino, sorria.
        Não sentia nenhuma espécie de culpa e tinha uma certeza: nunca havia sentido prazer maior. Mas o que lhe fazia sentir tanto prazer? - Indagava - com certeza a sensação de poder e de dominação.
        Lion, seu pai, acabara de perder o emprego, que era sua única forma de sustento. Resolveram então retornar à Milwaukee, onde ainda tinham uma casa para morar, já que esta que largavam era alugada, e não tinham mais como pagar.
         Com o retorno à cidade natal, o garoto ficara livre do caso. Já Lion, transtornado com a falta de dinheiro e oportunidades de emprego como professor de química, iniciou sua vida como alcoólatra.

           Quando Lucca completou 17 anos, o pai suicidou-se tomando uma mistura de vodca com remédios para dormir. Vendo-se sozinho, ele largou os estudos e viu agora uma grande oportunidade de realizar todos os seus obscuros desejos.
       Enquanto ia ao supermercado garantir o jantar, observou uma linda jovem de vestido de poá esperando pelo bonde. Uma força maior o fez se aproximar dela. Não havia ninguém ali além dos dois. Ele retirou o paletó que usava e em um rápido movimento cobriu o pequeno rosto da garota. Ela tentava gritar por socorro, mas sempre era abafada pelas grandes mãos por cima do tecido que a cegava. Era cada vez mais difícil para ela puxar fôlego. Se debatia atrozmente, mas por fim fora vencida pelo cansaço. Desmaiou.
      Lucca a carregou para casa, onde a amarrou em uma cadeira no porão e ficou esperando ela acordar ansiosamente.
       -Meu Deus... o que está acontecendo? - disse a jovem ao acordar e deparar-se com os pés e mãos amarrados.
      -Achei que você nunca fosse acordar. - disse ele aproximando-se dela - sabia que nunca estive na presença de tão formosa moça?
          -Por que você está fazendo isso comigo? - ela indagava aos prantos.
         -Por que não fazer isso com você? - respondeu-a com uma outra pergunta e levou a mão aos cachos loiros que estavam presos em um lindo rabo de cavalo. - Como é seu nome, bela?
        A garota se recusava a dizer-lhe seu nome. A má vontade que ela tinha para com ele o irritou absurdamente, que já embriagado deu-lhe uma mordida no ombro fazendo brotar uma gota de sangue. Ela urrou de dor, mas ainda se negava a dizer seu nome.
      A gota escorreu. Era de um vermelho vivo muito atraente que chamou a atenção de Lucca. Ele aproximou-se lentamente - a menina tremia com medo do que poderia lhe acontecer . Passou a áspera língua trazendo à tona uma louca vontade de tomar mais.
        -Tudo bem , eu falo meu nome - gritou por entre soluços - não faça nada comigo por favor, por favor...
         - Ora, então me diga - disse com os lábios colados em sua orelha - e diga em alto e bom som.
        -Gladys, meu nome é Gladys. - ela chorava desesperadamente - deixe-me ir por favor, eu lhe prometo que assim que você me soltar eu não vou me lembrar de mais nada.
         As tentativas de convencê-lo foram inúteis.
      -Tarde demais minha querida Gladys. 
      Depois de provar de seu delicioso mel vermelho tivera uma tenebrosa ideia. Com a ajuda de um machado de cortar lenha no inverno, abrira sua barriga, assim como fez quando criança. Porém dessa vez sentia um desejo a mais. Abaixou-se e com as mãos em formato de conchas, tomou seu sangue. O sangue quente descia por sua garganta e lhe trazia uma incrível sensação de prazer.
       Quando já se encontrava sentado na cadeira, coçando a barriga de cheiura, pegou-se admirando o cadáver.
       -Droga. Agora tenho que sumir com isso daqui... mas como?  
      Uma ideia macabra e cômica tomou conta de seus pensamentos. Para colocá-la em pratica precisaria novamente de usar o machado já sujo do golpe mortal que dera na pequena mulher.
      Cortara-a brutalmente em pequenos pedaços, reservando os ossos e cabelos. Enchera um grande caldeirão, fazendo uma espécie de sopa de Gladys e como já estava cheio, doara a sopa para carentes que por ali passavam e aceitavam de bom grado. 
         Pobres inocentes.
       Guardara seus restos de ossos e cabelo em um pote como recordação e assim faria com com suas possíveis futuras vitimas.
      
       Meses se passaram até que ele sentira novamente uma vontade que mal podia controlar. Já estava louco, mostrava-se agitado, zangado. Era visível que ele não estava bem.
      Eram aproximadamente três da tarde quando  num surto de tal loucura, Lucca, de posse de seu companheiro machado, saiu na rua lotada assustando a todos com sua agressividade fora do comum. Tentaram contê-lo, mas quando menos esperavam, o machado encontrava-se cravado na cabeça de um banqueiro local, que saíra de casa apenas para ver o desenrolar do tumulto. O sangue escorreu. 
       Inconscientemente, Lucca pulou sobre o homem já caído ao chão e começou a lambê-lo como um cachorro.
        
        A filha do banqueiro, vira tudo pela janela de casa. Numa frieza extrema, correu até a cozinha e pegou um facão, daqueles que se usa para cortar carnes em açougue. Saira de casa sem derramar uma gota de lágrima.
        Se deparou com o homem em cima do seu pai ainda vivo e agonizando.
    Lucca parou o que estava fazendo e soltou um urro de dor. A garotinha loira havia encaixado perfeitamente a faca em suas costas. Retirou-a e cravou mais algumas vezes raivosamente em torno do local da primeira facada.  Ele caira de costas no chão. Fora perdendo os sentido, ficando fraco. Sentia frio.
      A garotinha enfiou a faca em seu peito pela ultima vez  para por fim à sua agonia e virou -se ao pai:
        -Agora vai ficar tudo bem papai. Ele já foi embora. - Ela sorria. Não sentia culpa alguma.
      Enquanto todos olhavam aquela cena atônitos, ela vira que sua mão estava suja de sangue. 
      Sentiu uma vontade incontrolável de tomá-lo e sabia que, o que acabara de fazer ainda faria muitas outras vezes, pois nunca sentira tanto prazer.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Agorafóbico

     Mais um dia se iniciava. Antes mesmo de abrir os olhos, refleti sobre meu estado de espírito. Estou com medo? Não. Tudo bem, então.
     Levantei-me e estiquei os braços. Estou com medo? não.
     Dirigi-me a cozinha em busca de algo para comer. Minha barriga roncava, e como se por ironia, na geladeira havia apenas uma pizza de molho esverdeado, o qual suspeito que seja uma galáxia de micro-organismo.
     Ir à padaria do bairro era a única saída.
     Retornei ao quarto e abri as portas do guarda-roupa. Uns dez minutos se passaram, e mesmo assim não sabia o que vestir. Ver o tempo e como as pessoas estavam talvez ajudasse. Abri a janela. Estou com medo? não.
     Olhei pela vista do meu apartamento, mas nada adiantou. Talvez houvesse alguém andando na rua, ou talvez não. O fato é que minha janela era voltada para uma área ambiental preservada.
     Uma faísca se acendeu. Havia próximo a minha morada uma área desocupada, susceptível a ser esconderijo de algum psicopata, terrorista afegão, espião russo ou comunista malthusiano. Estou com medo? ... Estou com medo? ... anda, responde logo. Estou com medo?... Minhas mãos começaram a suar. Como se respira mesmo? Ah! inspira, expira, inspira, expira... Estou com medo?... e finalmente constate: não. Ufa! Foi por pouco.
     Peguei meu casaco e dirigi-me à porta. Estava trancada. A chave! Tinha me esquecido dela. Vasculhei meus bolsos e encontrei uma reserva. Deixar meu apartamento fazia meu coração apertar. O que poderia acontecer? Posso ser assaltado, atingido por uma bala perdida, atropelado, cair em um fosso ocasionado por más condições de trens subterrâneos, atingido por um vergalhão! Estou com medo?... Estou com medo? ... não.
     Andei pela rua com cautela. Não vi rostos, roupas ou paisagens. Era tudo um borrão em meio as minhas preocupações. Passei todo o trajeto verificando se estava ou não com medo, e consegui chegar a salvo.
     A padaria Pão com Coisas estava pouco movimentada, como era normalmente. Pedi meu cappuccino e fiquei admirando a paisagem. O sol quente energizava a cidade. Crianças corriam freneticamente em torno da pracinha, deixando suas mães loucas. Bicicletas, carros, motos, vans, ônibus... faziam um alvoroço na avenida principal, ainda que seja pela manhã.
     Poucos minutos depois meu pedido ficou pronto. Dirigi-me ao balcão e um garçom tatuado com uma enorme cicatriz que cortava-lhe o olho e a bochecha direita entregou minha bebida com um olhar fixo e ameaçador. Estou com medo? não.
     Voltei a mesa e encontrei uma faca embebida em uma mistura vermelha escarlate. Estou com medo? No mesmo instante chegou um carro de polícia com as sirenes acionadas. Os militares saltaram do veículo rapidamente e com suas armas em punho, entraram no estabelecimento.
     "Achamos! Achamos! Vem vem vem vem vem", diziam eles. Estou com medo?
     O garçom veio em minha direção, segurando uma segunda faca. Estou com medo?
     Um grito engasgado saiu involuntariamente, fazendo com que o homem se aproximasse mias rápido. Caí no chão, desesperado, berrando.
    Estou com medo?... Inspira. Estou com medo? expira... 1,2... Estou com medo?... 3,4,5... Estou com medo?... Inspira
     Um dos policiais atirou em nossa direção, acertando a nuca do garçom, que caiu sob os meus pés.
     Estou com medo? 6, 7, 8... expira
     Um policial veio em minha direção, me pegou nos braços... 9... e perguntou "O que foi? O que você tem?"
     ...10
     - Medo.

("Jéssica Stewart")

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Maldita

               No dia 6 de junho, às três horas da manhã, nascia a primeira menina da família Dallas, Agatha.  Desde que fora levada para casa, coisas inexplicáveis começaram a acontecer, como barulhos, coisas tiradas do lugar . Nada para se preocupar realmente, até que em uma madrugada, Lúcia, a mãe da pequena, foi acordada por um grande estrondo. Agatha havia sido jogada para fora do berço.
             Na manhã seguinte, depois do grande susto, a mulher ainda com a filha nos braços conta ao marido o ocorrido. Sua reação fora a mais inusitada. Olhou-a fixamente, ficou extremamente pálido e foi embora sem dizer sequer uma palavra. Tarde da noite, Lúcia sentiu um movimento na cama e viu que seu marido deitava.
              -Vitor? - sem resposta e cansada demais para insistir, caiu novamente em profundo sono.
               Por anos, a situação permaneceu-se estável, porém sem melhoras. A família começou a se distanciar. Ninguém queria comentar sobre tudo o que acontecia desde o nascimento da menina.
               Seria o primeiro dia de aula de Agatha. Lúcia estava muito feliz e tinha a esperança de que tendo contato diário com outras crianças a filha poderia ter uma infância relativamente normal diante dos estranhos fatos dos quais nunca questionava.
                 Não havia passado nem uma hora desde que ela tinha deixado a criança na escola quando o telefone tocou:
                 -Sra.Dallas?
                 -Sim, com quem falo?
                 -Queira nos desculpar, mas... - pausa - não podemos ficar com sua filha.
                 - Mas o que? - A linha fora cortada.
                 Chegando à escola, a menina já se encontrava no lado de fora do portão com a mochilinha e um desenho em mãos.
                 -Querida, venha cá. - disse Lúcia estendendo os braços - conta pra mamãe o que aconteceu?
                 -Não foi eu mamãe, juro! - vendo que a mãe não a compreendia, entregou o desenho a ela. No desenho, feito em rabiscos infantis, havia a escola pegando fogo, inúmeras crianças mortas e a repetição da palavra maldita em letras garrafais. O mais estranho de toda a situação é que Agatha ainda não sabia escrever.
                 -Quem fez isso filha?
                 -O papai sabe... - Lúcia tomou a menina pela mão e correu para casa em busca de explicações do marido. Estacionou o carro do lado de fora da casa e nem se preocupou em tirar a chave da ignição. Adiantou o passo subindo as escadas ao pulos.
                 -Querida, vá para o quarto.
                 Chegou atordoada ao quarto do segundo andar assustando o marido ao gritar:
                 -Por que você não me conta? Eu sei que você sabe de tudo! Eu preciso saber... - Lúcia desfaleceu aos pés do marido.
                 Acordou ao sentir as mãos frias afagando seu rosto.
                 -Você tem razão - disse ele com lágrimas nos olhos - eu vou te contar. No século XV, um homem chamado Marlon Dallas brincou com o coração de uma bela jovem, Norma. Ela secretamente praticava bruxaria e ocultismo. Certo dia, ela recebera a notícia de que Marlon casaria-se com a prima e com o coração partido, rogou sob toda a família Dallas uma maldição na qual a próxima mulher Dallas pagaria por seu sofrimento. Durante gerações, fomos contemplados por apenas homens, até que Agatha nasceu.
               -Então você quer dizer que a minha pequena Agatha vai pagar pelos erros de um homem da sua família? Maldito seja! Maldita seja também a tal bruxa! Maldita, maldita, maldita... - A porta abriu uma fresta e a menina surgiu pálida. - Querida? - A menina caiu de joelhos no chão e soltou um grito tão estridente que chegou a estourar as janelas e o espelho do quarto. Houve um silêncio completo.
               A criança olhou para os pais chorando sangue e disse com o que parecia uma dupla voz:
              -Um Dallas provocou, um Dallas vai pagar! - Dito isso, correu a uma velocidade absurda até o pai, agarrando-lhe o pescoço, até que esforços de uma força sobrenatural, atingiu a jugular. A mulher até então atônita, ao ver o marido agonizando até a morte, empurra inesperadamente a menina em direção à janela já quebrada, fazendo-a despencar do segundo andar na grama do quintal. Cacos de vidro que ainda estavam presos na ferragem da janela foram lançados atras dela, atingindo-a bem no peito. Esse era o fim.
 Lúcia em prantos dirigiu-se até o quarto da filha, onde pegou uma foto da família e segurou-a bem forte perto do peito. Cantando uma canção de ninar, foi até o guarda-roupas e trancou-se lá dentro.
            Os vizinhos começaram a sentir falta do movimento na casa e achando estranho o cheiro de podridão que saia de lá, resolveram chamar a polícia local.
           -Tem alguém em casa? - Quando o policial fora bater a porta viu que ela se encontrava aberta. Já dentro da casa, o oficial de policia Scott se encontrava acompanhado de mais dois companheiros de turno, Hanrry e Sam.
            -Um de vocês poderia olhar o quintal e o outro o andar de cima. Vou averiguar os quartos daqui de baixo.
            Os três se separaram e a medida com que iam se afastando do hall de entrada sentiam cada vez mas forte o odor de enxofre. Sam fora até o quintal e lá encontrou o corpo de uma garotinha que aparentava estar ali a algumas semanas. Hanrry deparou-se com o corpo de um homem logo que chegou ao segundo andar. Scott não encontrara mais nada. Quando já ia de encontro aos companheiros para buscar reforços, ouviu o que parecia uma canção de ninar vinda do quarto ao lado.
            -Tem alguém ai? - disse o policial determinado a desvendar de onde vinha a canção. - Está tudo bem, é a policia. - A mulher saltou para fora do armário ao saber que a salvação chegara. Pendurou-se nos braços do policial desesperada. Ela estava visivelmente desidratada e fraca. - "Encontrei uma senhora com vida, além dos reforços, peça uma ambulância." - Disse o policial no rádio comunicador. - A senhora pode me dizer o que aconteceu aqui?
            -Maldita, maldita, maldita, maldita... - era só o que conseguia dizer.
            Lúcia foi levada ao hospital, onde averiguou-se que ela não estava de posse de suas sanidades mentais, sendo assim levada a um sanatório, onde viveu e foi assombrada pelas lembranças até se enforcar usando a própria calça, no dia 6 de junho às três horas da manhã.

("Brianna Morgan")

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Dias

Meus olhos, perdidos no silencioso horizonte observam ao gritante dourado do sol poente que rasga o toque do imenso céu azul nas negras montanhas enevoadas.
Perdido, cá estou, desventurei-me a residir esse mundo fétido, onde tudo está perdido. Sobram apenas os corpos ambulantes sem vida daqueles que um dia foram como eu, iludido. O mundo está doente e estar são já não é mais um escolha. 
            Ao longe, lenta e cambaleante se aproxima uma pobre e maldita criatura, o corpo esguio trajado em panos sujos e rasgados , a face desfigurada por cortes profundos ainda brilha em vivo sangue, fétida e suja, a sombra do crepúsculo da humanidade. Findaria-se assim a humanidade? Findaria-se assim minha vida? As perguntas insolúveis apenas aumentam o tormento da estadia limitada e precária na Terra. Em ruínas se despenca a sociedade. O fim? O fim é inevitável. A criatura ainda anda, seus olhos sem brilho e sem cor já fitam os meus, posso ouvir seus grunhidos, sua boca semiaberta pinga sangue, estica suas mãos podres a mim, sem reação aguardo o derradeiro fim, então, em um instante lembro de uma frase citada por minha mãe nas situações em que sentia medo.
 "Feche os olhos".
            Fechei-os.

Toquei-a nos lábios, toquei-a no nariz, toquei-a nos ombros, toquei-a nos seios. 
           
—Te amo— sussurrei.


            Poderia finalmente amá-la como jamais o fiz, estávamos juntos para sempre, afinal fomos feitos um para o outro.

            Beijei-a.


            Acariciei seus cabelos negros, alisei sua pele aveludada e limpei ao sang...


            Lágrimas caíram de meus olhos marejados, minhas mãos começaram a tremer, minha mente voltava á sanidade e o terror disseminara-se sobre mim.


            Jazia ali a dona do canto mais profundo, obscuro e belo do meu coração, jazia ali aquela que amei com todas as forças que tive, jazia ali a criatura mais doce que residiu esse mundo podre, o amor que cultivei por toda uma vida, em vão, jamais fui correspondido.
Matei-a, da forma mais cruel, os seus olhos sem brilho fitavam o vazio, seus lábios semi-abertos exalavam o terror que sentiu, a pele pálida tão gelada como nunca antes. O agouro de ama-la perpetuara-se em meu coração no momento em que tirei dela oque lhe era de mais precioso.

 A vida.